segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Dois contos introdutórios 
Honoré de Balzac (1799-1850) - FRANÇA  
Tradução: Ubiratan Machado 
 São Paulo: SESI-SP Editora, 2017, 78 páginas


Esta seleção reúne dois contos do Autor: "Uma paixão no deserto", de 1832, e "A Grande Seteira", finalizado em 1842. O primeiro conta um inacreditável acontecimento, a paixão de uma pantera selvagem por um soldado francês perdido no Saara durante as campanhas napoleônicas. Perfeito em sua confecção, consegue extrair erotismo de uma relação absolutamente improvável. (E aqui cabe um parênteses: certamente Guimarães Rosa (1908-1967) leu esse conto e nele se inspirou para escrever a sua própria versão, "Meu tio o Iauaretê", publicado postumamente em "Estas estórias", de 1969. O cenário é o sertão, o protagonista é um caçador e a coadjuvante é uma onça, mas trata-se do mesmo enredo, com, diga-se de passagem, resultado muito superior do texto do Autor brasileiro). Na outra história, "A Grande Seteira", nos deparamos com o médico Bianchon, personagem presente em inúmeros outros lugares da Comédia Humana. Bianchon narra para um grupo de pessoas reunidas na casa do duque de Rhétoré a terrível vingança do conde de Merret contra sua mulher, a condessa de Merret, quando flagra-a em adultério. São dois textos curtos, mas são dois textos de Balzac! 


(Dezembro, 2017)



Avaliação: MUITO BOM

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


Memórias sentimentais de J. Miramar (1924)
Oswald de Andrade (1890-1954) - BRASIL  
 São Paulo: Globo, 2004, 186 páginas


O narrador deste romance trafega pela vida como se habitasse uma bolha fora do tempo e do espaço. Cronologicamente, o livro cobre o período que vai do final do século XIX ao final da década de 1920, correspondente à República Velha (no Brasil) e ao convulso momento pré e pós Guerra Mundial. No entanto, o narrador passa ao largo dos acontecimentos - embora eles estejam todos lá, desde o enriquecimento dos paulistas com a cafeicultura às viagens nababescas à Europa, desde o surgimento da indústria do cinema aos combates insanos da I Guerra Mundial, desde o aparecimento do automóvel ao nascimento do ideário fascista. Mas João Miramar, criado para usufruir do dinheiro fácil da aristocracia rural, mostra-se ao longo da narrativa um perfeito alienado - alienado das questões sócio-políticas brasileiras e internacionais, alienado da sua própria vida pessoal. Casado com uma prima riquíssima, Célia, Miramar praticamente abandona-a numa fazenda no interior de São Paulo para desfrutar das festas, das amantes, do elogio fácil. Não demonstra nenhuma afeição, nem com a morte da mulher, nem com a dissolução do seu patrimônio. João Miramar, quando já não mais "dono de casa com safras longínquas livros quadros criados e a senhora grávida" (p. 104), envereda pelo mundo das letras, escrevendo e publicando suas memórias - fragmentos de fatos e impressões,  cristalizados em magníficas frases-valises, como esta:  "E branca e nua dos pequenos seios em relevo às coxas cerradas sobre a floração fulva do sexo, permaneceu numa postura inocente de oferenda" (p. 120). Ou, como afirma o próprio memorialista, citando um primeiro leitor, este livro lembra Virgílio, "apenas um pouco mais nervoso no estilo". Um dos raros monumentos da literatura brasileira.



(Dezembro, 2017)



Avaliação: OBRA-PRIMA






terça-feira, 5 de dezembro de 2017

47 contos 
Isaac Bashevis Singer (1904-1991) - POLÔNIA 
Tradução: José Rubens Siqueira 
 São Paulo: Cia das Letras, 2004, 719 páginas





Esta antologia recolhe boa parte dos contos, escritos originalmente em iídiche, vertidos para o inglês, com supervisão do Autor. Em geral, as histórias envolvem judeus hassídicos vivendo em pequenas comunidades miseráveis da Polônia antes da II Guerra Mundial, ou espalhados pelo mundo, particularmente nos Estados Unidos (Nova York e Miami) após 1945. As narrativas são formalmente tradicionais - "causos" - e encontram-se mergulhadas num universo fantástico, principalmente as que se passam nas aldeias polonesas, mas não no fantástico onírico que caracteriza o realismo mágico latino-americano, mas no fantástico enraizado nas superstições, onde demônios, reencarnação, metempsicose, possessões diabólicas, esconjuros e feitiços são reais. Aliás, a presença do Mal travestido de Bem para enganar até mesmo o mais crente dos crentes é um dos temas recorrentes do livro - aparece em textos como "O cavalheiro da Cracóvia", "O invisível", "A destruição de Kreshev","O último demônio", "O violinista morto", "Tem alguma coisa lá", "Uma coroa de penas", entre outros. Temas recorrentes também são histórias de amor impossível - "O Spinoza da rua do Mercado", "Yentl, o menino da yeshiva", "A viagem astral" - e as experiências de um escritor iniciante - "Um amigo de Kafka", "Um dia em Coney Island", "Fuga da civilização", "Vanvild Kava". Eu destacaria pelo menos cinco obras-primas: "Breve sexta-feira", "A sessão espírita", "Avô e neto", "O manuscrito" e "O escritor de cartas". Imiscuem-se em todos os contos a solidão, o sexo, o sonho, os desencontros, a paranoia (impressionante em "A cafeteria"), os traumas advindos dos pogroms. Um exemplo perfeito de que literatura é transcendência - não importa sobre o quê está se falando, mas como se está falando. Escrevendo em iídiche (uma língua em extinção), tendo como cenário aldeias miseráveis habitadas por judeus hassídicos "mergulhados em fanatismo, superstição, trevas" (p. 553) e como tema usos e costumes específicos, o Autor consegue sondar o mais recôndito da alma do Ser Humano. 



(Dezembro, 2017)



Avaliação: MUITO BOM  



Curiosidade:

O Brasil aparece em três momentos no livro:
pág. 241: "Os refugiados com que se encontrava espalhavam toda sorte de boatos sobre vistos para aqueles que haviam ficado na Europa, pacotes de comida e medicamentos que lhes seriam mandados por diversos agentes, formas de trazer os parentes da Polônia via Honduras, Cuba, Brasil". ("A sessão espírita")
pág. 532: "Disse: 'Gosto de café doce, não amargo. No Rio de Janeiro bebem xícaras minúsculas de café amargo feito bile". ("Uma história de duas irmãs")
pág. 685: "Margit foi criada pela irmã do pai, que era amante de um brasileiro dono de uma plantação de café". ("Vizinhos")



Entre aspas:

"(...) a compaixão é uma forma de amor e, de fato, a sua maior expressão". (pág. 536)






quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Contos completos - Volume 3 (1885-1910)
Liev Tolstói (1828-1910) - RÚSSIA 
Tradução: Rubens Figueiredo 
 São Paulo: CosacNaify, 2015, 670 páginas





Coletânea de 30 contos escritos entre 1885 e 1910, ano da morte do Autor, traz pelo menos uma obra-prima da ficção curta ("Depois do baile"), mas principalmente advoga um pensamento personalíssimo, que mescla ideias do cristianismo primitivo com revolta contra o quadro de profunda injustiça social da Rússia no entresséculos e uma percepção bastante romântica do povo. O resultado disso é o tolstoísmo, uma filosofia política que pregava a resistência pela inação, algo muito próximo ao que décadas depois levaria Mahatma Gandhi a liderar a independência da Índia. Essa visão de mundo está exposta particularmente no texto "Iásnaia Poliana" (p. 618-645), que, aliás, traça um panorama que bem poderia ser o do Brasil de hoje: "Essas pessoas (...) se encontram num limiar a partir do qual basta dar um passo para entrarem numa situação desesperadora, em que um homem bom se torna capaz de tudo" (p. 626). Os contos muitas vezes saem prejudicados pelo tom moralizante das conclusões - como no caso do ótimo "O diabo" -, que marca as parábolas e alegorias (oito textos, incluindo uma apologia ao vegetarianismo, "O lobo"). Outras vezes, o que perturba é a ingenuidade que, se funciona bem quando se trata do mundo infantil ("Sem querer") ou quando não possui teor didático ("Gente pobre"), chega a ser piegas em outros momentos ("Françoise", "A força da infância", "Conversa com um passante"). Destacaria ainda os ótimos contos "Khostolmier",  "O patrão e o trabalhador", "Aliocha Gorshok", "Kornei Vassíliev", "Padre Vassili", "Para quê" e "O que vi num sonho" - além de "Morangos", uma melancólica analogia entre o intelectual liberal, de esquerda, que no conforto de sua casa imagina mudanças sociais, enquanto, à sua porta, impõe-se a realidade, cruel e terrível, sem que ele se dê conta. Interessante ainda "O cupom falsificado", que, embora bastante confuso, propõe uma estrutura narrativa moderníssima, construída em espiral.




(Novembro, 2017)



Avaliação: MUITO BOM  



Curiosidade:

O Brasil aparece à pág. 156-7: "No dia 3 de maio de 1882, um navio de três mastros chamado Nossa Senhora dos Ventos partir de Havre rumo ao mar da China. Deixou sua carga na China, recebeu uma carga nova, levou-a para Buenos Aires e, de lá, transportou mercadorias para o Brasil."



Entre aspas:

"É costume pensar que os velhos em geral são mais conservadores e os jovens, inovadores. Isso não é verdadeiro, de maneira nenhuma. Os mais conservadores em geral são os jovens. Os jovens querem viver, mas não pensam e não têm tempo de pensar em como é preciso viver e por isso elegem como modelo a vida que já existia" (pág. 90)


"Não se constroem palácios de pedra com trabalho honesto" (pág. 168)






domingo, 29 de outubro de 2017

Tartarin de Tarascon (1872)
Alphonse Daudet (1840-1897) - FRANÇA
Tradução: Marcos de Castro
 Rio de Janeiro: Record, 2007, 174 páginas


O "intrépido tarasconês" Tartarin tinha quarenta e cinco anos e nunca havia dormido fora de casa, mas alimentava-se da fama de valente e de possuir caráter. Misto de Sancho Pança e Dom Quixote convivendo no mesmo indivíduo, orgulhava-se de seu jardim, como nenhum outro da Europa, composto apenas por "plantas exóticas", como se ele estivesse em plena África central, e de seu salão "cheio de armas de todos os países do mundo" (p. 27-28). Sua "reputação" se devia às histórias que contava sobre o período em que esteve na China, como diretor de negócios da Casa Garcio-Camus, embora "já não estava bem certo, ele próprio, de ter ido a Xangai ou não" (p. 52). De concreto mesmo, somente suas caçadas nas colinas que envolvem a cidade, quando atirava... em bonés jogados para o alto... Um dia, no entanto, aparece um circo na cidade, cuja maior atração era um leão do Atlas... Um leão domesticado e simpático, mas que desperta, no ingênuo e falastrão Tartarin, o desejo de cruzar o mar para matar leões na Argélia. De tanto falar nisso, a cidade passa a acreditar na viagem de seu habitante mais célebre. E então, para manter seu renome, mesmo contra sua vontade Tartarin tem que deixar o sossego do lar e partir para a então colônia francesa na África. Lá, vive várias e engraçadas aventuras, em busca de um felino há muito extinto naquele lugar. Crédulo, com sua fantasiosa imaginação, é passado para trás por um autointitulado príncipe Gregory de Montenegro, que arruma-lhe uma amante mourisca - na verdade, uma prostituta conhecida em Argel - e depois organiza uma expedição pelas franjas do deserto, tudo para lhe tirar até o último centavo. Afinal, depois de se envolver em trapalhadas, acaba matando um leão, cego e domesticado, usado para recolher donativos para um mosteiro no deserto. De volta a Tarascon, no entanto, é recebido como herói, seu prestígio como matador de leões e aventureiro já havia se espalhado por toda a região, porque, afinal, " o homem do Sul não mente: ele se engana. (...) Sua mentira, para ele, não é uma mentira, é uma espécie de miragem" (p. 52). Romance que explora o humor involuntário do ridículo e pretensioso Tartarin, motivo de chacota de todos, mas orgulhoso o suficiente para não compreender o que ocorre à sua volta, tem passagens bastante racistas* - principalmente contra o negros -, ao mesmo tempo em que desfecha uma crítica contundente contra o colonialismo**. 




* Exemplo: "Dos negros que conduziam as bagagens, um foi tomado por atrozes cólicas por ter comido o esparadrapo da farmácia. Outro rolou encosta abaixo em estado de embriaguez mortal, pois tinha bebido o álcool canforado. O terceiro, o que levava o álbum de viagem, atraído pelo dourado dos fechos e convencido de que transportava os tesouros de Meca, fugiu rumo ao maciço vizinho de Zacar a toda velocidade" (pág. 148)

** "Durante esse mês, procurando leões impossíveis, o terrível Tartarin errou de acampamento em acampamento (...) através dessa espantosa e ridícula Argélia francesa, onde os perfumes do velho Oriente se apagam sob um forte odor de absinto e de caserna. (...) Curioso espetáculo para os olhos que souberem ver... Um povo selvagem e corrompido que a França civiliza enchendo-o de vícios... A autoridade feroz e sem controle de paxás fantásticos, que se assoam com toda a seriedade em suas faixas da legião de honra e com ou sem motivo torturam as pessoas (...) A justiça sem consciência de chefes árabes de grossos óculos (...) vendem suas sentenças (...) por um prato de lentilhas ou de cuscuz doce. Comandantes libertinos e bêbados (...) que se fartam de champanhe (...) e organizam comezainas com carneiros assados enquanto, diante de suas tendas, toda a tribo morre de fome e disputa com os cachorros os restos da comilança senhorial". (p. 153-154)


(Outubro, 2017)



Avaliação: BOM  



Curiosidade:

Vale a pena observar o quanto de Tartarin de Tarascon há no coronel Ponciano de Azeredo Furtado, protagonista do romance "O coronel e o lobisomem", do brasileiro José Cândido de Carvalho (1914-1989), publicado em 1964. 

Entre aspas:

"Ah, o grande parto da popularidade! É bom sentar-se diante dele, mas que sofrimento quando ele derrama!" (pág. 67)





sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O Exército de Cavalaria  (1926)
Isaac Bábel (1894-1940) - RÚSSIA
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade
São Paulo: CosacNaify, 2015, 247 páginas


Este livro reúne 36 textos com temática comum, a guerra levada a cabo pelos soviéticos contra os poloneses, entre 1919 e 1921. Não são propriamente contos, mas uma espécie híbrida de crônicas ficcionais, nas quais cenas de extrema crueldade são descritas com uma linguagem encharcada de poesia, provocando-nos um interessantíssimo estranhamento. Aliado a isso, o narrador evoca personagens que surgem numa história como protagonistas e ressurgem em outras como coadjuvantes, criando assim uma teia de enredos e situações que dinamizam a coletânea, dando-lhe quase uma feição de romance. Destaque para o olhar do narrador para a vida miserável dos judeus da Ucrânia, onde decorre boa parte das narrativas, e para alguns textos específicos, como "Pan Apolek", "Guedáli", "Kónkin", "O comandante de esquadrão Trúnov" e "Os Ivans". Enfim, o que torna as narrativas grandiosas é a linguagem expressionista. Três exemplos: "Uma vegetação verde pespontava a terra com bordeados caprichosos" (p. 77); "A noite nos consolava das nossas tristezas, uma brisa leve nos envolvia como uma saia materna" (p. 119);  "A tarde alçou voo para o céu, como um bando de pássaros, e a escuridão cingiu-me com sua coroa úmida" (p. 185).

(Outubro, 2017)



Avaliação: BOM  


Curiosidade:

Aqui, repete-se o velho problema de os tradutores não verterem para o sistema métrico as medidas nas quais foram consignados os originais. Versta, medida russa que equivale a pouco mais de um quilômetro, é mantido como versta, o que ocasiona confusão e perda de clareza de várias passagens. Estranhamente, nos dois último contos, "Argamak" e "O beijo", os tradutores usam quilômetros - "Tivemos que percorrer de sessenta a oitenta quilômetros por dia" (p. 197); "Depois de uma marcha sem descanso, de cem quilômetros..." (p. 207) - e até mesmo léguas - "nem mesmo me ocorreu que estávamos a dez léguas de Budiátitchi" (p. 208)... Aliás, légua é a denominação para medir distâncias usada em Portugal e trazida para o Brasil, que tem as mais variadas conversões, podendo significar de 2 a 7 quilômetros... 




sábado, 21 de outubro de 2017

O Coronel Chabert (1832)
Honoré de Balzac (1799-1850) - FRANÇA  
Tradução: Eduardo Brandão    
São Paulo: Penguin / Companhia das Letras, 2013, 83 páginas




O senhor Hyacinthe, dito Chabert, conde do Império, marechal de campo e grande oficial da Legião de Honra, é dado como morto na Batalha de Eylau, que colocou em confronto franceses e russos, em 1807. Embora enterrado vivo, consegue sobreviver, com cicatrizes horríveis, que o tornam quase irreconhecível. Impedido de voltar de imediato, devido às sequelas das feridas, envia cartas à mulher, sem obter respostas. Finalmente, quando consegue regressar a Paris, sete anos depois, descobre que sua mulher, Rose (Rosine) Chapotel, casou-se outra vez e agora é a Condessa de Ferraud, mãe de dois filhos do novo marido. Chabert procura um advogado, Derville, para tentar resgatar a esposa e a fortuna. Então, o Autor nos conduz pelos meandros do Direito e pelos labirintos da paixão humana. Chabert vive na miséria, na esperança de resgatar seu passado - Rosine vive no presente, disposta a não ceder um milímetro sequer da sua posição na sociedade. Afinal, entre os conselhos do advogado e as armadilhas sedutoras da mulher,  sucumbe às últimas. Ao descobrir, entretanto, as trapaças de Rosine para o ludibriar, resolve abrir mão de tudo - fortuna, títulos, esposa - em nome da dignidade. Em 1840, Derville se depara com o Coronel Chabert vivendo num asilo para mendigos e loucos, confirmando uma predição do militar, feita logo no início do livro: "estive enterrado sob os mortos, mas agora estou enterrado sob os vivos" (p. 29). 


(Outubro, 2017)



Avaliação: BOM  


Curiosidade:

Neste livro nos deparamos, à página 68, com a "teinte de mélancolie" (tinta de melancolia) que mais tarde Machado de Assis (1839-1908) iria usar em suas "Memórias póstumas de Brás Cubas" (1881), quando, justificando "algumas rabugens da obra", afirma: "escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia". 




Entre aspas:

"Os sofrimentos morais, perto dos quais as dores físicas empalidecem, provocam no entanto menos piedade, porque ninguém os enxerga". (pág. 33)


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A pele (1949)
Curzio Malaparte (1898-1957) - ITÁLIA  
Tradução: Alexandre O'Neil   
São Paulo: Abril, 1972, 369 páginas



Que este romance possui, do ponto de vista estritamente literário, méritos indiscutíveis, não há dúvida. Mas seus defeitos - que são muitos - competem, e ganham, das suas qualidades. O narrador, denominado Curzio Malaparte, mistura todo o tempo ficção e autobiografia, o que nos permite pensar que as ideias ali expostas são também as do Autor e não somente do narrador ficcional. E é então que nos deparamos como estragos irreparáveis: a homofobia* (v. capítulos IV, "As rosas de carne", e V, "Os filhos de Adão"); o racismo (cf. ao longo do livro com que superioridade refere-se aos brancos em detrimento de negros e árabes); a autocomplacência. A história se passa entre 1943 e 1944, época em que os aliados desembarcam na Itália para combater os nazistas. Curzio Malaparte, capitão de ligação entre os italianos antifascistas e o exército aliado, acompanha de perto o desenrolar da guerra. Cínico, é irritante seu pernosticismo, seja ao querer ostentar suas relações com a aristocracia italiana - demonstra verdadeiro fascínio por títulos, ascendências, objetos da nobreza -, seja ao querer exibir seus conhecimentos enciclopédicos de arte e literatura**. O narrador relata a história da II Guerra Mundial como se os italianos fossem vítimas e não figuras de proa do abominável nazifascismo que gerou o conflito. Chega a ser patética a sua admiração pelos norte-americanos, cordiais, generosos, sensíveis - os oficiais branco, claro. Agora, há cenas impressionantes - a venda de crianças para prostituição infantil (p. 134 e seguintes); a crucificação de judeus na Ucrânia ocupada pelos alemães (p. 175 e seguintes); a morte do cachorro Febo numa clínica de experiências veterinárias (p. 188 e seguintes); o homem que morre esmagado por um tanque de guerra (p. 323 e seguintes). E há cenas de extremo mau gosto como a sereia (um peixe antropomórfico, parecido com uma menina) servida durante uma refeição (p. 240 e seguintes); o relato (ainda que falso) de uma mão deglutida num almoço (p. 306 e seguintes); e o julgamento do protagonista por fetos monstruosos (p. 357 e seguintes). Denúncia radical da estupidez humana - mas por alguém que se coloca acima da estupidez humana... - , que pode ser resumida nesta frase: "a nossa verdadeira pátria é a nossa pele" (p.  325). 



* "(...) eu perguntava a mim mesmo, como estupor, como fora possível que, da minha geração, forte, corajosa, viril, de homens formados na guerra, na luta civil, na oposição individual à tirania dos ditadores e das massas, como fora possível que, de uma geração máscula, (...) tivesse podido nascer uma geração tão corrupta, cínica, efeminada, tão tranquila e docemente desesperada (...)". (pág. 113-114)  

** Mrs. Flat estava sentada na sala de um antigo, nobre palácio napolitano, de arquitetura solene e faustosa, pertencente a uma das mais ilustres famílias da nobreza de Nápoles e da Europa, pois os Duques de Toledo não ficavam atrás nem dos Colonna, nem dos Orsini, nem dos Polignac, nem dos Westminster, a não ser, em certas ocasiões, dos Duques d'Alba. E naquela mesa suntuosamente posta, no brilho dos cristais de Murano e das porcelanas de Capodimonte, sob o teto pintado por Luca Giordano, entre aquelas paredes cobertas pelas mais preciosas tapeçarias arábico-normandas da Sicília, destoava deliciosamente. Mrs. Flat era a imagem perfeita do que teria sido uma americana no século XV, educada em Florença, na corte de Lourenço, o Magnífico, ou em Ferrara, na corte de Estensi, ou em Urbino, na corte dos Della Rovere, e que tivesse como livre de chevet não o Blue Book, mas o Cortegiano de Mester Baldassare Castiglione".  (p. 230)


(Outubro, 2017)



Avaliação: NÃO GOSTEI 


Entre aspas:

"(...) Cristo exige dos homens a piedade, não a solidariedade. A solidariedade não é um sentimento cristão". (pág. 73)

"Finalmente recuperei a liberdade (...) Para mim era como se saísse de um quarto sem janelas para entrar noutro sem paredes". (p. 186)

"Os homens realmente decentes são os que não fazem profissão nem de heróis nem de covardes". (p. 213)

"(...) Estado totalitário (...) É um Estado em que tudo o que não é proibido é obrigatório". (p. 226)



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O sol das independências (1970)
Ahmadou Kourouma (1927-2003) - COSTA DO MARFIM 
Tradução: Marisa Murray  
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d, 170 páginas


Escrito em francês, este romance narra as agruras de Fama Doumbouya, da etnia malinké, príncipe de Horodougou, uma região situada na fronteira entre a Costa do Marfim e a Guiné (no livro, retratadas como Costa dos Ébanos e República Socialista do Nikinai). Fama vive há vinte anos na capital do país. Casado com Salimata, com quem não consegue ter filhos, mora no bairro negro, miserável e  desempregado, sempre evocando sua condição de nobre em um lugar e um tempo em que isso já não tem a menor importância. Dividido em três partes. na primeira acompanhamos Fama percorrendo as ruas sujas e caóticas da capital atrás de funerais que lhe proporcionam um meio de subsistência. Na segunda, acompanhamos os passos de Salimata vendendo papa doce e arroz cozido no setor comercial da cidade, e a busca, por meio da feitiçaria, da cura para sua infertilidade. Na terceira e última parte, após a morte de um primo, Fama vai até sua aldeia natal, Togobala, sem saber se assume ou não a condição de chefe do clã. Após cumprir seus deveres protocolares, ele abre mão de seu direito sucessório, volta à capital levando uma coesposa, Mariam, e acaba envolvendo-se em um complô contra o governo. Preso e torturado, quando libertado descobre que suas duas mulheres o abandonaram e, sem esperança, pensa em regressar, em definitivo, para as terras de seus ancestrais. A fronteira, no entanto, está fechada e, como ex-preso político, ele encontra-se impedido de deixar o país. Assim, ao invés de usar a ponte que separa a Costa dos Ébanos da República Socialista do Nikinai, ele tenta cruzar as águas do rio, sendo atacado e morto por um crocodilo. Crítica implacável contra os europeus, que dividiram aleatoriamente os territórios africanos em nome da colonização, mas também análise contundente da corrupção, ganância e indiferença da elite local que tomou o poder por meio de partidos únicos e interpretações totalitárias do socialismo. No fundo, o romance discute a impossibilidade de diálogo quando as diferenças culturais são ignoradas, por desconhecimento ou por interesses escusos. 


(Outubro, 2017)


Avaliação: BOM


Curiosidades:



1) Entre as páginas 28 e 40, o Autor descreve a impressionante excisão (remoção) do clitóris de Salimata, prática comum ainda hoje em certas regiões da África, seguida de um estupro pelo feiticeiro da tribo.
2) É interessante perceber como o islamismo descrito no livro é praticado de maneira bastante singular, mesclado com crenças animistas - algo muito similar ao que ocorre com o catolicismo no Brasil, apropriado pela umbanda e o candomblé: "O muçulmano escuta o Alcorão, o fetichista segue o Koma; mas (...) aos olhos de todo mundo, todo mundo se diz e respira muçulmano, sozinho cada um teme o feitiço". (p. 91)
3) O título do romance deveria ter sido traduzido como "Os sóis das independências" - mais coerente com seu conteúdo. Além disso, há inúmeros vocábulos totalmente desconhecidos que aparecem no texto sem qualquer referência, e que temos que adivinhar seu significado pelo contexto, como, entre outros, marabu, boubou, manes, toubab, harmatão, cafre...
4) Em alguns momentos, o realismo do Autor ao retratar costumes e hábitos africanos nos remete ao realismo mágico latino-americano. como por exemplo, os dois oráculos dos malinkés: a hiena "A Antiga" e a jiboia "Reverendo do Banhado" (p. 136 e seguintes).
 


Entre aspas:

"Todo poder ilegítimo traz, como a trovoada, o raio que queimará seu desgraçado fim". (pág. 84)

"(...) o escravo pertence ao seu dono; mas o o dono dos sonhos do escravo é o próprio escravo". (pág. 146)

"As pequenas conversas entre a pantera e a hiena honram a segunda mas rebaixam a primeira". (pág. 160)



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Primo Basílio (1878)
Eça de Queirós (1845-1900) - PORTUGAL  
São Paulo: Abril Cultural, 1971, 321 páginas



Magnífico romance sobre o moralismo, a hipocrisia, o machismo e a frivolidade da sociedade burguesa e seus falsos valores. Jorge é funcionário público, engenheiro de minas, "o gênio manso", "robusto, de hábitos viris", "dentes admiráveis" e "ombros fortes" (p. 10). Luísa, com quem está casado há três anos, é "asseada, alegre como um passarinho", "um solzinho louro e meigo" (p. 11). Tudo corre bem na casa onde moram com duas empregadas, Joana*, a cozinheira, e Juliana, a engomadeira, até que, nas vésperas de Jorge viajar a trabalho para o Alentejo, Luísa recebe a notícia da chegada de Basílio, seu primo, que, tendo deixado Lisboa pobre, enriquecera com negócios de borracha no Brasil. Jorge parte e alguns dias depois Luísa recebe a visita de Basílio, por quem, na juventude, fora apaixonada. Pouco a pouco, Basílio retoma a confiança da prima até convencê-la de que, afinal, nunca deixou de pensar nela um segundo sequer por todos os anos que estiveram separados. A romântica Luísa, por "não ter nada que fazer, a curiosidade mórbida de ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico" (p. 158) acredita nas palavras do inescrupuloso Basílio, que vê nela apenas mais uma conquista, já que, para ele, "o adultério aparecia assim um dever aristocrático" (p. 92).  Ele aluga uma casa num bairro distante, o Paraíso do casal, onde passam a se encontrar toda manhã. Jorge demora-se no Alentejo, enquanto Luísa envolve-se mais e mais com o primo, para escândalo dos vizinhos e principalmente de Juliana, a engomadeira, que, ressentida por sua posição social subalterna, busca encontrar provas do amor adulterino da patroa. Ela acaba por apropriar-se de três cartas e dois bilhetes trocados entre os amantes, e passa a chantagear Luísa. Desesperada, Luísa pensa em fugir com Basílio, que, assustado com a perspectiva, deixa Lisboa às pressas - ciente de que aquela aproximação com a prima fora apenas "a afirmação gloriosa de sua beleza e da irresistibilidade da sua sedução" (p. 114). Luísa então passa a viver o inferno nas mãos de Juliana. Jorge regressa e encontra a mulher mudada, à beira de um distúrbio nervoso, achacada pela empregada. Luísa, sem saber mais como lidar com Juliana, que age como a verdadeira dona da casa, pede ajuda a Sebastião, amigo fiel de Jorge, que tentando resolver o problema, provoca, sem querer, a morte da empregada, por um aneurisma cerebral. Sebastião resgata as cartas e bilhetes, que Luísa queima. Quando tudo parece resolvido, Jorge intercepta uma carta de Basílio para Luísa, recordando "as boas manhãs" passadas no Paraíso (p. 291). Jorge enlouquece de ódio e, depois que a mulher se recupera das emoções fortes vividas naqueles meses, exibe a carta para ela. Então, Luísa, destroçada pela culpa e pelo remorso, cai em prostração e morre, esgotada. O Autor consegue pintar quadros vivos com personagens convincentes, onde nenhuma página está a mais, nenhuma palavra sobra, nenhuma ação é desnecessária.  E é curioso como são encenados, em dois momentos vitais, possíveis desfechos para o livro. Logo às páginas 33 e 34, Ernestinho, o dramaturgo, ao revelar para os amigos o enredo da peça  que está escrevendo, diz estar em dúvida a respeito da decisão que deve tomar: o protagonista descobre que a mulher o trai - ele deve matá-la ou perdoá-la? Jorge defende, como veemência, que o marido deveria matá-la. Mais tarde, sendo Jorge já sabedor do adultério de Luísa, Ernestinho conta que, afinal, resolveu o drama que escreveu com o perdão do marido - no que Jorge, dizendo-se mudado, concorda com a solução dada (p. 299). Também se sobressaem os vários personagens secundários, além de Joana, Juliana, Ernestinho, o fiel amigo Sebastião, o Conselheiro Acácio com suas tiradas redundantes, o médico frustrado e interesseiro Julião, o dramaturgo Ernestinho, a frívola carola D. Felicidade, a infeliz e promíscua Leopoldina, e outros e tantos. Um retrato que poderia ter sido composto hoje, tal a sua atualidade.




* É curioso que o Autor denomina Joana a quatro personagens diferentes: Joana é a cozinheira do casal Jorge e Luísa; tia Joana é a governanta do amigo Sebastião (p. 83); Joaninha, a Freitas, é a amiga de colégio de Luísa, que morreu tísica (p. 116-17); Joana Silveira é outra amiga de Luísa, que fora para a França (p. 228).





(Outubro, 2017)



Avaliação: OBRA-PRIMA


sábado, 30 de setembro de 2017

Contos holandeses (1839-1939)
Organização e tradução: Daniel Dago  
Porto Alegre: Zouk, 2017, 239 páginas





Reunindo 18 contos, o maior mérito desta antologia é nos dar a conhecer amostras de uma literatura totalmente ignorada por aqui. O livro traça um amplo panorama da produção de autores que vão desde o início do período romântico - com Hildebrand, pseudônimo de Nicolaas Beets (1814-1903) - até o início da Segunda Guerra Mundial - com Arthur van Schendel (1874-1946) -, ou seja um século de história. Os destaques vão para o ótimo "O menino da lojinha de óleo", de Theo Thijssen (1879-1943), cujo clima antecipa o discurso totalitário que iria redundar no nazifascismo; o complexo universo, mental e formal, de Simon Vestdijk (1898-1971), em "Um dois três quatro cinco"; e a pequena obra-prima sobre a intolerância, a partir das experiências escolares de um menino judeu, que é "O incompreendido", de Carry van Bruggen, pseudônimo de Caroline Lea de Haan (1881-1932).


(Setembro, 2017)




Avaliação: BOM

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A voragem (1924)
José Eustasio Rivera (1888-1928) - COLÔMBIA 
Tradução: Reinaldo Guarany 
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, 237 páginas




História de paixão e brutalidade, narra a descida ao inferno do poeta Arturo Covas - o protagonista transforma-se de aspirante a intelectual urbano em cruel evadido, contaminado pela paisagem, primeiro dos planaltos inóspitos e mais tarde da selva indomável. Arturo rapta Alícia em Bogotá e, sem condições de enfrentar a família dela, partem ambos para o interior da Colômbia, buscando ganhar tempo até que os ânimos se apaziguem. Mas à medida em que deixam as franjas da "civilização" as coisas fogem ao controle. Arturo se desinteressa por Alícia e essa escapa com bandidos para a floresta, em plena febre da extração da borracha. Então, corroído pelos sentimentos de traição e despeito, Arturo vai atrás da amada, embrenhando-se mais e mais no "coração da treva" metafórica e concreta. O Autor demonstra força descritiva, mas o livro às vezes se perde em exotismos, em linguagem parnasiana, em interpolações explicativas de usos e costumes. Há mesmo, no meu entendimento, um erro de composição - um romance naturalista, tradicionalíssimo em seu formato, intercala, entre meados da segunda parte e início da terceira, uma longa história paralela, da tragédia de Clemente Silva, que distrai e enfraquece o enredo principal. O ponto alto do livro é a pintura de uma natureza que nada tem de idealizada, é o relato da escravidão imposta aos homens brancos por outros homens brancos e o total desprezo que todos demonstram pelos indígenas e pelas mulheres, vistos como subumanos ou não-humanos. É interessante observar que o Brasil e os brasileiros aparecem em diversas passagens do romance, principalmente na terceira e última parte.



(Setembro, 2017)




Avaliação: BOM

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Mulheres sós (1949)
Cesare Pavese (1908-1950) - ITÁLIA  
Tradução: Julia Marchetti Polinesio 
São Paulo: Brasiliense, 1988, 127 páginas




O Autor assume uma voz feminina, a da costureira da alta moda, Clelia Oitana, para expor os impasses e desafios da nova mulher que surgia no pós-guerra. Clelia nasceu em Turim e, "começando do nada, saindo de um pátio que parecia um buraco" (p. 15), conseguiu tornar-se uma profissional respeitada em Roma. Agora, quinze anos mais tarde, volta à cidade-natal para instalar um filial da loja da qual é gerente, e vai conviver com a elite turinesa. Independente, financeira e afetivamente, ela acompanha com olhos críticos a vida vazia de aristocratas e burgueses, consumida em festas, passeios, confusões, tudo regado a muita bebida e conversa fútil, pessoas essas que, descobre aos poucos, "viviam como gatos, sempre prontos a se atacar" (p. 40). Neste meio destacam-se as "mulheres sós", que tentam se impor rompendo com o padrão esperado de casamento e filhos: Momina, a baronesa; a loura Mariella; Nene, a escultora; e a sensível e deslocada Rosetta Mola. A grande questão é como sobreviver mergulhadas em mundo machista e sem perspectivas. Clelia, mais velha, se pergunta "se valia a pena lutar tanto para chegar onde estava e não ser mais nada" e conclui: "eu me consolava pensando que minha vida não valia pelas coisas que tinha obtido ou pela posição que tinha alcançado, mas pelo fato de tê-las obtido e alcançado" (p. 80). Cada uma dessas "mulheres sós" abdicou de algo, mas a decisão radical tomou-a Rosetta Mola, que após uma tentativa frustrada, finalmente consegue se matar tomando veneno, porque "queria apenas ficar sozinha e fugir do barulho, e no seu ambiente não [era] possível se isolar" (p. 84). Narrativa desoladora de personagens que sentem "nojo de viver, nojo de tudo e de todos, do tempo que corre tanto, mas que nunca passa" (p. 61).




(Setembro, 2017)




Avaliação: MUITO BOM


Curiosidade:

É estranho que o Autor apresente uma personagem secundária, a escultora Nene, duas vezes, com descrições quase idênticas, mas com uma enorme diferença de idade:
à pág. 32 ela, "jovem e magra", "era uma estranha moça, de lábios grossos, que devia ter uns vinte e cinco anos. Tinha um sorriso bonito, de criança, mas seu jeito elétrico era desagradável".
à pág. 87 ela ressurge com "lábios grossos e franjinha, com seu modo atrevido de rir como uma criança. No entanto, devia ter trinta anos (...) Que moça estranha; parecia um pequeno réptil." 


Entre aspas:

"O homem é o único animal que melhora vestido". (pág. 13)

"Não se pode amar alguém mais do que a si mesmo. Ninguém consegue salvar quem não se salva sozinho". (pág. 22)

"Uma mulher que vale mais do que o homem que a toca, é uma infeliz". (pág. 37)


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Velha França (1933)
Roger Martin Du Gard (1881-1958) - FRANÇA 
Tradução: Alexandre Cabral 
Rio de Janeiro: Portugália Brasil, s/d, 84 páginas




A narrativa acompanha um dia na vida do carteiro Paul Joigneau que, junto com seus dois cachorros, Pic e Mirabole, percorre as poucas ruas da aldeia de Maupeyrou. Estamos no Entre Guerras e o interior da França vive um momento de paz, apesar das dificuldades econômicas. Joigneau  serve de ligação entre os mais diversos habitantes, de quem conhece a vida pública e também os segredos, já que não hesita em bisbilhotar a correspondência, antes de distribuí-la. Em um texto evocativo, ficamos, em poucas páginas, íntimos de inúmeros personagens: o idealista professor Ennberg e sua irmã; os esquerdistas que se congregam no Café Tabac, dos Bosse; os direitistas reunidos em torno do senhor Ferdinand, cabeleireiro-perfumista; a senhora Loutre, mulher do hortelão, que acreditando que o marido havia morrido na guerra, colocou para dentro de casa um "fritz" (alemão), prisioneiro de guerra, e agora vive em perfeita harmonia com os dois; o velho casal de refugiados belgas, à espera da morte; os três pensionistas de guerra, Pascalon, Tulle e Hostin; as três viúvas da guerra, senhoras Sicagne, Gueudet e Touche; os Pâqueux, irmão e irmã, acusados de manter o pai preso em condições subumanas; o presidente da Câmara, Arnaldon, e sua filha solteirona; o decadente aristocrata Des Navières; o angustiado padre Verne... Uma galeria impressionante de personagens, "uma raça desconfiada, invejosa, calculista, que a cupidez destrói como se fosse um cancro" (p. 26). Apesar desse julgamento terrível, o narrador  devota a todos um olhar de compreensão, pois sabe, como o padre Verne, que "vivem como se eles próprios fossem eternos, sem entrever o abismo que os espera ao cabo da caminhada, nem como esta caminhada para o abismo será breve" (p. 80).


(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM

Entre aspas:

"Há pensamentos que é preciso afastar sistematicamente, se se procura conservar intacta a coragem". (pág. 83)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O mistério Frontenac (1933)
François Mauriac (1885-1970) - FRANÇA 
Tradução: Eunice Gruman 
Rio de Janeiro: Globo, 1988, 160 páginas





Narrativa delicada e melancólica sobre a passagem do tempo e a destinação que damos à nossa vida. Estamos na primeira década do século XX, na região de Bordeaux. Os Frontenac são donos de uma madeireira e de vastas terras. Michel morreu deixando a viúva, Blanche, da aristocrática família Arnaud-Miquieu, com cinco filhos pequenos: Jean-Louis, Yves, José, Marie e Danièle. Xavier, que mantinha uma relação de profunda admiração pelo irmão, praticamente renuncia à vida e à herança para garantir um futuro mais tranquilo aos sobrinhos. Acompanhamos então o crescimento das crianças: o bondoso e generoso Jean-Louis obrigado a abrir mão de suas pretensões de se tornar professor de filosofia para assumir os negócios da família; o sonhador Yves radicando-se em Paris em nome de uma carreira de escritor e que acaba imerso na futilidade da capital; o arrivista José indo cumprir o serviço militar no Marrocos para afastar-se da vida dissoluta que levava; e Marie e Danièle cumprindo o papel reservado às mulheres da província, na época, de se casarem e tornarem-se mães. Conhecemos os personagens, intensamente humanos em sua complexidade, por meio de rápidas e precisas pinceladas: o pragmatismo de Blanche; o moralismo doentio de Xavier, que esconde a mulher por não serem casados; as tentativas fracassadas de Jean-Louis de implantar melhorias para os trabalhadores na firma em que os Frontenac são sócios; os amores devassos de Yves; as dívidas contraídas por José. E vêm as mortes... o câncer de Blanche, a angina de Xavier... mais tarde, já fora do tempo da narrativa, José caído num campo de batalha, em 1915... E a certeza de que somente a crença na imortalidade da alma pode provocar alguma paz: "toda a família obteria a graça de unir-se por um único abraço, de confundir-se para sempre na terra adorada, no nada" (p. 159).



(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM

Entre aspas:

"A morte não nos entrega somente aos vermes, mas também aos homens; eles roem as lembranças e as decompõem (...)" (pág. 123)

domingo, 3 de setembro de 2017

Um dia na vida de
Ivan Deníssovitch (1962)
Aleksandr Soljenítsin (1918-2008) - RÚSSIA
Tradução: António Pescada
Porto: Sextante, 2017, 175 páginas



Não se trata propriamente de uma narrativa de ficção, mas de uma espécie de documento com utilização de técnicas de romance. Aliás, o próprio Autor, em nota posterior à edição francesa de 1973, confessa que as personagens são reais, "recolhidas da vida no campo [num gulag], e as suas biografias são autênticas". E o livro é exatamente o que promete o título: um dia na vida do prisioneiro Ivan Deníssovitch Chúkov no campo de concentração de Ekibastuz, nas estepes geladas do que hoje é o Cazaquistão, naquela época parte da extinta União Soviética. O ano é 1951 e estamos em pleno inverno - a temperatura, naquele dia, não passa dos 17 graus negativos e com a chegada da noite cairia para até 40 graus negativos. O camponês Chúkov tem 40 anos, oito dos quais vividos encarcerado, primeiro no campo de concentração de Ust-Ijmá e agora em Ekibastuz. Como a maioria dos companheiros de prisão está magro, quase sem dentes (perdidos para o escorbuto), e toda a sua energia se volta para sobreviver a mais um dia de trabalhos forçados. Descrevendo a vida de S-854 (os prisioneiros não têm nome, mas números), o narrador expõe a corrupção dos oficiais encarregados do campo, a permanência de uma hierarquia social entre os reclusos, a arbitrariedade das ações, a tortura do enclausuramento na solitária, onde o prisioneiro, na melhor das hipóteses, saía tuberculoso, devido ao frio, à umidade e à má alimentação (p. 160). Chúkov foi preso em 1941, em plena guerra, acusado de "cumprir uma missão de espionagem alemã" (p. 68), mas nem ele nem os seus julgadores conseguiram definir o que significava essa sua "traição à pátria". Assim, após ser espancado, Chúkov calculou: "se não assinasse [a confissão], ganhava um sobretudo de madeira; se assinasse, ao menos ainda viveria um pouco" (p. 68-69). O narrador mostra o processo de dessubjetivização dos prisioneiros, cujo pensamento se resume a: "falta pouco para a alvorada? Quanto falta para a formatura? E para o almoço? E para o recolher?" (p. 163). Importante como peça acusatória contra a ditadura estalinista soviética (extensiva aos regimes totalitários de maneira geral), o livro no entanto é modesto do ponto de vista literário.



(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Por dois mil anos (1934)
Mihail Sebastian (1907-1945) - ROMÊNIA
Tradução: Eugenia Flavian
Barueri: Amarilys, 2017, 350 páginas



Um romance premonitório. Um jovem judeu observa, por meio de anotações em um diário, a lenta mas tenaz evolução do anti-semitismo na Romênia dos anos 1920 e 1930, que iria redundar, na década seguinte, na "solução final" nazista, o Holocausto. Dividido em cinco partes, que cobrem cinco períodos distintos, o protagonista, cujo bisavô já "falava e escrevia romeno" (p. 81), não acredita, inicialmente, que as manifestações agressivas de sua época de estudante poderiam se transformar no ódio verificado no começo da 1930, quando finda o relato. A primeira e segunda partes - os chamados "caderno azul" e "caderno verde" - cobrem os anos de 1922 e 1923, período de ebulição do anti-semitismo, que o protagonista vive na pele como aspirante à universidade em Bucareste. É nesse altura que toma contato com o professor Ghitã Blindaru, defensor de valores protofascistas, que exercerá sobre ele um enorme fascínio, a ponto de convencê-lo a mudar o interesse do curso de direito pelo de arquitetura. É também um momento de intenso debate no meio judaico, entre assimilacionistas, sionistas e marxistas. A terceira parte decorre cinco anos depois, em 1928, em Uioara, no distrito de Prahova, a uma hora da capital, onde o protagonista trabalha, como arquiteto, na construção da refinaria Estrela Romena, de propriedade do capitalista norte-americano Ralph Rice. É um instante de aparente calmaria, no qual o narrador pode suspirar por um amor platônico pela inglesa Marjorie Dunton, pode discutir política com seu amigo Marin Dontru e com seu superior imediato, Mircea Vieru, e também pode acompanhar a disputa entre Vieru e Blindaru, representantes do "novo" (o capital estrangeiro, o progresso e a indústria) e do "velho" (o nacionalismo, a terra e a tradição), respectivamente. A quarta parte acompanha a espera do protagonista pela instalação de um escritório da Expansão Rice em Paris, em 1931, quando na Romênia começa a perseguição aos comunistas. A quinta e última parte se passa em Bucareste, em 1933. O narrador sente, claramente, o acirramento do anti-semitismo, que transparece até mesmo em pessoas insuspeitas, como Dontru e Vieru. Enquanto isso, o protagonista constrói a casa de Blindaru, em Snagov, uma vila próxima a Bucareste. Esta casa, aliás, serve de metáfora para o livro todo: o arquiteto judeu idealiza e planeja um espaço no qual se reconhece, mas onde não tem lugar. A antecipação do Autor sobre a tragédia iminente é impressionante: "(...) o anti-semitismo de 1933 é econômico e de 1333 era religioso. Mas isso acontecia porque a essência daquele século era a religião, ao passo que a de hoje é a economia. Se amanhã a estrutura social vier a se centrar não na religião, nem na política e nem na economia, mas digamos, na apicultura, o judeu será detestado do ponto de vista dos criadores de abelhas" (p. 330). A lição que fica é um fabuloso libelo contra a intolerância de todos os tempos: "Ano após ano esse grito [de morte] passa pelos ouvidos das pessoas trabalhadoras, indiferentes, apressadas, preocupadas com outras coisas, ano após ano esse grito flutua (...) e ninguém o escuta. Um  belo dia (...) eis que brota dos esconderijos, debaixo de todas as pedras. (...) É preciso para isso um tempo de cansaço, de nervosismo, um tempo de espera extenuada, um tempo de desesperança. Aí então, ouvem-se as vozes que não se ouviam" (p. 315). Para consolidar sua posição na sociedade, hoje como ontem, os fascistas contam sempre com a conivência de "(...) uma geração de pessoas fartas de sempre serem inteligentes" (p. 341).


(Agosto, 2017)



Avaliação: BOM


Entre aspas:

"(...) somos incapazes de viver um momento de vida até o fim. (...) permanecemos continuamente ao lado do que está acontecendo, um pouco acima, um pouco abaixo das coisas, mas nunca no meio delas". (pág. 46)

"Um livro ou nos derruba ou nos ergue". (pág. 124)

"A negligência é o humor da elegância". (pág. 165)

(...) não é possível estar desesperado e dar conferências sobre o desespero (...), estar angustiado e discursar sobre a angústia. (...) essas coisas, se forem verdadeiras, são dramas e os dramas se vivem, não se discutem". (pág, 213)

"A segurança não é um bom ambiente para o pensamento" (pág. 263)