domingo, 13 de agosto de 2017

O quarto enorme (1924)
e. e. cummings (1894-1962) - EUA  
Porto: Livros do Brasil, 2017, 331 páginas
Tradução: José Lima 



Trata-se de uma espécie de autobiografia ficcional, se é que isso é possível. O Autor descreve o período em que permaneceu preso, por suspeita de traição, entre fins de agosto e meados de dezembro de 1917, em plena Primeira Guerra Mundial. Ele havia se engajado como motorista voluntário da Cruz Vermelha americana e, após três meses na frente de guerra, na França, é encarcerado, porque seu amigo inseparável, B., em uma de suas cartas, interceptada pela censura do governo francês, fez comentários desairosos sobre os rumos do conflito. Ambos são então levados para o centro de triagem de La Ferté-Macé, na Normandia, e lá, em um cômodo de "forma oblonga,de uns vinte e cinco metros por doze", com um "teto abobadado a oito ou nove metros do chão" (p. 85) - o "quarto enorme" - , onde se amontoavam entre "sessenta e setenta paillasses" (p. 216), convivem com impressionantes tipos das mais diversas nacionalidades. Na prisão, em condições subumanas - um  lugar que "é o mesmo que (...) estar morto" (p. 90) - estão homens e mulheres, em geral prostitutas, separados por um muro, além de algumas poucas outras, prisioneiras voluntárias junto com seus filhos para permanecerem próximas a seus maridos. Deitados em colchões apoiados diretamente no chão - o narrador e seu amigo, mais afortunados, dormem em camas de campanha - o Autor descreve, com profunda ironia, a opressão do pequeno poder, assentado na tortura, na discriminação, na arbitrariedade. Ótimo caricaturista, traça o perfil dos colegas, sem nomes próprios, designados apenas por suas características singulares: o falso Conde Bragard, Apolion, O Andarilho, Zulu, Surplice, Jean Le Nègre, etc. O Autor, americano, fluente em francês, filho de pessoas influentes, ex-estudante de Harvard,  encara esse período "entusiasmado e orgulhoso", por ser tratado como "um fora da lei" (p. 28). Os horrores da guerra aparecem apenas ocasionalmente, como na seguinte passagem: "Tinha (...) assistido à construção levada a cabo pelos aliados de uma ponte improvisada sobre o rio Yser,com os cadáveres tanto de fiéis como de inimigos atirados para ali à toa para formarem a base necessária para o madeiramento" (p. 195). A se destacar a forma da narrativa: o Autor inventa uma gramática própria, com o uso de uma sintaxe e uma pontuação próprias, que tenta muitas vezes, ao subverter a forma, denunciar o conteúdo, encharcando sua prosa da mais alta poesia (gênero, aliás, em que é mais conhecido).


(Agosto, 2017)


Avaliação:  BOM 




Entre aspas:

"(...) [há] certo tipo de seres humanos,que quanto mais cruéis são os sofrimentos que lhes são infligidos mais cruéis se tornam para com os que têm a infelicidade de serem mais fracos ou mais miseráveis do que eles" .(pág. 266)


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Ifigênia (1928)
Teresa de la Parra (1895-1936)  VENEZUELA 
São Paulo: Carambaia, 2016, 541 páginas
Tradução: Tamara Sender    


Egocêntrica e voluntariosa, María Eugenia, protagonista-narradora deste romance, pertence à alta aristocracia venezuelana - o avô materno havia sido "poeta, historiador, ministro e acadêmico" (p. 79), enquanto o avô paterno, após enviuvar,
 "acometido por delírio de grandeza", instala-se em Paris com os dois filhos pequenos e entrega-se a "uma vida luxuosa e devassa" (p. 84). Órfã de pai e mãe, María Eugenia volta a Caracas após 12 anos morando na França e vai viver com a avó, Eugenia, e a tia solteirona, Clara. Ali, descobre que não tem mais nada - o único bem que restava, a fazenda San Nicolás, teria sido, segundo seu tio paterno, Pancho, roubada por seu tio materno, Eduardo. Em Caracas, a protagonista entra em conflito com os valores de uma sociedade machista e preconceituosa, que vive das aparências. Dividido em quatro partes, o romance se inicia com uma longa carta de María Eugenia a uma amiga de colégio, Cristina de Iturbe. Nela, a narradora expõe a surpresa que provoca em seus familiares por suas ideias liberais - ela gosta de ler, tem opiniões próprias, conversa de igual para igual com os homens e adora se vestir à moda parisiense, muito escandalosa para os padrões locais. Na segunda parte, quando o livro toma a forma de um diário, Maria Eugenia relata seu encontro com Mercedes Galindo, uma mulher de "indiscutível beleza", elegante e cordial, mas casada com um "marido libertino e viciado em jogo" (p. 143), que chega às vezes a lhe bater. Mercedes, que comporta-se como se estivesse em Paris, "adota" María Eugenia, que nutre por ela um verdadeiro fascínio. Na casa de Mercedes, ela conhece e se apaixona por Gabriel de Olmedo. A família de Maria Eugenia, preocupada com a "má influência" de Mercedes, isola-a na fazenda San Nicolás, onde ela recebe a notícia do casamento de Gabriel com María Monasterios e da ida de Mercedes para Paris, acompanhando o marido, nomeado cônsul em Bordeaux. Na terceira parte, dois anos depois, María Eugenia retoma a narrativa, tendo capitulado às normas sociais: "perdi completamente aquela forma de pensar anárquica, desorientada e caótica, que como dizia vovó com tanta razão, representava uma ameaça e um perigo terrível para meu futuro" (p. 319). Ela então confessa que suavizou a tonalidade do batom, agora senta-se de forma adequada, não cantarola canções burlescas, evita falar palavrões e esquiva-se de romances inapropriados - mas, mais que tudo, aceita ser encaminhada para um casamento com Cesar Leal, que, conforme a avó, descende de uma família de "segunda categoria" (p. 337), mas que parece "educado, correto, inteligente, extremamente culto, não tem nenhum vício", sendo Doutor em Leis, Senador da República, Diretor de um Ministério, com ótima situação financeira (p. 336). Na última parte, quando o livro quase descamba em alguns momentos para o romantismo mais descabelado, María Eugenia encontra Gabriel, no leito de morte do tio Pancho. A paixão antiga então se reacende e Gabriel, separado da mulher, mas não divorciado, não se conforma que eles, para atender às convenções sociais, abram mão de sua felicidade. Gabriel admite que casou-se por interesse, para aplacar uma "ambição insaciável de chegar... a ser algo!" Com a influência do sogro, lançou-se em especulações acertadas e ficou rico, "tão rico, e até mais rico do que eu almejava ser" (p. 420). Gabriel tenta convencer María Eugenia a fugir com ele para a Europa. Após titubear, ela chega a arrumar a mala, mas desiste na última hora, concluindo, porém, que também não se casará com Cesar Leal, por quem, além de desprezo intelectual, nutre imensa ojeriza. Mas, enfim, lembrando-se da tia Clara, solteira e amarrada pelo resto da vida à solidão e à nulidade, acaba acatando o compromisso firmado. Este é um romance desolador sobre a desconstrução de uma rebeldia. Se, no começo, María Eugenia, vaidosíssima - "bonita como, sou" (p. 15), orgulhosa de seus "cachos louros, lábios rosados e pai rico" (p. 280) - e bastante consciente, com profunda ironia, de ser uma mercadoria à venda (p. 326), percebe, no final, que, como seu vestido de noiva, "vaporoso e vazio", é o "cadáver de uma alma": "um desses cadáveres que são enterrados nos sacrifícios sem sangue em que não se mata o corpo" (p. 528). "Como é horrível ser mulher!" (p. 119), eis o grito que lança contra a sociedade venezuelana (latino-americana) machista e misógina. É interessante observar como María Eugenia, avançada em sua percepção da opressão da mulher, é, em contradição, agarrada aos valores do meio a que pertence: racista, classista e reacionária politicamente*.


 * Uma das obsessões correntes ao longo do livro é a necessidade de os personagens provarem que são brancos. Por exemplo, para atacar a mulher de Eduardo, Pancho afirma que averiguou a genealogia de María Antonia e descobriu sua "origem muito obscura", "acidentada e tortuosa" (p. 150). Assim, quando María Eugenia vai insultá-la, qualifica-a de "arrivista", ou "chamando as coisas por seu nome, é uma mulata, fruto de pais naturais, carregada de maldade e ódios raciais" (p. 172). Em outro momento, María Eugenia demonstra uma descabida alegria ao perceber que, ao contrário do que pensava, Gabriel, seu amado, não era moreno, e sim "branco, branco, branquíssimo" (p. 407). Noutra ocasião, Mercedes Galindo se ofende quando Pancho, segundo ela, tenta "enegrecer" sua origem, e reafirma que se considera "branquíssima de quatro costados", no que Pancho rebate, dizendo que a genealogia de Mercedes é o que há "de mais falso e mais convencional" (p. 211). Para além dos preconceitos raciais, a concepção classista de María Eugenia é de puro esnobismo e alienação. Ela sonha com "a época feliz da Colônia", "quando nossas bisavós e tataravós atravessavam as ruas de paralelepípedos de Caracas em cadeiras de mão, levadas por dois escravos que eram sempre fiéis, retintos e robustos, porque ainda não haviam sido contaminados com os vícios e as ambições da raça branca" (p. 50) e gosta de passear pela cidade "para ver o sofrimento pitoresco da miséria" (p. 104). Em dado momento, após irritar-se com as ideias do tio Pancho,  que, segundo ela, "cheiram a socialismo", declara: "Não sou apegada a dinheiro, mas a democracia, a boemia e a sainte pauvreté me causam repugnância" (p. 218).


(Agosto, 2017)


Avaliação:  MUITO BOM 




Entre aspas:

"Como é triste chegar a qualquer lugar para sempre! (...) é por isso (...) que a morte nos assusta (...)" (pág. 22)

"Experimentamos (...) uma sagrada resignação perante as dores futuras e sentimos também na alma esse melancólico florescer das alegrias passadas, muito mais tristes que as tristezas, porque em nossa memória são como cadáveres de corpo presente que nunca nos decidimos a enterrar". (pág. 34)

"(...) nossas convicções são feitas mais para serem aplicadas à conduta dos demais do que à nossa própria, porque é então que aparecem com todo o esplendor de sua honradez: sólidas, arraigadas e inquebrantáveis. Ao contrário, quando se trata de nós mesmos, (...) nossas opiniões ou convicções ganham no mesmo instante a flexibilidade da cera e se acomodam e se modelam maravilhosamente sobre os caprichosos incidentes de nossa conduta" (´pág. 133)

"O inconformismo surge das comparações". (pág. 189)

"(...) todos os homens, quando se sentem seguros, ficam intoleráveis, porque eles (...) só se apegam ao que é muito duvidoso e muito difícil, e ao que pode lhes escapar entre as mãos!" (pág. 429)


Observações:

1) O título do livro evoca a tragédia homônima composta por Eurípides (ca. 480 a.C. - 406 a.C.), citada expressamente à pág. 529: "Como na tragédia antiga, sou Ifigênia; estamos navegando em plenos ventos contrários, e para salvar este barco do mundo que, tripulado por sabe-se lá quem, corre a saciar seus ódios sabe-se lá onde, é necessário que entregue em holocausto meu corpo de escrava marcado com os ferros de muitos séculos de servidão".

2)
 O Brasil aparece à pág. 224: "Eles falavam das flutuações do café, de sua influência sobre a situação econômica do país, de possíveis evoluções combinadas com as colheitas do Brasil (...)".



quinta-feira, 27 de julho de 2017

O bebedor de vinho de palmeira (1952)
Amos Tutuola (1920-1997) NIGÉRIA
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d, 142 páginas
Tradução:  Eliane Fontenelle    





Escrito em inglês, esse romance mescla o non sense de "Alice no País das Maravilhas" com procedimentos da literatura fantástica, resultando em uma originalíssima fábula africana, assentada na recriação ousada da oralidade. O protagonista, primogênito de oito filhos de um homem de posses, desde os dez anos era viciado em vinho de palmeira. Por isso, seu pai lhe presenteou com uma fazenda que possuía 560 mil palmeiras e um vinhateiro que lhe preparava 225 barris da bebida cotidianamente (p. 8). Um dia, o vinhateiro, de nome Baity (p. 107), morre, e, desolado, pois só ele sabia preparar a bebida a seu gosto, o protagonista resolve trazê-lo de volta da Cidade dos Mortos. Para isso, empreende uma longa viagem, recheada de aventuras, as mais estranhas possíveis, como o encontro com o "Crânio", um esqueleto que alugava partes do corpo para se tornar um homem bonito e elegante, das mãos de quem aliás resgata a filha de um chefe tribal, com quem se casa. Juntos, o casal empreende a difícil missão de encontrar Baity, tendo ainda a ajuda dos "jujus" do protagonista, que a tradução não indica em momento algum do que se trata, mas parece ser uma mistura de amuleto mágico e varinha de condão. Após enfrentar as mais perversas e malévolas criaturas - vivas e mortas, corpos e espíritos, e algumas que não são nem uma coisa nem outra -, o casal localiza o vinhateiro na Cidade dos Mortos e ganha dele um ovo mágico, que será muito útil posteriormente. Eles voltam à aldeia natal do protagonista, e, depois de novas peripécias, vivem felizes. É interessante notar a ausência de apreciação moral na narrativa: para alcançar seus objetivos, o protagonista não hesita em matar e roubar - assim como as criaturas que o circundam, como por exemplo, o Céu, que, por uma causa de uma questiúncula com a Terra - a posse de um minúsculo rato - para de chover, arrasa as plantações, provoca fome e enorme mortandade. É também curioso o humor do narrador. Na cidade das "pessoas confusas", ele é nomeado juiz, a quem são submetidas duas causas (p. 126 a 130). Como ele não consegue chegar a uma conclusão, pede: "(...) eu ficaria muito agradecido se alguém que lesse esse livro julgasse um ou ambos os casos e mandasse a sua decisão para mim o mais rápido possível, porque os habitantes da 'cidade confusa' querem que eu vá urgentemente para lá com uma solução" (p. 131). Diferente e inusitado, trágico e divertido - uma experiência prazerosa de leitura!      

(Julho, 2017)


Avaliação:  MUITO BOM 





Observação:

 
Além de terminar a leitura sem saber o que afinal são os tais "jujus" que o protagonista usa para se safar dos perigos, é irritante - mas infelizmente não se trata de uma características apenas deste livro - a não tradução de medidas para o sistema métrico (para mim, algo incompreensível). Alguns exemplos:

(...) cresceu até a altura de 3 polegadas" (p. 34)
Media um quarto de milha de altura e seis pés de diâmetro (p. 46)
(...) um grande guarda-chuva cor de creme, medindo 3 pés de altura (p. 48)
Tinham cerca de dois pés de comprimento (p. 59)







domingo, 23 de julho de 2017

A família Golovliov (1876)
Saltykov-Shchedrin (1826-1889) – RÚSSIA 
Lisboa: Relógio D'Água, 2010, 282 páginas
Tradução:  Manuel de Seabra    



Este magnífico (e trágico) romance descreve a história dos Golovliov, ricos proprietários de terra, vivendo a 700 quilômetros de Petersburgo, logo após a decretação do fim da servidão na Rússia, ou seja, 1861. O Autor erige dois dos mais execráveis personagens da literatura ocidental, a cruel Arina Petrovna, e seu filho, o hipócrita Porfírio Vladímiritch, conhecido, entre a própria família, como Iúduchka, "o pequeno Judas" (p. 25). Arina "dirigia autocraticamente" a vasta propriedade de Golovliovo, "com economia. quase com avareza" (p. 19), governando cerca de "quatro mil almas" (p. 48). Casada com o inútil Vladímir Mikháilitich, um bêbado, cuja atividade limitava-se "a agarrar-se às criadas bonitotas no corredor" (p. 20), Arina passou a vida a ampliar seus domínios, comendo mal, dormindo mal e ignorando os quatro filhos. Ánnuchka casou contra a vontade da mãe e, após ser abandonada pelo marido, morreu, deixando as gêmeas Anninka e Liubinka, de dois anos, aos cuidados da avó. Stepán, depois de perder sua casa em Moscou, dada pela mãe como herança, volta para Golovliovo e, humilhado, é obrigado a viver de restos. Passa, então, a beber e enlouquece, assim como seu pai. Com a morte destes, Porfírio assume Golovliovo, logo se desentende com a mãe e expulsa-a para Dubróvino, parte dos domínios da família, herdada pelo outro irmão, Pável. Este também irá se consumir na bebida, desprezado até mesmo pelos empregados. Porfírio, "litigioso, mentiroso" e pio (p. 115), assume também essa propriedade e passa a contar os dias para incorporar Pogarelka, onde a mãe vive com as gêmeas. Anninka e Liubinka tornam-se "atrizes de província" e abandonam suas terras. Nesse ínterim, Porfírio vê seus dois filhos morrerem - Volódenka se mata e Pétenka sucumbe no caminho para a Sibéria, para onde ia cumprir uma pena por roubo -, amasia-se com Ievpraxéiuchka, que engravida, e tem seu bebê enviado para a roda dos enjeitados em Moscou. Porfírio, que "amava a ideia de atormentar, arruinar, sugar as pessoas" (p. 232), passa os dias fechado em seu escritório em infindáveis contabilidades e inúmeras rezas, sob o lema: "Não sei de nada! Não proíbo nada, nem autorizo nada!" (p. 204). Após anos, Arina morre, uma das netas, Anninka, volta para Golovliovo, tuberculosa - a outra, Liubinka também se mata - e passa as noites a beber com o tio Porfírio, insultando-se mutuamente, até o dia em que ambos enlouquecem e morrem. Então, como um abutre, aparece a prima, filha de Varvara, irmã de Arina, para assumir tudo, e continuar a história de avareza e autodestruição dos Golovliov, pois, como afirma o narrador, "há famílias sobre as quais paira, como inevitavelmente, uma predestinação" (p. 268), no caso, a cobiça, o alcoolismo, a loucura. Estupenda narrativa sobre a usura, o egoísmo, a hipocrisia, o cinismo - enfim, uma crítica ferina, mordaz, devastadora sobre a classe dos proprietários russos, cuja vida de exploração da miséria, acumulação de dinheiro e ociosidade iria redundar nas revoltas políticas do começo do século XX. 

(Julho, 2017)


Avaliação:  OBRA-PRIMA 




Entre aspas:

"(...) todos os homens que não têm qualquer objectivo consciente na vida anseiam instintivamente pelo seu torrão natal". (pág. 131)

"Um homem tem de insensibilizar a vista, o ouvido, o gosto e o odor, tem de tornar-se totalmente insensível para que os miasmas da vulgaridade não o influenciem". (pág. 180)

"(...) quanto mais um homem estúpido é, mais obstinado se mostra em conseguir os seus fins". (pág. 254)


Observações:

 
1) É curioso que parece haver uma inversão na ordem de um dos trechos do livro. O Autor segue rigorosamente a cronologia, mas estranhamente narra no capítulo intitulado "A sobrinha" (pág. 149-190) fatos ocorridos antes do capítulo imediatamente anterior, "Toda a família" (pág. 107-148).

2) É interessante o parentesco entre Pável Vladímiritch Golovliov com Ilya Ilitch Oblomov, protagonista do romance "Oblomov" (1859), de outro russo, Ivan Gontcharóv (1812-1891).

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O vinho da solidão (1935)
Irène Némirovsky (1903-1942) – FRANÇA
Lisboa: Relógio D'Água, 2013, 214 páginas
Tradução:  Júlia Ferreira e José Cláudio      


Embora nascida na Ucrânia, a Autora escreveu toda a sua obra em francês. Dividido em quatro partes bem definidas do ponto de vista do cenário, este romance acompanha a solitária vida de Helène Karol, entre os oito e dezoito anos de idade, em uma época conturbada da história da Humanidade. A primeira parte do livro passa-se em uma pequena cidade industrial da Ucrânia, onde o pai de Helène, Bóris Karol, um judeu de origem pobre, administra uma fábrica, enquanto a mãe, Bella Safronov, judia de família rica, mas empobrecida, mimada e egocêntrica, sonha com uma vida menos aborrecida. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, em uma Rússia tomada por revoltas populares, Helène é criada pela babá francesa, Mademoiselle Rose, longe do carinho dos pais - a mãe sempre lembra que não nascera para ser "uma burguesinha pacata, satisfeita, feliz entre o marido e a filha" (p. 12), enquanto o pai vive mergulhado no trabalho. Bóris acaba demitido, aceita empregar-se numa mina de ouro na Sibéria e passa a especular no mercado financeiro, tornando-se riquíssimo. A segunda parte passa-se em Petersburgo, nos primeiros anos da Grande Guerra. Bóris, cada vez mais ausente, aproveita-se do conflito para fazer "malabarismos com papéis" (p. 79) - ganha fortunas especulando na Bolsa de Valores e comprando móveis e jóias dos aristocratas falidos. Bella toma Max como amante, um rapaz quinze anos mais novo que ela, filho de uma amiga dos tempos da Ucrânia. Helène descobre a traição da mãe e revolta-se contra as negociatas do pai: "tudo nessa casa faz lembrar um covil de ladrões de segunda ordem" (p. 78). Mademoiselle Rose morre, deixando Helène ainda mais amarga e solitária. Na terceira parte, estoura a Revolução Bolchevique. Helène e a mãe e Max se juntam a vários outros membros da burguesia russa e fogem para a Finlândia, carregando o que podem em jóias e ouro. Lá aguardam o desfecho dos acontecimentos. A quarta parte se passa em Paris, para onde a família se muda em 1919, após a assinatura do tratado de paz. Bella, sempre acompanhada de Max, e Helène vivem um cotidiano luxuoso, frequentando os melhores lugares de Paris e da Côte d'Azur, com o dinheiro ganho em transações escusas por Bóris. Envelhecida, Bella acaba abandonada pelo amante; Bóris, que se tornara alcoólatra, entra em falência e pouco depois morre em decorrência da bebida. No dia do seu enterro, Helène resolve largar a casa - o que significa deixar a mãe que detesta - para recomeçar a vida do nada. Apesar do ódio e o do ressentimento - "não se perdoa uma infância destroçada" (p. 164) -, a perspectiva para Helène abre-se em "um céu azul que apareceu entre as colunas do Arc de Triomphe" (p. 214) iluminando-lhe o caminho. O livro descreve com realismo uma burguesia gananciosa, hipócrita e inescrupulosa - "a nossa sorte é haver guerra", afirma a certa altura um personagem (p. 79) -. traçando um excelente retrato das contradições pessoais e coletivas do começo do século XX, que redundariam na catástrofe da Segunda Gurra Mundial.
  

(Julho, 2017)



Avaliação:
  BOM 


Entre aspas:


"Todas os lares são parecidos. Nas famílias só há avidez, mentiras e incompreensão mútua". (pág. 93)


Observação:

 
O Brasil aparece citado em dois momentos no livro.
1) À página 195, quando Helène relembra um amante da mãe: "O seu servilismo e a sua loquacidade divertiam Karol, e Helène reconhecia as velhas palavras que lhe tinham embalado a infância e pareciam acompanhar toda a sua vida como o tema incompreensível e fugidio de uma melodia: minas de petróleo, minas de ouro no México, no Brasil, no Peru, minas de platina e de esmeraldas" etc
2) À página 206, quando Helêne lê para o pai a lista de ações de empresas que ele possuía. A primeira citada é: "Dezassete mil ações da Brazilian Match Corporation"...



sexta-feira, 14 de julho de 2017

O heresiarca e cia. (1910)
Guillaume Apollinaire (1880-1918) - FRANÇA 
Lisboa: Vega,  s/d,  135 páginas
Tradução:  José Carlos Rodrigues     





Reunião de 15 contos, em sua grande maioria fábulas que giram em torno da religião (judaísmo e catolicismo), ou melhor, dos absurdos que se cometem em nome dela. Curiosamente, as três melhores narrativas do livro não estão diretamente ligadas a esse tema e sim ao fantástico. "O desaparecimento de Honoré Subac" é a história de um sujeito, cujo nome dá título ao conto, que, embora possua o poder de se tornar invisível, passa a vida fugindo de um marido traído que busca eliminá-lo, até o dia do encontro fatal. "O marinheiro de Amsterdão" evoca os enredos ultra-românticos, com um clima do norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849): um marinheiro holandês desce do navio em uma escala em Southampton, na Inglaterra. Ele traz um macaco no ombro e imediatamente é abordado por um homem que demonstra intenção de comprá-lo. O desconhecido arrasta o marinheiro para a periferia da cidade e quando entram em uma casa, sequestra-o e o obriga a matar uma mulher, que repete sem cessar "Harry, sou inocente", frase que um papagaio, encontrado na cena do crime no dia seguinte, arremeda mecanicamente. Ao lado do corpo da mulher, o cadáver do marinheiro: um crime sem solução. Finalmente, "O ancião falso-messias, ou histórias e aventuras do Barão d"Ormesan" relata, entre outras peripécias do protagonista, seu aparecimento, como um novo messias, em várias partes do mundo, ao mesmo tempo, resultado de uma máquina de sua invenção.  



(Julho, 2017)



Avaliação: NÃO GOSTO  




Entre aspas:

"(...) o misticismo é parente próximo do erotismo." (pág. 34)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Khan al-Khalili (1946)
Naguib Mahfouz (1911-2006) - EGITO 
Porto: Civilização, 2011,  335 páginas
Tradução:  Badr Hassanien     






Khan al-Khalili é o nome de um bairro da parte antiga do Cairo, para onde se mudam os Akif - pai, mãe e filho -, em fuga do bairro de al-Sakakani, sob ameaça de bombardeio. Estamos em meados de 1941 e o conflito entre aliados e nazistas chega à África. Ahmad, pequeno funcionário público, arrimo da família, tenta se adaptar aos novos tempos e ao novo ambiente. O pai, aposentado e muito religioso, e a mãe, jovem e sociável, conformam-se rapidamente, enquanto Ahmad, intelectual frustrado, aproxima-se dos frequentadores do café al-Zahra: o calígrafo Nunu, o inspetor de ensino Suleiman Ata, os também funcionários públicos Kamal Khalil e Sayyeed Arif, o advogado Ahmad Rashid e Abbas Shiffa, "um dos homens importantes" da zona (p. 62). No café, passam o tempo jogando dominó, fumando narguilé e discutindo sobre os rumos da guerra. Ahmad Akif, solteiro aos 40 anos, conhece a jovem Nawal, de 16 anos, sua vizinha, filha de Kamal Khalil, e por ela se apaixona. Mas, tímido e inseguro, sente dificuldades em se declarar. Então, seu irmão caçula, Rushdi, bancário que trabalhava no interior, consegue uma remoção para a capital, e junta-se à família. Pouco a pouco, ele, sem saber da paixão secreta do irmão, conquista Nawal, causando grande decepção e frustração em Ahmad. Rushdi é noctívago e, embora se comprometa em casar-se com Nawal, continua frequentando prostitutas e perdendo dinheiro no jogo. Até que, por conta de sua vida desregrada, fica tuberculoso e morre. E os Akif - pai, mãe e filho - preparam-se para nova mudança, desta vez para o bairro de al-Zaitoum. Romance bastante previsível - o leitor antecipa em dezenas de páginas a troca que Nawal faz de Ahmad por Rushdi -, com diálogos artificiais e com uma irritante forma narrativa que produz parágrafos e parágrafos compostos apenas por perguntas (V. por exemplo o capítulo 24), é conduzido ainda por uma confusa passagem de tempo - a cronologia dos fatos não se ajusta muito à descrição que é feita deles. Por fim, o Autor parece escrever pensando em um leitor estrangeiro - a todo instante interpola explicações sobre costumes, gastronomia, vestuário...


(Julho, 2017)





Avaliação: NÃO GOSTO




domingo, 9 de julho de 2017

O rio e a guerra (1926)
Mikhail Cholokov (1905-1984) - RÚSSIA 
Porto: Campo das Letras, 2005, 103 páginas
Tradução:  Alexandre Bazine    




São cinco contos passados durante a Guerra Civil russa (1918-1921), tendo como cenário o curso inferior do rio Don. O Autor discute os impasses dos primeiros momentos da Revolução Soviética, a dificuldade de os camponeses compreenderem as mudanças que chegavam e os horrores do conflito entre comunistas e anticomunistas. "O poldro" narra o episódio de um soldado que tem que executar o filhote de uma égua nascido no meio de uma campanha militar e que, por tentar protegê-lo, acaba perdendo a própria vida numa escaramuça. "Sangue alheio" é a pungente a história de um casal de velhos que, tendo perdido o filho, um contra-revolucionário, acaba, ironicamente, adotando um soldado revolucionário ferido. Pouco a pouco, eles convergem todo o afeto ao filho morto para o rapaz. Este, que não tinha família,  permanece uns tempos na aldeia, até o dia em que os deixa para continuar a luta, em uma região distante. "A semente de Chibalak" expõe a terrível sina do soldado que dá título ao conto que um dia descobre uma grávida semimorta no campo de batalha e, apesar dos protestos dos companheiros, incorpora-a, junto com o bebê que nasce em seguida, ao grupo revolucionário. Até que descobrem que a mulher passava informações aos inimigos e exigem que Chibalak mate a mulher e a criança. Ele executa a ordem, mas poupa o bebê, deixando-o aos cuidados de uma família na retaguarda. Anna, a "Mulher de dois maridos", é casada com o contra-revolucionário Aliksandre, dado como morto por equívoco. Ela então se junta ao presidente da cooperativa local, Arséni, apaixonado por ela. Aliksandre ressurge na aldeia e Anna vai morar com ele novamente. Só que, bêbado e extremamente violento, trata-a com desprezo e arrogância. Anna decide fugir de casa, com o bebê recém-nascido, e é recolhido por Arséni. "Sobre Kaltchak, urtigas e outras coisas" é a tragicômica petição de um cidadão, Fidot, à assembleia comunal da aldeia, indignado pelo fato de sua mulher estar se alfabetizando e abismado com o fato de não ter mais direito de espancá-la. Neste livro, o Autor consegue não ceder aos princípios do chamado "realismo socialista", que pouco a pouco destruiria a literatura russa.


(Julho, 2017)



Avaliação: BOM



sexta-feira, 7 de julho de 2017

O chapéu de três bicos (1874)
Pedro Antonio de Alarcón (1833-1891) - ESPANHA
Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, 149 páginas
Tradução:  Aníbal Fernandes   



Narrativa que resgata a tradição da "comédia de erros", trata-se de uma farsa passada em um lugarejo da Andaluzia em 1805. Em um moinho de farinha, "situado a qualquer coisa como a um quarto de légua da povoação" (p. 35), vivia o feliz casal Frasquita e tio Lucas, que "adoravam-se loucamente" (p. 45). Ela, que "andaria a rondar os trinta" anos (p. 39), era uma mulher "cheia de graça e formosura, e sempre radiante de saúde e alegria" (p. 39). Já o Tio Lucas "estava quase nos quarenta anos", e, simpático e agradável, "era feio como o Diabo" (p. 41). O casal recebia os maiorais da terra - o virtuosíssimo bispo, o corregedor, o erudito advogado, entre outros fidalgos e eclesiásticos - em uma "tertúlia vespertina" (p. 35), quando se fartavam com as frutas e legumes de época, todos atraídos na verdade pela beleza e sensualidade de Frasquita. Tio Lucas sabia disso e usava os dotes da mulher para obter vantagens. Um dia, Frasquita, incentivada pelo marido, resolve fingir aceitar as investidas do corcunda corregedor. Só que a brincadeira acaba dando errado e, por uma série de peripécias, tio Lucas passa a acreditar, equivocadamente, que Frasquita realmente cedeu aos amores e resolve se vingar. Roubando a roupa que encontra jogada na sala, dirige-se à casa do corregedor e tenta enganar sua mulher passando-se por ele. Após uma enorme confusão - com direito à clássica cena em que todos se estapeiam confundidos no meio da escuridão -, a cena final reorganiza o mundo que conheceu um momento de desequilíbrio. Frasquita perdoa tio Lucas e a mulher do corregedor lhe impõe uma sanção, que, depois de cumprida, devolve a paz ao lar. Um romance que, lido, a gente logo esquece - ou, talvez, se lembre de uma ou outra passagem, com um esgar no canto da boca...

   
(Julho, 2017)



Avaliação: BOM




A tela humana (1904-1911)
Saki (1870-1916) - INGLATERRA   
Lisboa:  Vega, 1995,115 páginas
Tradução:  Luís Alves da Costa


Seleção de 10 contos, feita pelo escritor argentino Jorge Luiz Borges (1899-1986), para a coleção Biblioteca de Babel. Dois deles são pequenas obras-primas da narrativa curta, ambos, aliás, protagonizados por crianças, nos quais elas emergem com todo o seu sadismo: "A janela aberta", que começa como um sugestão de loucura e finda com uma tragicômica solução; e o antológico "Sredni Vashtar", que acompanha a impressionante vingança de um menino, Conradin, contra sua prima e tutora, Mrs. De Ropp. Estes contos têm como marca a fuga da realidade pela imaginação - o que configura dois outros textos que transitam pelo mundo da infância: "O contador de histórias" e "O quarto de arrumações". A imaginação que leva à insanidade está presente também em "A tela humana" e "Cura de desassossego". Às vezes, a crueldade humana é substituída - ou completada - pela ironia do destino, como em "O silêncio de Lady Anne", "Gabriel-Ernest", "Os intrometidos" e "A paz de Mowsle Barton". Em todos eles, um clima fantástico permeia o real, mas um fantástico verossímil, concreto, palpável... E em todos eles, a solidão, a incomunicabilidade...


(Julho, 2017)



Avaliação: BOM  


quarta-feira, 5 de julho de 2017

O visitante da noite e outros contos  (1931)
B. Traven (1882?-1969?) - ALEMANHA (?)   
Lisboa: Antígona, 2014, 235 páginas
Tradução:  Manuela Gomes    





Este livro reúne 11 histórias - 10 delas passadas no México e uma na França. Bastante desigual, alguns textos nem se configuram como contos. "O padecimento de Santo Antônio", "Na ausência do padre", "Linha de montagem", "Um remédio eficaz" e "A sentinela" são casos, em que são expostos, de maneira algo folclórica, a sagacidade e a ingenuidade dos indígenas. "Uma história verdadeiramente sangrenta" nem isso é: trata-se de uma crônica na acepção mais literal do conceito. "Chamada noturna" e "A história de uma bomba" são contos razoáveis. O que salva o livro são a pungente história de afeto e traição entre um cachorro e o dono de um restaurante parisiense, em "Amizade"; a renovada história de pacto com o diabo, em "Macário"; e principalmente o aterrorizante e fantástico conto longo "O visitante da noite". O que mais me incomoda nas narrativas é que, por mais que perceba a simpatia que o Autor demonstra por suas personagens - a estima aparenta ser sincera -, sempre permanece o estranhamento do olhar superior do europeu, que chega mesmo a escapar em preconceito, como, por exemplo, na página 19, quando o narrador afirma: "(...) não nos esqueçamos que também um trabalhador índio pode ser inteligente". O próprio Autor/narrador parece ter consciência disso, quando confessa, à página 227: "É insensato pretender penetrar nos reais motivos que presidem aos actos cometidos pelos membros de uma raça que não é a nossa". Enfim, um livro que não me comove.


(Julho, 2017)



Avaliação: NÃO GOSTO  



Observações:

O nome do Autor, as datas de nascimento e morte e mesmo sua nacionalidade nunca foram conhecidas efetivamente, Há teses e conjecturas, mas não provas. Por isso, as interrogações...

Entre aspas:

"(...) somos muito mais respeitados se em vez de falarmos deixarmos que os outros falem. Ninguém está interessado na opinião de outrem". (pág. 148)

terça-feira, 4 de julho de 2017

Trinta anos (1961)
Ingeborg Bachmann (1926-1973) - ÁUSTRIA   
Lisboa: Relógio D'Água, s/d, 199 páginas
Tradução:  Leonor Sá    





Coletânea que reúne sete contos, entre eles uma verdadeira obra-prima, "Juventude numa cidade austríaca", na qual, em apenas 10 páginas, a Autora traça um painel completo e complexo da vida em uma pequena cidade antes, durante e logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Outra narrativa magistral é "Entre assassinos e loucos", na qual a Autora mexe nas feridas abertas pelas atrocidades nazistas praticadas pela população austríaca. "A verdade" é um interessantíssimo tratado filosófico, a partir da obsessão de um juiz que busca a verdade, mas "quanto mais a persigo, mais longínqua ela se torna" (pág. 185). "Tudo", sobre o momento em que um homem se apercebe do fim do amor por sua mulher; "A um passo de Gomorra", que registra o nascimento de uma relação homossexual feminina; e o conto que dá título ao livro, que apanha um homem entrando na casa dos trinta anos, e que, "apesar de não poder descobrir em si nenhuma mudança, torna-se inseguro" (pág. 21), completam o volume. "O adeus de Ondina", que fecha a coletânea, é um libelo feminista, escrito numa redação ginasiana. O ponto alto do livro é o registro de uma prosa de ficção encharcada por uma linguagem altamente poética. 



(Julho, 2017)




Avaliação: BOM




Observações:

O Brasil está presente, de forma indireta, quando à página 112 um personagem, sem nome, relatando sua participação na Segunda Guerra Mundial, afirma: "Fomos para a Itália, para Montecassino. Era o maior matadouro que possam imaginar. A carne ali era de tal maneira para abate que se poderia pensar que seria divertimento para um assassino".

Entre aspas:

"Impossível um novo mundo sem uma nova linguagem" (pág. 57)

"Qualquer pessoa que ir para casa quando se sente a morrer (...)" (pág. 80)