quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Carmen e outras histórias (1833-72) 
Prosper Merimée (1803-1870) - França            
Tradução: Mário Quintana           
Rio de Janeiro: Zahar, 2015, 532 páginas 


Dezoito contos, num total de 532 páginas, constituem a inteira obra ficcional de Prosper Merimée. E todos eles, sem uma única exceção, verdadeiras obras-primas. O autor enfrenta temas os mais diversos, conseguindo tornar alguns deles modelares no subgênero escolhido: o fantástico em “Visão de Carlos XI” e “A Vênus de Île”, o policial em “O quarto azul”, o terror em “Lokis”, o horror com fundo político em “Tamango”, o sonho em “Djumane”. Embora apresente predileção pelo exotismo – a Córsega de “Mateus Falcone” e “Palomba”, a vida cigana em “Carmen”*, a Lituânia de “Lokis”, a Itália de “Federigo” e “Il viccolo di Madama Lucrezia”, a Argélia de “Djumane”, a costa ocidental da África em “Tamango”, o campo de batalha na Grécia durante as guerras napoleônicas em “A tomada do reduto”  –, o autor trafega com a mesma competência pelas ruas de Paris (“O vaso etrusco”, “O duplo engano”, “Arsênia Guillot”) ou pela campanha francesa (“O padre Aubain”).  Merimée ainda é moderníssimo do ponto de vista formal, quando em “Arsênia Guillot” e “A partida de gamão” omite, de propósito, o final da história narrada. É dele, por fim, uma das melhores versões do mito de D. Juan, “As almas do purgatório”.


* O leitor poderá encontrar ecos da Carmen, de Merimée, na descrição que faz Machado de Assis (1836-1908) de sua Capitu, em “Dom Casmurro”, romance publicado 55 anos mais tarde: “”Sua pele muito se aproximava do tom de cobre. Seus olhos eram oblíquos, mas admiravelmente fendidos; seus lábios um pouco fortes, mas bem desenhados e entremostrando dentes mais brancos que amêndoas descascadas. Os cabelos, talvez um pouco espessos, eram negros, com reflexos azuis como a asa de um corvo, longos, luzidios”. (p. 399)



Avaliação: OBRA-PRIMA 

(Dezembro, 2015)


Entre aspas

“(...) aquele que, sem que o interroguem, nos dá parte do seu segredo, ordinariamente se ofende por não ficar sabendo o nosso. Imagina-se que devia haver reciprocidade na indiscrição” (p. 71)

“Um amante feliz é quase tão aborrecido como um apaixonado infeliz” (p. 73)

“(...) como todos os homens, era muito mais eloquente para pedir do que para agradecer” (p. 150)

“Um homem sem memória não merece que se pense nele” (p. 357)


PRIMEIRO PARÁGRAFO

O duplo engano: “Fazia cerca de seis anos que Julia de Chaverny estava casada, e mais ou menos cinco anos e meio que reconhecera não somente a impossibilidade de amar ao marido, mas ainda a dificuldade de lhe dedicar qualquer estima” (p. 105) 


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A última névoa (1935) 
Maria Luisa Bombal (1910-1980) - Chile           
Tradução: Neide T. Maia González          
São Paulo: Difel, 1984, 108 páginas 



O livro é composto por cinco narrativas, três bons contos e dois textos híbridos menos interessantes ("Tranças" e "O secreto"). Os três contos, "A última névoa", "A árvore" e "As ilhas novas", comunicam-se, quase se complementam, sendo que o fantástico cotidiano que nos dois primeiros é clima, no último é essência. A protagonista de "A última névoa" é uma mulher de rígida formação católica, casada com um primo recém-viúvo, Daniel, com quem vive numa estância nos pampas. Em uma noite de insônia, caminhando pelas ruas de uma cidade, ela se depara com um homem a quem se entrega. Esse amante por acaso reaparece em diversos momentos de sua vida, embora tudo possa ser apenas sonhos de uma mulher infeliz. A mesma insatisfação persegue Brígida, em "A árvore", que aos 18 anos casa-se com um homem bem mais velho e se surpreende com a mediocridade de sua vida quando a seringueira que existia sob a janela é cortada, deixando entrar luz em seu quarto. Assim também Yolanda, personagem de "As ilhas novas", que renega todos os pretendentes, isolada numa fazenda nos pampas, onde da noite para o dia surgem e desaparecem ilhas em lagos de água salgada. A autora expõe, por meio de uma linguagem extremamente poética, a condição de opressão e repressão sexual da mulher.

Avaliação: BOM 

(Dezembro, 2015)


Entre aspas

"Esta morta, sobre a qual não me ocorreria inclinar-me para chamá-la porque nunca houvesse vivido, sugere-me de repente a palavra silêncio". (p. 6)

"(...) o quarto parecia agora imerso numa taça de ouro triste." (p. 60)


"Talvez a verdadeira felicidade esteja na convicção de que se perdeu irremediavelmente a felicidade. Então começamos a movimentar-nos pela vida sem esperanças nem medos, capazes de fruir por fim todos os pequenos prazeres, que são os mais perduráveis". (p. 60)


"(...) a casa treme, o espelho oscila levemente e uma camélia murcha se desprende pela corola e cai sobre o tapete com o ruído brando com que que cairia uma fruta madura". (p. 90)



sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A vida de Lazarilho de Tormes (1553?) 
Anônimo - Espanha           
Tradução: Stella Leonardos         
Rio de Janeiro: Alhambra, 1984, 96 páginas 


Esta narrativa, fôrma da qual deriva toda a literatura picaresca ocidental, contempla as fortunas e adversidades de Lázaro (Lazarilho), natural de Salamanca, "filho de Tomé González e Antona Pérez", nascido "dentro do rio Tormes" (p. 15). Órfão de pai aos oito anos, o protagonista é dado pela mãe a um cego e assim iniciam-se suas desditas. Sempre lutando para não morrer de fome, vai pouco a pouco se tornando mentiroso, ladrão e covarde, tendo como mestres o cego hipócrita de quem é guia; um clérigo avaro; um escudeiro que se passa por nobre mas que o usa para mendigar comida pelas ruas de Toledo, cidade onde se estabelece*; um frade "amicíssimo de negócios seculares e visitas" (p. 76); um vendedor de falsas bulas para resgatar prisioneiros das Cruzadas. Sua vida começa a mudar quando passa a trabalhar para um capelão, repartindo água pela cidade. Dono de "um gibão de fustão velho e um saio puído (...) e uma capa que havia sido frisada e uma espada antiga (...)" (p. 91), torna-se pregoeiro e casa-se com a criada de um arcipreste de quem, aliás, todos dizem ser amante, mas que é para ele "(...) a coisa que mais quero e amo mais que a mim" (p. 96). Uma visão ácida, mas bem humorada, da sociedade espanhola, particularmente da instituição da Igreja corrupta, cínica e amoral. 


* Quando criado do vendedor de bulas, Lazarilho de Tormes acompanha o amo até a Mancha (p. 86), onde 50 anos depois nasceria o maior personagem da história da literatura universal, Dom Quixote... Curioso, isso... 


Avaliação: BOM 

(Dezembro, 2015)


Entre aspas

"(...) diz Plínio que não há livro, por mau que seja, que não tenha algo de bom (...)" (p. 13)

"'Quantos deve haver no mundo que fogem de outros porque não se vêem a si mesmos?'" (p. 17)

"- Que vos parecem estes vilões, que só com dizer somos cristão-velhos, sem fazer obras de caridade, pensam ser salvos, sem nada pôr de sua fazenda?" (p. 86)


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Homens em guerra (1917) 
Andreas Latzko (1876-1943) - Hungria          
Tradução: Cláudia Abeling         
São Paulo: Carambaia, 2015, 158 páginas  



O autor, húngaro de nascimento, escreveu em alemão este conjunto de seis contos publicado ainda no decorrer da I Guerra Mundial - e proibido de circular no território de todos os países envolvidos no confronto. Libelo pacifista, exibe a carnificina sem sentido do conflito, tendo como espaço a frente de batalha do exército austro-húngaro nas fronteiras com a Itália e a Rússia. A loucura que acomete os soldados ("A partida", "O companheiro - um diário", "A morte de um herói"), a hipocrisia e o cinismo dos comandantes ("O vencedor"), a tragédia do retorno dos combatentes desfigurados ("A volta para casa"), o horror da batalha ("Batismo de fogo"). Nesta última narrativa, a melhor do livro, acompanhamos a chegada ao front da tropa de "pedreiros, mecânicos e camponeses" (p. 46) convertidos em soldados liderada pelo engenheiro Rudolf Marschner, agora capitão, e pelo tenente Erich Weixler. Do conflito entre a repugnância do primeiro e a euforia do segundo nasce uma profunda reflexão sobre a irracionalidade humana. O texto da tradução, em geral muito bem conduzido, escorrega em algumas poucas atualizações lamentáveis - que, por serem poucas, saltam aos olhos: "focada" (p. 21), "percevejos são um porre" (p. 23), "vapt-vupt" (p. 44), "factóide" (p. 117), "chamando o Hugo" (p. 145).
   

Avaliação: MUITO BOM 

(Dezembro, 2015)


Entre aspas

"Que loucura era ficar parado ali, numa espera idiota pela morte, perecendo em meio à sujeira e ao sangue, como um animal na terra nua, enquanto os outros estavam sentados, alegres, limpos, bem-vestidos, em salas iluminadas, ouvindo uma peça musical, dormindo em suas camas macias, sem medo, sem perigo." (p. 61)

"Um civil não conseguia compreender que um general só comanda de verdade na guerra e que, durante os tempos de paz, não passa de um tipo de professor severo de colarinho dourado; um figurante que, de tanta monotonia, berra até ficar rouco". (p. 94)

"Sou realmente eu o doente, porque não consigo expressar ou escrever essa palavra sem que o ódio mais visceral engrosse minha língua? Não são os outros os loucos que, com uma mistura de fervor religioso, nostalgia romântica e simpatia envergonhada, encaram como que hipnotizados essa máquina de produzir aleijados e cadáveres? (p. 106)


sábado, 28 de novembro de 2015

Confabulário (1952) 
Juan José Arreola (1918-2001) - México          
Tradução: Iara Tizzot        
Curitiba: Arte e Letra, 2015, 158 páginas  



Coletânea de 28 narrativas curtas, bastante desiguais, algumas excelentes, como "O guarda-chaves", ou belíssimas, como "O silêncio de Deus", outras dispensáveis, como "Baby H.P." ou "Anúncio". O autor, neste livro, trafega entre metamorfoses ("O rinoceronte", "Rústico"), fábulas ("O prodigioso miligrama", "Parábola da troca"), invenções borgianas ("Sinésio de Rodes", Nabónides", "In memoriam"), invenções kafkianas ("Parturient montes", "Em verdade vos digo", "Uma mulher amestrada"), tudo perpassado por um humor insólito, mais evidente em textos como "Monólogo do insubmisso", "Uma reputação", "Carta a um sapateiro que consertou mal uns sapatos"*. Infelizmente, a abundância de subgêneros e a disparidade dos resultados acabam comprometendo o conjunto.  


* Vale a pena observar a semelhança de procedimentos com o contista brasileiro Murilo Rubião (1916-1991).


Avaliação: BOM 


(Novembro, 2015)


Entre aspas

"Durante dez anos lutei com um rinoceronte; sou a esposa divorciada do juiz McBride". (p. 23)

"Este país é famoso por suas ferrovias (...). Até agora não foi possível organizá-las devidamente, mas foram feitas já grandes coisas no que se refere à publicação de itinerários e à expedição de passagens. As guias ferroviárias abarcam e enlaçam todos os povoados da nação; emitem-se passagens até para as aldeias mais remotas e pequenas. Falta somente que os comboios cumpram as indicações contidas nas guias e que passem efetivamente pelas estações. Os habitantes do país assim esperam; enquanto isso, aceitam as irregularidades do serviço e seu patriotismo lhes impede qualquer manifestação de desagrado". (p. 32)

"Verdadeiramente queria fazer algo diabólico, mas não me ocorre nada". (p. 57)

"Naturalmente, não me conto entre as crianças felizes. Uma alma infantil que guarda pesados segredos é algo que voa mal, é um anjo lastrado que não pode tomar altura". (p. 145)

"Por que o bem é tão indefeso? Por que se deixa cair tão cedo? Mal se elaboram cuidadosamente umas horas de fortaleza, quando o golpe de um minuto vem pôr abaixo toda a estrutura. Cada noite me encontro esmagado pelos escombros de um dia destruído, de um dia que foi belo e amorosamente edificado" (p. 146)



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

(
Soldados rasos (1929) 
Frederic Manning (1882-1935) - Austrália          
Tradução: Fal Azevedo         
São Paulo: Carambaia, 2014, 476 páginas  


O soldado raso Bourne, um daqueles sujeitos "(...) que tentam cruzar a ponte antes mesmo de chegar a ela" (p. 172), distingue-se de seus camaradas pela indiferença com que encara o dia a dia da guerra. Australiano, ex-aluno de Eton, uma das mais tradicionais e elitistas escolas da Grã-Bretanha, ele conquista a simpatia de seus iguais e a confiança dos superiores pela generosidade com que divide os pacotes que recebe da família (uísque, doces, bolos, cigarros) e o destemor com que enfrenta os perigos no front. A narrativa, que cobre o período de julho a novembro de 1916, durante a chamada Ofensiva do Somme, uma das batalhas mais sangrentas da história da Humanidade, acompanha os intermináveis preparativos para a entrada em ação do batalhão ao qual pertence Bourne. As simulações, as marchas, o tédio, a ansiedade, as primeiras escaramuças, a longa espera até finalmente ocuparem as trincheiras enlameadas e enfrentar os alemães a poucos passos. Ironicamente, Bourne, que se sentia confortável na pele de soldado raso - "um homem que lutava desesperadamente por si mesmo e consciente de que, em última instância, estava sozinho" (p. 290) - acaba se sobressaindo e recebendo uma promoção, que, no entanto, chega muito tarde. Um romance sobre o absurdo da existência humana.



Avaliação: BOM   

(Novembro, 2015)


Entre aspas

"Os homens se unem mais intimamente pelas lembranças triviais que compartilharam do que pelas obrigações mais sagradas (...)" (p. 176)


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Kaos e outros contos sicilianos (1910-20) 
Luigi Pirandello (1867-1936) - Itália         
Tradução: Fúlvia M. L. Moretto        
São Paulo: Nova Alexandria, 2001, 128 páginas  


Esta coletânea reúne sete contos que, tendo como cenário comum a Sicília, terra-natal de Pirandello, evidenciam à perfeição a visão extremamente pessimista do autor em relação à Humanidade, ao mesmo tempo em que expõem seu olhar solidário para com os indivíduos, vítimas do destino implacavelmente cruel. Aqui nos deparamos com algumas narrativas magistrais: a mãe que na miséria recusa qualquer ajuda ou contato com um filho bom e dedicado, porque ele é a cara do pai, um monstro que assassinou seu marido e a estuprou ("O outro filho"); traído, Bruno Celesia é ridicularizado por toda a cidade, e no único ato heróico que comete em toda a sua vida, salva, sem querer, o amante da mulher ("Ao valor civil"); viúva ainda jovem, Adriana Braggi compreende que jogou fora sua existência no momento em que já não resta mais nada a fazer ("A viagem"). Destaque ainda para os "Colóquios com os personagens", magníficos exercícios de autorreflexão sobre a importância da arte, principalmente em momentos em que tudo parece perder o sentido (no caso, a carnificina da I Guerra Mundial). Mesmo quando se limitam a simples anedotas, como em "A bilha", "Requiem" e "A morta e a viva", os relatos são tão bem construídos que ultrapassam o que vai escrito: não lidamos com personagens, mas com extratos da vida.


Avaliação: OBRA-PRIMA  

(Novembro, 2015)


Entre aspas

"(...) as mulheres, nas quais desde a infância esterilizava-se obrigatoriamente qualquer instinto de vaidade, casadas sem amor, depois de se terem ocupadas como empregadas com os afazeres domésticos, sempre os mesmos, definhavam miseravelmente com uma criança no colo ou com o terço na mão à espera que o homem, o patrão, voltasse para casa". (p. 93)

 "(...) a vida (...) nós a damos aos filhos para que sejam eles a vivê-la e nos contentamos se algum reflexo chega até nós; mas não nos parece mais a nossa; a nossa, para nós, aqui dentro, permanece sempre aquela que não demos mas que, por nossa vez, nos foi dada; aquela que, por mais que se alongue no tempo, conserva sempre dentro de si o primeiro sabor de infância e o rosto e os cuidados de nossa mãe e de nosso pai e a casa de antigamente como a haviam feito para nós... Você pode sabê-lo como foi aquela minha vida porque tantas vezes lhe falei dela; mas viver uma vida (...) é outra coisa..." (p. 121)

"Agora que você está morta, não digo que não esteja mais viva para mim; você está viva, viva como você era, com a mesma realidade que por tantos anos eu, de longe, lhe dei, pensando em você, sem ver seu corpo, e você estará sempre viva enquanto eu for vivo; mas (...) eu agora não estou mais vivo e nunca mais estarei vivo para você! Porque você não pode mais pensar em mim como eu penso em você, você não pode mais sentir-me como eu a sinto! E é exatamente isso, mamãe, exatamente por isso que aqueles que se julgam vivos julgam também estar chorando seus mortos e pelo contrário choram sua própria morte, uma própria realidade que não mais se encontra no sentimento daqueles que partiram." (p. 127)

domingo, 15 de novembro de 2015

Encontros com Liz e outras histórias (1923-31) 
Leonid Dobytchin (1894-1936) - Rússia        
Tradução: Moissei Mountian       
São Paulo: Kalinka, 2009, 180 páginas  


São 21 contos, a obra completa do autor, publicados em dois volumes (Encontros com Liz, em 1927, e O Retrato, em 1931, além de três inéditos). Relatos sincopados, expressionistas, vertiginosos*, têm como personagens a classe média baixa, limítrofe à marginalidade, vivendo na periferia de uma cidade (São Petersburgo?) no conturbado período entre a instalação dos bolcheviques no poder e a consolidação do estalinismo. As narrativas não contam necessariamente histórias, mas constroem, em poucas linhas de frases curtas, situações que se sucedem, muitas vezes deixando o leitor em suspenso. Com fina ironia, Dubytchin expõe o ridículo da militarização da sociedade civil (por meio de competições e culto à ginástica, como em "Lídia"), a crescente burocratização ("Konopátchikova", "A acompanhante de enfermos"), o incentivo à espionagem e à delação ("Sávkina", "Material"), a  instrumentalização da arte ("O jardim"), o embate entre costumes camponeses arraigados e os novos tempos ("Por favor"), o homossexualismo ("Ninon") , a prostituição ("A despedida"). A presença da morte é constante ("Encontros com Liz" e outras), e há até mesmo uma estranha vinculação entre cemitérios e o amor (como em "O pai", por exemplo). O livro não é de fácil leitura, mas descortina um universo fascinante.


* Que curiosamente me fazem lembrar o brasileiro Dalton Trevisan (1925)  


Avaliação: MUITO BOM 

(Novembro, 2015)



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Nada de novo no front (1929) 
Erich Maria Remarque (1898-1970) - Alemanha       
Tradução: Helen Rumjanek        
São Paulo: Abril, 1974, 236 páginas  




Incitados pelo professor de ginástica, Paul Bäumer e seus colegas de turma decidem alistar-se no exército. Em 1914, já se encontram na frente de batalha na fronteira com a França. Este é o relato de Bäumer, um jovem idealista que deixou para trás "(...) um começo de drama (...) e um monte de poemas" (p. 26), e sua transformação em um ser aniquilado, cuja única preocupação é sobreviver mais um dia em meio à matança sem sentido. O campo de batalha, onde enfrentam os rigores do clima, os ratos, a lama, os piolhos, a fome, a artilharia constante, o gás mostarda, torna todos "(...) duros, desconfiados, vingativos e brutais (...)" (p. 31). Um a um vão caindo os colegas de escola - Behm, Kropp, Müller, Leer, Kemmerich - e os de farda - o ferreiro Tijaden, o turfeiro Westhus, os camponeses Detering e Katczinsk - sem sequer compreender por que estão lutando. Em outubro de 1918, poucos dias antes do armistício, Bäumer é morto, "no rosto uma expressão tão serena, que parecia satisfeito de ter terminado assim" (p. 235). Tinha 22 anos, e, como os companheiros de geração, achava-se "sem raízes e sem esperanças" (p. 234). Impressionantes os trechos em que narra a agonia de um soldado (p. 109-110) ou o assassinato de um inimigo (p. 172-188). Um triste libelo contra a estupidez humana. 


Avaliação: MUITO BOM 

(Novembro, 2015)


Entre aspas

"(...) quando você ensina um cachorro a comer batatas, e, depois, dá-lhe um pedaço de carne, ele o abocanhará a despeito disto, porque está em sua natureza. E se você der autoridade ao homem, acontece a mesma coisa: ele vai-se atirar a ela. Isto vem naturalmente: o homem, no começo, é um animal, e, só depois, como um pão que recebe manteiga, deixa-se recobrir com uma camada de decência". (p. 45)


"Nada sei sobre eles, só que são prisioneiros, e é exatamente isto que me impressiona. Suas vidas são anônimas e sem culpa; se soubesse algo mais a seu respeito, como se chamam, como vivem, o que esperam, o que os atormenta, talvez o meu sentimento tivesse um objetivo concreto, e pudesse transformar-se em compaixão. Mas, agora, vejo por trás deles apenas a dor anônima da criatura humana, a terrível melancolia da vida, e a falta de piedade dos homens". (p. 160)

"Parece que se apagaram as diferenças que a cultura e a educação criaram, e quase não as reconhecemos mais. (...) É como se, antigamente, tivéssemos sido moedas de países diversos; derreteram-nas, e, agora, todas têm o mesmo cunho. Se se quiserem reconhecer as diferenças, então é preciso examinar cuidadosamente o metal. Somos soldados, e só depois, e de uma maneira estranha, quase envergonhada, é que somos indivíduos". (p. 218)




sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Doutor Glas (1905) 
Hjalmar Söderberg (1869-1941) - Suécia      
Tradução: Guilherme da Silva Braga       
Curitiba: Arte & Letra, 2014, 172 páginas  





Tyko Gabriel Glas tem 33 anos, mora em Estocolmo, é médico, interessa-se por música, literatura e filosofia, e "nunca esteve próximo de uma mulher" (p. 9). Vai anotando em seu diário, que abarca os meses de junho a outubro (verão e parte do outono no Hemisfério Norte), fatos desimportantes de seu cotidiano pacato. Um dia, recebe em seu consultório a visita de uma jovem, Helga, casada com um pastor bem mais velho, Gregorius. Ela tem asco do marido - na verdade, confessa, tem um amante de sua idade - e quer que o médico convença Gregorius a evitar manter relações sexuais com ela. Fascinado pela mulher, por quem se apaixona, Glas aceita a incumbência. Primeiro, inventa que ela tem uma doença impeditiva; depois, fantasia que ele tem uma patologia cardíaca. No entanto, em nome da religião, o pastor estupra a mulher. Indignado, Glas passa a planejar seu assassinato. Consumado um crime perfeito, descobre que, embora rejeitada pelo amante, Helga nunca iria se interessar por ele, afundada na melancolia e na solidão. Doutor Glas é um exemplo interessante do conceito de "ato gratuito" dostoievskiano. Só que, ao contrário dos romances do russo, aqui não há lugar para a culpa. O médico acredita que livrou o mundo de um canalha. Após isso, mergulha novamente em sua vida medíocre.


Avaliação: MUITO BOM 

(Novembro, 2015)


Entre aspas

"As pessoas querem ser amadas; se não for possível, admiradas; se não for possível, temidas; se não for possível, detestadas e desprezadas. Querem despertar sentimentos nos outros." (p. 75)

"O mundo não é bom para os que amam." (p. 87)

"(...) as pessoas não se importam com a felicidade, mas buscam o prazer. Buscam o prazer mesmo contra os próprios interesses, contra as próprias crenças e opiniões, contra a própria felicidade..." (p. 125)


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Mathilda (1820) 
Mary Shelley (1797-1851) - Inglaterra     
Tradução: Bruno Gambarotto      
São Paulo: Grua, 2015, 153 páginas  



Publicado somente em 1959, ou seja, 139 anos depois de escrito, esse romance da autora de Frankenstein expõe um tema que é um dos maiores tabus da sociedade humana, o incesto - no caso, não consumado. Mathilda, nascida de um "homem de elevada posição" (p. 14) e de uma mulher de "pequena fortuna" (p. 17), que se amavam intensamente, fica órfã logo após o nascimento. Inconsolável, o pai deixa-a com uma tia e perde-se no mundo, "entregue à mais profunda melancolia" (p. 21). Criada em uma propriedade rural no interior da Escócia, ela cresce solitária e triste. Após 16 anos, o pai retorna e ao vê-la toma-se de paixão pela filha. Transfere-a para Londres, mas por pouco tempo, pois, incomodado pela possibilidade de ela ser cortejada por outros, encaminha-a para o nordeste da Inglaterra. Lá, acaba confessando sua loucura e, perturbado, decide fugir. Mathilda, entre o horror da descoberta e o desejo reprimido, vai atrás do pai, mas encontra-o já morto, após suicidar-se. Ela então se recolhe em um lugar ermo no norte da Inglaterra, onde conhece por acaso um poeta, que se torna seu confidente. Tuberculosa, ela prepara-se com alegria para a morte, que a colocará "em eterna união mental" com o pai, de quem, anseia, "nunca mais" se separará (p. 149). Enquanto aguarda o fim, escreve suas memórias.


Avaliação: MUITO BOM 

(Novembro, 2015)


Entre aspas

"Antes minha vida fora como um agradável regato bucólico, jamais destinado a deixar os prados nativos e, uma vez cumprido seu percurso, absorvido para não deixar rastro. Parecia-me, agora, que eu era um rio de variados trechos e correntes atravessando uma paisagem fértil e aprazível, sempre em transformação, sempre belo. Ai de mim! Eu não conhecia os selvagens eremitérios que estava prestes a encontrar; as rochas que lhe cortariam as águas e a paisagem monstruosa que encontraria o mais distorcido reflexo em suas ondas". (p. 38)


"(...) para alguém que sofre, uma cidade grande faz-se pouso assustador". (p. 98)







segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Fábulas fantásticas (1899) 
Ambrose Bierce (1842-1913) - Estados Unidos    
Tradução: João da Fonseca Amaral     
Lisboa: Estampa,  s/d, 225 páginas 




O título é irônico. Se são fábulas, entendendo o termo como uma narrativa de ficção breve com conteúdo moral explícito, não são fantásticas. Este volume reúne 142 textos curtos que tratam de temas tão distintos como política, religião, jornalismo, literatura, relações amorosas, justiça, etc, sempre com clave satírica. A sátira é um gênero usado para ridicularizar as instituições e os homens que as criam - tem poder de corrosão, mas em geral esgota-se em si mesma. As histórias deste livro, ainda que utilizando ora animais, ora tipos humanos, são simples reproduções naturalistas da realidade. A mim soam como iluminar o óbvio. Não fazem rir, não fazem pensar. Apenas constatam. Não têm transcendência, característica que transforma um texto de ficção em Arte.   



Avaliação: NÃO GOSTO 

(Outubro / novembro, 2015)







domingo, 1 de novembro de 2015

Frenesi de verão (1931) 
Erskine Caldwell (1903-1987) - Estados Unidos    
Tradução: Maslowa Gomes Venturi     
São Paulo: Ibrasa, 1967, 157 páginas 




Coletânea de 24 contos breves que tematizam a vida de gente pobre, ignorante e violenta de núcleos rurais ou pequenos povoamentos de uma faixa que estende pelo leste dos Estados Unidos, da Georgia e Virgínia à fronteira com o Canadá. O livro enfeixa algumas obras-primas da narrativa curta, como "Sábado à tarde", uma das mais contundentes peças de ficção da literatura mundial sobre o racismo, ou o magnífico "A velha de Joe Craddock", que em duas comoventes páginas relata o destino de Julia Craddock, mãe de 11 filhos, que, após trabalhar todos os dias de quatro da manhã às nove da noite durante dez anos, sem nunca ter saído do sítio, morre, aos 35 anos. Quando volta da funerária, lavada, unhas tratadas, rosto coberto de pó de arroz e rouge, rolinhos de algodão dissimulando a face cavada, está tão bonita que nem é reconhecida pelo viúvo e filhos (p. 69-70). A impossibilidade do amor é assunto recorrente, como nos ótimos "A estação dos morangos", "A hóspede", "A união de Marjorie". À selvageria presente em "Memorandum" e "Dia de pagamento no rio Savannah", o autor contrapõe a ternura de "Molly Rabo-de-Algodão" ou "As dez mil caixas de cereja". Mas, embora não comprometam, há anedotas dispensáveis, como "Uma garota bonita", "Dizem...", "John, o índio e George Hopkins".





Avaliação: MUITO BOM

(Outubro / novembro, 2015)






sábado, 31 de outubro de 2015

Contos cruéis (1883) 
Villiers de L'Isle-Adam (1839-1889) - França     
Tradução: Fernanda Barão       
Lisboa: Estampa, s/d, 150 páginas 



Aqui o leitor é induzido a erro: trata-se apenas de uma seleção de oito das 29 narrativas presentes na coletânea que dá título ao livro original. O autor pertence a uma época que premia o beletrismo, portanto muitas vezes os textos ficam prejudicados pelo excesso de torneios verbais. Os temas são variados, embora possam ser agrupados em contos fantásticos ("Vera" e "Intersigno"), absurdos ("O conviva das últimas festas" e "Narrativa sombria, mais sombrio narrador", "Os salteadores"), de recriação histórica ("Impaciência da multidão" e "O anunciador") e até mesmo uma realista diatribe contra o mundo literário da época, o sarcástico "Dois augúrios". Os destaques vão para "Intersigno", que consegue criar uma impressionante atmosfera, misto de estranheza e melancolia; os cruéis - justificando a nomenclatura escolhida pelo autor - "O conviva das últimas festas", sobre um aristocrata, verdugo por prazer, e "Os salteadores" e "Impaciência da multidão", que discutem a loucura que acomete as aglomerações humanas, quando tomadas pelo medo e pela estupidez; e "Narrativa sombria, mais sombrio narrador", em que um ato impensado redunda em tragédia*.


* É patente a influência do autor sobre o escritor brasileiro João do Rio (1881-1921), na escolha dos temas, na criação da atmosfera, na estranheza dos personagens. 


Avaliação: BOM

(Outubro, 2015)





quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O coração é um  caçador solitário (1940) 
Carson McCullers (1917-1967) - Estados Unidos    
Tradução: Marcos Santarrita     
São Paulo: Abril, 1984, 316 páginas 



Não gosto do título - soa piegas, promovendo assim uma falsa impressão acerca de um livro que é tão denso, corajoso e profundo, que às vezes torna-se difícil acreditar que tenha sido escrito por uma jovem de apenas 23 anos. A narrativa transcorre nos anos imediatamente anteriores ao início da II Guerra Mundial e tem como cenário uma pequena cidade industrial de um estado pobre, violento e racista do sul dos Estados Unidos (a Geórgia natal da autora, talvez, ou o vizinho Alabama). O romance descreve os encontros e desencontros entre personagens inesquecíveis: o enigmático Biff Brannon, dono de um restaurante popular; a sonhadora adolescente Mick Kelly; o enigmático surdo-mudo John Singer; o confuso agitador Jake Blount; o médico negro socialista Dr. Benedict Copeland e sua filha, a empregada doméstica Portia... Todos esses, e mais aqueles que os cercam, homens e mulheres, brancos e negros, jovens e velhos, fadados à solidão, à incompreensão, à frustração. Só dois aspectos me desagradam nessa quase obra-prima: alguns erros de composição* (principalmente relativos ao tratamento do tempo transcorrido) e a opção por caracterizar a fala dos negros pobres por meio da reprodução de erros gramaticais (ao invés de recriá-la artisticamente), provocando um estranhamento desnecessário.
  


* Abaixo, dois exemplos:
1) O surdo-mudo Spiros Antonapoulos é internado em um asilo para loucos numa cidade distante 300 quilômetros do cenário da história. O narrador comenta, à pág. 181, que "fazia mais de um ano já" que o fato transcorrera, para na pág. 194 escrever que "já faz cinco meses e vinte um dias"...  
2) À pág. 282, o narrador anota: "A viagem era longa. Pois, embora a distância (...) fosse de pouco menos de trezentos quilômetros, o trem desviava-se para pontos muito afastados do caminho e parava longas horas em determinadas estações durante a noite". Logo à pág. 287, quando o personagem está voltando desta viagem, vai escrito: "Chegou à estação dois minutos antes do trem partir e mal teve tempo de arrastar sua bagagem para dentro e arranjar uma poltrona. (...) À meia-noite, puxou a cortina da janela e deitou-se no assento. (...) Nessa posição, quedou-se num estupor de madorna por cerca de doze horas. O condutor teve de sacudi-lo quando chegaram".
  


Avaliação: MUITO BOM

(Outubro, 2015)




 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O homem que queria ser rei (1888) 
Rudyard Kipling (1865-1936) - Índia   
Tradução: Sérgio Flaksman    
São Paulo: Grua, 2015, 74 páginas 


Escritor inglês nascido na Índia, Rudyard Kipling oferece ao leitor, nesse conto longo, a história de dois aventureiros, Peachey Carnehan e Daniel Dravot, que resolvem constituir um reino num lugar remoto da Ásia Central chamado Cafiristão, nas montanhas geladas para além do Afeganistão. Aquilo que aparentemente soa como um delírio, os amigos conquistam pelo poder das armas e pela manipulação das crenças locais - eles se apresentam aos nativos como deuses sobre-humanos. Tudo começa a desmoronar quando Dravot, senhor de um grande exército e dono de um amplo território, torna-se presa de seus próprios devaneios e passa a comportar-se como um ser divino e caprichoso. Insatisfeitos, seus súditos se rebelam: Dravot é morto e Carnehan, seu lugar-tenente, crucificado. Após milagrosamente resistir às torturas, Carnehan é libertado e volta à Índia carregando o único bem que lhe resta, a cabeça do amigo. Enlouquecido, morre num hospício. A narrativa é uma clara alusão ao imperialismo britânico e aos males advindos da ambição desmedida.




Avaliação: BOM

(Outubro, 2015)



Entre aspas

"Falamos da política - do ponto de vista dos Vagabundos, que enxergam as coisas de baixo, num ângulo que revela os pontos onde o gesso e as madeiras não foram bem lixados (...)" (p. 13)