quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A voragem (1924)
José Eustasio Rivera (1888-1928) - COLÔMBIA 
Tradução: Reinaldo Guarany 
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, 237 páginas




História de paixão e brutalidade, narra a descida ao inferno do poeta Arturo Covas - o protagonista transforma-se de aspirante a intelectual urbano em cruel evadido, contaminado pela paisagem, primeiro dos planaltos inóspitos e mais tarde da selva indomável. Arturo rapta Alícia em Bogotá e, sem condições de enfrentar a família dela, partem ambos para o interior da Colômbia, buscando ganhar tempo até que os ânimos se apaziguem. Mas à medida em que deixam as franjas da "civilização" as coisas fogem ao controle. Arturo se desinteressa por Alícia e essa escapa com bandidos para a floresta, em plena febre da extração da borracha. Então, corroído pelos sentimentos de traição e despeito, Arturo vai atrás da amada, embrenhando-se mais e mais no "coração da treva" metafórica e concreta. O Autor demonstra força descritiva, mas o livro às vezes se perde em exotismos, em linguagem parnasiana, em interpolações explicativas de usos e costumes. Há mesmo, no meu entendimento, um erro de composição - um romance naturalista, tradicionalíssimo em seu formato, intercala, entre meados da segunda parte e início da terceira, uma longa história paralela, da tragédia de Clemente Silva, que distrai e enfraquece o enredo principal. O ponto alto do livro é a pintura de uma natureza que nada tem de idealizada, é o relato da escravidão imposta aos homens brancos por outros homens brancos e o total desprezo que todos demonstram pelos indígenas e pelas mulheres, vistos como subumanos ou não-humanos. É interessante observar que o Brasil e os brasileiros aparecem em diversas passagens do romance, principalmente na terceira e última parte.



(Setembro, 2017)




Avaliação: BOM

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Mulheres sós (1949)
Cesare Pavese (1908-1950) - ITÁLIA  
Tradução: Julia Marchetti Polinesio 
São Paulo: Brasiliense, 1988, 127 páginas




O Autor assume uma voz feminina, a da costureira da alta moda, Clelia Oitana, para expor os impasses e desafios da nova mulher que surgia no pós-guerra. Clelia nasceu em Turim e, "começando do nada, saindo de um pátio que parecia um buraco" (p. 15), conseguiu tornar-se uma profissional respeitada em Roma. Agora, quinze anos mais tarde, volta à cidade-natal para instalar um filial da loja da qual é gerente, e vai conviver com a elite turinesa. Independente, financeira e afetivamente, ela acompanha com olhos críticos a vida vazia de aristocratas e burgueses, consumida em festas, passeios, confusões, tudo regado a muita bebida e conversa fútil, pessoas essas que, descobre aos poucos, "viviam como gatos, sempre prontos a se atacar" (p. 40). Neste meio destacam-se as "mulheres sós", que tentam se impor rompendo com o padrão esperado de casamento e filhos: Momina, a baronesa; a loura Mariella; Nene, a escultora; e a sensível e deslocada Rosetta Mola. A grande questão é como sobreviver mergulhadas em mundo machista e sem perspectivas. Clelia, mais velha, se pergunta "se valia a pena lutar tanto para chegar onde estava e não ser mais nada" e conclui: "eu me consolava pensando que minha vida não valia pelas coisas que tinha obtido ou pela posição que tinha alcançado, mas pelo fato de tê-las obtido e alcançado" (p. 80). Cada uma dessas "mulheres sós" abdicou de algo, mas a decisão radical tomou-a Rosetta Mola, que após uma tentativa frustrada, finalmente consegue se matar tomando veneno, porque "queria apenas ficar sozinha e fugir do barulho, e no seu ambiente não [era] possível se isolar" (p. 84). Narrativa desoladora de personagens que sentem "nojo de viver, nojo de tudo e de todos, do tempo que corre tanto, mas que nunca passa" (p. 61).




(Setembro, 2017)




Avaliação: MUITO BOM


Curiosidade:

É estranho que o Autor apresente uma personagem secundária, a escultora Nene, duas vezes, com descrições quase idênticas, mas com uma enorme diferença de idade:
à pág. 32 ela, "jovem e magra", "era uma estranha moça, de lábios grossos, que devia ter uns vinte e cinco anos. Tinha um sorriso bonito, de criança, mas seu jeito elétrico era desagradável".
à pág. 87 ela ressurge com "lábios grossos e franjinha, com seu modo atrevido de rir como uma criança. No entanto, devia ter trinta anos (...) Que moça estranha; parecia um pequeno réptil." 


Entre aspas:

"O homem é o único animal que melhora vestido". (pág. 13)

"Não se pode amar alguém mais do que a si mesmo. Ninguém consegue salvar quem não se salva sozinho". (pág. 22)

"Uma mulher que vale mais do que o homem que a toca, é uma infeliz". (pág. 37)


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Velha França (1933)
Roger Martin Du Gard (1881-1958) - FRANÇA 
Tradução: Alexandre Cabral 
Rio de Janeiro: Portugália Brasil, s/d, 84 páginas




A narrativa acompanha um dia na vida do carteiro Paul Joigneau que, junto com seus dois cachorros, Pic e Mirabole, percorre as poucas ruas da aldeia de Maupeyrou. Estamos no Entre Guerras e o interior da França vive um momento de paz, apesar das dificuldades econômicas. Joigneau  serve de ligação entre os mais diversos habitantes, de quem conhece a vida pública e também os segredos, já que não hesita em bisbilhotar a correspondência, antes de distribuí-la. Em um texto evocativo, ficamos, em poucas páginas, íntimos de inúmeros personagens: o idealista professor Ennberg e sua irmã; os esquerdistas que se congregam no Café Tabac, dos Bosse; os direitistas reunidos em torno do senhor Ferdinand, cabeleireiro-perfumista; a senhora Loutre, mulher do hortelão, que acreditando que o marido havia morrido na guerra, colocou para dentro de casa um "fritz" (alemão), prisioneiro de guerra, e agora vive em perfeita harmonia com os dois; o velho casal de refugiados belgas, à espera da morte; os três pensionistas de guerra, Pascalon, Tulle e Hostin; as três viúvas da guerra, senhoras Sicagne, Gueudet e Touche; os Pâqueux, irmão e irmã, acusados de manter o pai preso em condições subumanas; o presidente da Câmara, Arnaldon, e sua filha solteirona; o decadente aristocrata Des Navières; o angustiado padre Verne... Uma galeria impressionante de personagens, "uma raça desconfiada, invejosa, calculista, que a cupidez destrói como se fosse um cancro" (p. 26). Apesar desse julgamento terrível, o narrador  devota a todos um olhar de compreensão, pois sabe, como o padre Verne, que "vivem como se eles próprios fossem eternos, sem entrever o abismo que os espera ao cabo da caminhada, nem como esta caminhada para o abismo será breve" (p. 80).


(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM

Entre aspas:

"Há pensamentos que é preciso afastar sistematicamente, se se procura conservar intacta a coragem". (pág. 83)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O mistério Frontenac (1933)
François Mauriac (1885-1970) - FRANÇA 
Tradução: Eunice Gruman 
Rio de Janeiro: Globo, 1988, 160 páginas





Narrativa delicada e melancólica sobre a passagem do tempo e a destinação que damos à nossa vida. Estamos na primeira década do século XX, na região de Bordeaux. Os Frontenac são donos de uma madeireira e de vastas terras. Michel morreu deixando a viúva, Blanche, da aristocrática família Arnaud-Miquieu, com cinco filhos pequenos: Jean-Louis, Yves, José, Marie e Danièle. Xavier, que mantinha uma relação de profunda admiração pelo irmão, praticamente renuncia à vida e à herança para garantir um futuro mais tranquilo aos sobrinhos. Acompanhamos então o crescimento das crianças: o bondoso e generoso Jean-Louis obrigado a abrir mão de suas pretensões de se tornar professor de filosofia para assumir os negócios da família; o sonhador Yves radicando-se em Paris em nome de uma carreira de escritor e que acaba imerso na futilidade da capital; o arrivista José indo cumprir o serviço militar no Marrocos para afastar-se da vida dissoluta que levava; e Marie e Danièle cumprindo o papel reservado às mulheres da província, na época, de se casarem e tornarem-se mães. Conhecemos os personagens, intensamente humanos em sua complexidade, por meio de rápidas e precisas pinceladas: o pragmatismo de Blanche; o moralismo doentio de Xavier, que esconde a mulher por não serem casados; as tentativas fracassadas de Jean-Louis de implantar melhorias para os trabalhadores na firma em que os Frontenac são sócios; os amores devassos de Yves; as dívidas contraídas por José. E vêm as mortes... o câncer de Blanche, a angina de Xavier... mais tarde, já fora do tempo da narrativa, José caído num campo de batalha, em 1915... E a certeza de que somente a crença na imortalidade da alma pode provocar alguma paz: "toda a família obteria a graça de unir-se por um único abraço, de confundir-se para sempre na terra adorada, no nada" (p. 159).



(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM

Entre aspas:

"A morte não nos entrega somente aos vermes, mas também aos homens; eles roem as lembranças e as decompõem (...)" (pág. 123)

domingo, 3 de setembro de 2017

Um dia na vida de
Ivan Deníssovitch (1962)
Aleksandr Soljenítsin (1918-2008) - RÚSSIA
Tradução: António Pescada
Porto: Sextante, 2017, 175 páginas



Não se trata propriamente de uma narrativa de ficção, mas de uma espécie de documento com utilização de técnicas de romance. Aliás, o próprio Autor, em nota posterior à edição francesa de 1973, confessa que as personagens são reais, "recolhidas da vida no campo [num gulag], e as suas biografias são autênticas". E o livro é exatamente o que promete o título: um dia na vida do prisioneiro Ivan Deníssovitch Chúkov no campo de concentração de Ekibastuz, nas estepes geladas do que hoje é o Cazaquistão, naquela época parte da extinta União Soviética. O ano é 1951 e estamos em pleno inverno - a temperatura, naquele dia, não passa dos 17 graus negativos e com a chegada da noite cairia para até 40 graus negativos. O camponês Chúkov tem 40 anos, oito dos quais vividos encarcerado, primeiro no campo de concentração de Ust-Ijmá e agora em Ekibastuz. Como a maioria dos companheiros de prisão está magro, quase sem dentes (perdidos para o escorbuto), e toda a sua energia se volta para sobreviver a mais um dia de trabalhos forçados. Descrevendo a vida de S-854 (os prisioneiros não têm nome, mas números), o narrador expõe a corrupção dos oficiais encarregados do campo, a permanência de uma hierarquia social entre os reclusos, a arbitrariedade das ações, a tortura do enclausuramento na solitária, onde o prisioneiro, na melhor das hipóteses, saía tuberculoso, devido ao frio, à umidade e à má alimentação (p. 160). Chúkov foi preso em 1941, em plena guerra, acusado de "cumprir uma missão de espionagem alemã" (p. 68), mas nem ele nem os seus julgadores conseguiram definir o que significava essa sua "traição à pátria". Assim, após ser espancado, Chúkov calculou: "se não assinasse [a confissão], ganhava um sobretudo de madeira; se assinasse, ao menos ainda viveria um pouco" (p. 68-69). O narrador mostra o processo de dessubjetivização dos prisioneiros, cujo pensamento se resume a: "falta pouco para a alvorada? Quanto falta para a formatura? E para o almoço? E para o recolher?" (p. 163). Importante como peça acusatória contra a ditadura estalinista soviética (extensiva aos regimes totalitários de maneira geral), o livro no entanto é modesto do ponto de vista literário.



(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM