domingo, 4 de junho de 2017

Dom Gesualdo (1889) 
Giovanni Verga (1840-1922) - ITÁLIA   
São Paulo: Global, 1983, 289 páginas
Tradução: Vera Mourão   





Romance trágico, situado no começo do século XIX e tendo como cenário a Sicília, descreve a ascensão e queda de dom Gesualdo Motta, um pedreiro que, com muito trabalho e tino comercial, enriquece, tornando-se a maior fortuna da região. Embora astuto, pouco a pouco é enredado pela nobreza decadente, que lhe empurra a mulher, Bianca, frágil membro da tradicionalíssima e falida família Trao, e lhe impõe negócios nem sempre favoráveis. Dom Gesualdo afasta-se de seus parentes - o pai, Nunzio; a irmã Speranza e seus inúmeros filhos; o irmão Santo - e daqueles que estiveram com ele na construção de sua fortuna, particularmente Diodata, uma empregada com quem mantinha uma relação de concubinato, da qual nasceram dois filhos, Nunzio e Gesualdo. Barões e marqueses que moram em palacetes caindo aos pedaços e não têm o que comer adulam dom Gesualdo por causa do dinheiro, ao mesmo tempo em que o desprezam pela origem social. Bianca gera Isabella (provavelmente filha de um primo, o barão Antonio Rubiera - v. pág. 148), que dom Gesualdo, aspirando conquistar um lugar entre a nobreza por meio dela, desde cedo instala nos melhores colégios de Palermo. Durante uma epidemia de cólera, em torno de 1837, dom Gesualdo recolhe familiares, seus e da mulher, empregados e moradores das aldeias próximas em Mangalavite. Lá, Isabella mantém um escandaloso affair com um outro nobre falido, La Gurna, e acaba tendo de aceitar casar-se com um duque, cujo nome "ocupava duas linhas" (pág. 220), Alvaro Filipo Maria Ferdinando Gargantas di Leyra, que aproveita seu dote para pagar dívidas que se acumulam e contratar outras. A morte do pai e depois de Bianca desencadeiam uma demanda jurídica contra dom Gesualdo, liderada pela irmã, Speranza; os nobres mostram-se cada vez mais cínicos, interessados em sua fortuna; a filha se isola em um casamento de fachada; os filhos ilegítimos, tidos com Diodata, aderem a uma rebelião popular, os carbonários, contra os proprietários de terra, particularmente contra ele (rebelião, aliás, liderada por membros da nobreza falida, interessada em manter bens e principalmente poder). Dom Gesualdo compreende então a solidão de habitar um entrelugar - não é mais um pedreiro nem um camponês, mas também não é um nobre; nem sua estirpe permanecerá, pois, envergonhada, a filha usa apenas o sobrenome Trao, da mãe. No final, padecendo de um câncer no estômago, é levado para o sofisticado palácio do duque em Palermo, onde, sob a desculpa de ser tratado por médicos mais qualificados, é mantido encarcerado para não fazer um testamento, o que deixa Isabella como herdeira única de seus bens. Tristíssima narrativa, que expõe a hipocrisia social, o cinismo familiar, a desolação política.
  

(Junho, 2017)



Avaliação: MUITO BOM  



Observações:

1) São impressionantes as descrições da decadência das casas e das pessoas neste romance. E os capítulos finais, que narram a amargura, a solidão e a dor de dom Gesualdo, mantido praticamente como prisioneiro no luxuoso palácio da filha, é comovente.
2) O Brasil surge no nome de um dos empregados de dom Gesualdo, Brasil Camaura (p. 259).



Entre aspas:


"Quando se comete uma burrice, é melhor nada dizer, para não alegrar os inimigos". (p. 173)




terça-feira, 30 de maio de 2017

O viajante e o mundo da lua (1937) 
Antal Szerb (1901-1945) - HUNGRIA  
Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 293 páginas
Tradução: Paulo Schiller  





Estranho romance, esse. Narrado de forma realista, no entanto o clima que evoca é insólito. Neste sentido, configura-se bastante original, já que não se aproxima nem do fantástico, nem do absurdo - como se tudo estivesse envolvido em uma névoa de mistério e de acasos possíveis... Mihály e Erzsi estão passando a lua-de-mel na Itália. Erzsi separou-se do marido, Zoltán Pataki, um industrial bem-sucedido, para se casar com Mihály, filho de uma família burguesa de Budapeste. Mihály sente-se deslocado no mundo, perseguido por "instituições e o conflito alarmante dos anos passados" (p. 91). Após visitar Veneza, o casal está sentado em um café em Ravenna, quando surge, abruptamente, cavalgando uma motocicleta barulhenta, János Szepetneki, um amigo húngaro. Ele aparece, diz que outro velho amigo comum, Ervin, encontra-se retirado em um mosteiro na Úmbria, e some. Essa visita inesperada mudará o curso da viagem de núpcias. Mihály rememora para Erzsi um momento de seu passado, aquele em que, adolescente, na casa dos Ulpius, Tamás e Éva, junto com János e Ervin, encenavam uma vida rebelde completamente fora do tempo. Durante o deslocamento de Florença para Roma, Mihály desce numa estação em Cortona para tomar um café e entra no trem errado, indo parar em Perugia sozinho. Daí para a frente, vai aos poucos aceitando a ideia de romper com os padrões burgueses, casamento, dinheiro, valores. Descobre que Ervin tornou-se uma espécie de santo, o Padre Severinus, em Gubbio, e, por influência dele, decide aguardar em Roma que algo importante aconteça. Erszi, neste ínterim, encaminha-se para Paris, onde reencontra János, de quem se torna amante. Em Roma, Mihály entrevê Éva, quase como uma personagem incorpórea - ela surge e desaparece, sem que ele possa falar com ela. Mihály, pouco a pouco, transforma-se em um quase mendigo. Finalmente, consegue contato com Éva, que lhe conta como Tamás se matou, e resolve também se matar, sendo salvo na última hora por uma festa de batizado... Erzsi, que por um momento imaginou levar uma vida livre em Paris, retorna para Budapeste e casa-se novamente com Zoltán, enquanto Mihály é conduzido para casa pelo pai, aceitando o emprego burocrático na empresa da família, onde viverá "como os ratos entre as ruínas" (p. 293). De certa maneira, a narrativa reforça que na Europa, naquele momento, não havia lugar para rebeldes e rebeldia, o mundo se tornava mais e mais conformista e autoritário. 



(Maio, 2017)



Avaliação: BOM  



Observações:

1) A ideia mais interessante do "fantástico" no livro, infelizmente, não é nada original. O protagonista, Mihály, enfrenta, desde a infância, a sensação de que há um abismo a seu lado, o que lhe provoca pânico e uma total paralisia, física e mental. Algo de que padecia o filósofo e matemático francês, Blaise Pascal (1623-1662), que o poeta também francês, Charles Baudelaire (1821-1867), abordou no poema "O abismo" (V. Flores do Mal. Trad. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 472-473)
2) Embora tendo como cenário a Itália e Paris, todos os personagens importantes do romance são húngaros, o que também ajuda a provocar um interessante estranhamento na narrativa.
3) Nos capítulos 2 e 3 da terceira parte ("Roma") há uma instigante exposição, pelo amigo de Mihály, Waldheim, sobre a morte na civilização ocidental, a partir da tese de que a "morte em geral foi parar entre os conceitos tabus" (p. 200).




Entre aspas:




"O amor exige uma distância, que os amantes percorrem para se encontrar. Naturalmente, a proximidade é apenas ilusória, porque o amor na realidade afasta. O amor é polaridade: os amantes são dois polos opostos do mundo". (p. 37)

"(...) todas as pessoas têm uma idade que lhes é a mais adequada". (p. 188)

"Nós recebemos da civilização um aparato espiritual pronto tão perfeito que durante a maior parte da vida esquecemos que um dia vamos morrer; aos poucos vamos excluir a morte da consciência como excluímos a existência de Deus". (p. 196)

"(...) os momentos e as situações mais marcantes da vida só [podemser evocados por expressões banais, e quem sabe não seriam esses, a despeito de tudo, os momentos mais banais". (p. 277)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Meu companheiro de estrada (1894-1923)
Maksim Górki (1868-1936) - Rússia 
São Paulo: Editora 34, 2014, 397 páginas
Tradução: Boris Schnaiderman 






Esta coletânea reúne 16 contos, que abarcam todas as fases da vida literária do Autor, constituindo-se, portanto, em um panorama bastante significativo da qualidade de sua obra. E o resultado é decepcionante. Na maior parte das narrativas, o Autor não consegue se livrar do depoimento pessoal, em textos na primeira pessoa eivados de pieguice e idealização, conformando quase uma espécie de escrita beatnik avant la lettre. Seus personagens são vagabundos, prostitutas, mendigos, aproveitadores, marginais retratados em clave romântica, enquanto o ambiente é descrito de forma naturalista. A mescla de romantismo e naturalismo produz uma visão populista, que, ao invés de empatia, objetivo primordial da literatura, provoca no máximo piedade. Há dois contos que fogem ao caráter exclusivo de documento - a que, a rigor, se reduzem essas narrativas -: a história de veneração transformada em crueldade em "Vinte e seis e uma", e a estranha relação entre fortes e fracos, com um pano de fundo acerca do anti-semitismo russo, que encontramos em "Caim e Artiom". No mais, há apenas uma sequência de bons contos que perdem a força pela intromissão desnecessária do narrador, como "Por desfastio", "Na estepe" e "Uma mulher". Há que destacar a belíssima lenda incrustrada em "A velha Izerguil", a sombra que Larra se tornou, vagando pelo mundo, um Ahaverus moldavo. Panfletárias e reducionistas, as reportagens literárias do Autor têm mais importância como testemunho de uma época de horror e sofrimento que como obra de arte. O que prova que boas intenções não redundam necessariamente em literatura de qualidade.

(Maio, 2017)




Avaliação: NÃO GOSTO 




Observações:

De novo, minha implicância com os tradutores: por que não vertem as medidas de distância? Aqui, nos vemos às voltas com verstas e sájens, que não dizem nada ao leitor brasileiro. 


Entre aspas:




"Há pessoas para as quais o mais precioso e melhor na vida é constituído por alguma doença do corpo ou do espírito" (p. 182)

"(...) as convicções de pessoas esclarecidas são tão conservadoras como os hábitos de pensar da massa analfabeta e supersticiosa" (p. 373)


terça-feira, 2 de maio de 2017

1919 (1932)
John dos Passos (1896-1970) - Estados Unidos
São Paulo: Abril Cultural, 1983, 395 páginas
Tradução: Daniel Gonçalves




Um romance peculiar que, tendo a I Guerra Mundial como tema principal e quase único, não descreve cenas de batalha, não relata atos de heroísmo ou covardia, não passeia por cidades e paisagens arrasadas por bombas. O que avulta aqui é a discussão sobre os bastidores do conflito, os interesses econômicos das grandes corporações norte-americanas, as estratégias das nações envolvidas na conflagração para ampliar seus espaços de operação, e, de quebra, a brutal repressão, nos Estados Unidos, dos movimentos sindical e de esquerda (anarquistas e comunistas). Formalmente, o livro desenvolve-se em blocos: "Noticiário" (recortes de manchetes e trechos de matérias de jornais da época); "A lente objetiva" (fragmentos caóticos de personagens anônimos); biografias de personagens reais (o jornalista John Reed, o escritor Randolph Bourne, os presidentes Theodore Roosevelt* e Woodrow Wilson, o diplomata Paxton Hibben, o banqueiro J.P. Morgan, o líder anarquista Joe Hill, e o Soldado Desconhecido); e narrativas ficcionais. São cinco personagens principais: o marinheiro Joe Williams, que, depois de sobreviver a dois naufrágios causados por torpedeamentos de submarinos alemães, morre estupidamente numa briga; Richard Ellsworth Savage, um sujeito de classe média baixa, criado sem pai, que, indo para a França como voluntário para dirigir ambulâncias, acaba capitão do Exército, vivendo à grande entre missões do correio; Eveline Hutchins, filha de um médico, que, após um rápido flerte com ideais esquerdistas, entra como voluntária na Cruz Vermelha em Paris; Anne Elizabeth Trent (Filhinha), de família de fazendeiros texanos, que se envolve, por causa do namorado, com grevistas e pacifistas, e que vai então para a Itália prestar serviços na instituição metodista Organização de Auxílio ao Próximo Oriente; e Ben Compton, jovem judeu que se torna líder sindical e, por conta de sua militância, é condenado a dez anos de prisão. Entremeadas a essas biografias, vários outros personagens entrecruzam-se - exceto o marinheiro Joe Williams e Ben Compton, cujas narrativas não se comunicam com nenhuma outra. É curioso que, para essas personagens, a guerra surge como uma oportunidade de "excursão gratuita" (p. 172) pela Europa. Eles se divertem, bebendo, comendo, transando, alheados e alienados da matança desenfreada que ocorria a poucos quilômetros de onde estavam instalados. A Conferência de Paz de Paris, que se estende por todo o ano de 1919 (daí o título do livro), e que põe fim efetivamente à Primeira Guerra Mundial, significa uma "gigantesca era de expansão (...) para a América lleia-se, Estados Unidos}" (p. 190), já que "o único meio de assegurarmos para o mundo os benefícios da paz consiste em dominá-lo" (p. 261). Ou, como explica Dick (Richard Savage) a Anne Elizabeth (Filhinha): "somos os romanos do século vinte" (p. 313). Ao contrário, o ativista Ben Compton argumenta que "os governos capitalistas estão (...) empurrando o povo para o matadouro numa guerra louca e desnecessária que não beneficia ninguém, salvo os banqueiros e os fabricantes de armamentos" (p. 371). Mas, "ser vermelho em 1919 era pior do que ser germanófilo ou pacifista em 1917)" (p. 381)... Um romance sempre atual...


Avaliação: MUITO BOM  

(Maio, 2017)


Curiosidade

* O Brasil surge à pág. 124, na biografia de Theodore Roosevelt.



domingo, 23 de abril de 2017

A ponte sobre o Drina (1945)
Ivo Andric (1892-1975) - BÓSNIA    
Tradução: Lúcia e Dejan Stankovic      
Lisboa: Cavalo de Ferro, 2016, 384 páginas



Magnífica reconstrução da conturbada história da Europa (e de sua extensão, o Oriente Médio), por meio da crônica de acontecimentos ordinários ocorridos às margens do rio Drina - mais precisamente, à cabeceira da ponte que se ergue majestosa sobre ele, em terras onde os mundos cristão e muçulmano se confundem, a Bósnia. O Autor deixa de lado os heróis e anti-heróis para se dedicar aos anônimos habitantes de Visegrad, que ao longo de quase 400 anos observam, na maior parte do tempo passivamente, a História desfilar à sua porta. O livro começa na segunda década do século XVI com a edificação da ponte de pedra - cerca de 200 metros de comprimento e oito de largura - pelo grão-vizir Mehmed Paxá, uma espécie de primeiro-ministro do Império Otomano, nascido nas imediações e convertido à força aos 10 anos. Enfiados em suas casas de comércio, os membros das comunidades muçulmana, cristã ortodoxa e judaica vivem em harmonia, mas sujeitas a decisões políticas tomadas longe dali, que acabam repercutindo, às vezes com mais, às vezes com menos intensidade, em seu cotidiano. Situada na fronteira com a Sérvia, os moradores de Visegrad conhecem tempos de fartura e de paz, mas também de crise e de guerra. As lembranças incluem grandes inundações, casamentos memoráveis, bêbados que caminharam pelos arcos da ponte, batizados atrasados por festas, amores frustrados, amizades frustradas, vidas frustradas. E conflitos: as rebeliões da população sérvia; o começo do desmantelamento do Império Otomano, em meados do século XIX, quando a região torna-se protetorado do Império Autro-Húngaro; a anexação pelo Império Autro-Húngaro, em 1908; e, finalmente, o atentado contra o arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, capital bósnia, em 1914, que dá início à Primeira Guerra Mundial, a mais terrível de todas as guerras. O romance termina justo aqui, nos primeiros meses da conflagração que causou a morte de milhões de jovens, que o Autor assim brilhantemente sintetiza: "O que a caracterizava particularmente é que há muito tempo não surgia uma geração que tivesse sonhado mais com a vida e da vida falado mais e com mais audácia, bem como dos prazeres e da liberdade, e que, ao mesmo tempo, tão pouco tivesse recebido da vida, mais tivesse sofrido, mais fosse escravizada, morrendo pelos seus ideais" (p. 280).
     

(Abril, 2017)




Observações:

1) Não compreendo a capa deste livro: a personagem principal e única é a ponte que empresta o título ao volume, e a figura que a ilustra leva-nos, erroneamente, a imaginar que é uma história sobre um líder turco ou, no máximo, sobre o Império Otomano...  

2) Entre as páginas 39 e 52, há uma descrição impressionante da tortura e empalamento, pelos turcos, de um cristão ortodoxo que tentou sabotar a construção da ponte. 


Avaliação: MUITO BOM      



quinta-feira, 13 de abril de 2017

O fogo-fátuo (1931)
Drieu la Rochelle (1893-1945) - FRANÇA   
Tradução: Aníbal Fernandes     
Lisboa: Sistema Solar, 2016, 156 páginas



Alain tem trinta anos: egocêntrico, vaidoso, mimado, narcisista, impotente, é viciado em heroína. O narrador nos propõe acompanhar as últimas horas desse personagem, que desde as primeiras páginas sabemos que vai se suicidar. Apático, ele deixa o hotel onde passou a noite com uma de suas amantes, Lydia, que, prestes a voltar para os Estados Unidos, lhe deixa um cheque de 10 mil francos - que ele aceita com ansiedade e desprezo. O protagonista torna, então, à clínica de desintoxicação, onde somos levados a conhecer alguns de seus colegas voluntariamente internados. No dia seguinte, após descontar o cheque, ele visita um amigo, Dubourg, egiptólogo amador, casado e pai de duas meninas, que tenta convencê-lo dos prazeres da vida pacata. Em Montmartre, no estúdio do fotógrafo Falet, que junto com uma mulher, Eva Canning, toma ópio, Alain injeta heroína em sua veia. Dali, vai à casa de Praline, onde encontra outros drogados. No fim da tarde, dirige-se à mansão dos Lavaux e mais conversas pretensamente niilistas. Regressa a Montmartre, onde no banheiro de um bar encharca-se novamente de heroína. Afinal, no quarto da clínica, pega um revólver e se mata. Todo o tempo o narrador quer justificar as motivações de Alain, por que ele é incompreendido pela sociedade, mas eu pelo menos em momento algum consegui sentir qualquer simpatia - e muito menos empatia - pelo personagem. Todos os seus passos me pareceram absolutamente gratuitos - mas não se trata daquela "ação gratuita" típica dos personagens dostoievskianos, concebível, porque humana, mas de "inação gratuita". Ao fim e ao cabo, acompanhamos, sem prazer, sem fruição, um insuportável heroinômano flanar reclamando pelas ruas de Paris. O Autor escreve bem - "A sua pele era o couro forte e sujo de uma mala de luxo muito viajada" (p. 24); "vivia nos quartos vazios da moral" (p. 96); "Praline tinha sido fresca como uma infância" (p. 100) -, mas nem isso me provocou comoção. Alain, que "só pensava em dinheiro", mas que estava separado dele "por um abismo quase intransponível, escavado pela preguiça, pela secreta e quase imutável vontade de nunca o arranjar com trabalho" (p. 38), explica assim a sua opção: "drogo-me, porque faço mal o amor" (p. 81). Além do breve romance, "O fogo fátuo", o livro é composto por um pequeno conto, "Adeus a Gonzague" - Gonzague é um outro nome para Alain - que nada acrescenta.

(Abril, 2017)


Avaliação: NÃO GOSTEI     

terça-feira, 11 de abril de 2017

A ordem de pagamento & Branca gênese (1969/1966)
Sembène Ousmane(1923-2007) - SENEGAL  
Tradução: Jayme Villa-Lobos    
São Paulo: Ática, 1984, 176 páginas


Escritos em francês, esses dois romances breves discutem aspectos bastante diversos entre si. A ordem de pagamento narra a inútil e exaustiva tentativa do desempregado Ibrahima Dieng para receber uma ordem de pagamento enviada de Paris por seu sobrinho, Abdou. Antes mesmo de colocar a mão no dinheiro - que nem é dele -, Ibrahima sofre o assédio de vizinhos, parentes e amigos que inflacionam o valor a ser recebido e tentam cada um arrancar-lhe um empréstimo ou uma doação. Vivendo em um bairro da periferia de Dakar, enfrentando a pobreza e a falta de perspectiva, Ibrahima, com sua ingenuidade e paciência, perde-se nos corredores da burocracia e da corrupção do funcionalismo público. Achacado por pessoas que pretensamente buscam ajudá-lo, acaba passando uma procuração para um vivaldino, parente distante de uma de suas duas mulheres - os personagens são muçulmanos -, que o ludibria e fica com o dinheiro. Já Branca gênese conta a história - na verdade, a tragédia - de uma família de guelewares - gente de sangue nobre - em um pequeno povoado do litoral, Santhiu-Niaye. Quando sua filha Khar Madiagua Diob engravida antes de se casar, para escândalo da comunidade muçulmana, Ngoné War Thiandum passa a tentar saber quem é o pai da criança. Para sua surpresa, decepção e indignação, descobre que o neto é fruto de incesto: seu marido, Guibril Guedj Diob, chefe da aldeia, manteve relações sexuais com a filha. Ngoné se suicida de vergonha; seu filho mais velho, Tanor, neurótico de guerra - participou como soldado do exército francês em campanhas na Indochina, Argélia e Marrocos - mata o pai a punhaladas; e Khar, expulsa do povoado com seu bebê, toma o caminho que leva para Ndakaru (Dakar). 


* Não entendi por que o nome do Autor está grafado como Sembène Ousmane, quando ele é conhecido mundialmente como Ousmane Sembène...


(Abril, 2017)




Avaliação: BOM      


segunda-feira, 10 de abril de 2017

O assassinato e outras histórias (1894-1900)
Anton Tchekhov (1860-1904) - RÚSSIA  
Tradução: Rubens Figueiredo    
São Paulo: Cosac & Naify, 2002, 263 páginas





Se me fosse imposto o exílio numa ilha deserta, e só pudesse carregar livros de um único escritor, certamente minha pequena estante seria coberta por volumes de Anton Tchekhov. Nesta magnífica recolha, organizada por Rubens Figueiredo, temos uma amostra da genialidade do Autor. São seis narrativas de curta extensão - a mais longa ocupa parcas 54 páginas - que, condensando histórias de gente absolutamente comum, demonstram uma profunda compreensão do sofrimento humano, tirando-nos de nossa zona de conforto, algo que apenas a verdadeira Arte consegue provocar. A melancolia e o desencanto povoam todos os cantos deste livro, como se não houvesse - e não há - saída para ao egoísmo, a mediocridade e a vulgaridade do mundo. "O professor de letras" retrata a vida pacata de Nikítin, professor da escola secundária numa província qualquer do interior da Rússia. Nikítin tem 26 anos e está apaixonado por Maria (Maniússia) Chelestova, 18 anos, caçula de uma família rica. Após um breve namoro, casam-se, e em pouco tempo ele, desesperado, toma consciência que está enredado para sempre em um cotidiano de futilidades e relações superficiais. "O assassinato" relata o homicídio de Matviei Terekhov por seus irmãos, Iákov e Aglaia, motivado por nonadas. Há uma interessantíssima discussão a respeito da fé: a tentativa de conquistar a 'pureza' como sinônimo de soberba e o abismo entre o que se prega e o que se pratica. "O assassinato", de alguma maneira, emula a temática presente em Crime e castigo, de outro russo, Fiódor Dostoiévski (1821-1881), publicado em 1866. "Os mujiques" é a representação da miséria dos camponeses. Muito doente, Nikolai Tchikildiéiev, ex-lacaio do hotel Bazar Eslavo, de Moscou, volta para sua aldeia natal junto com a mulher, Olga, e a filha, Sacha, e vai morar numa isbá com a mãe sovina, o pai indiferente, as cunhadas Mária, que apanha com imensa brutalidade do marido Kiriak, e Fiokla, cujo marido, Denis, está longe servindo como soldado. Lá, eles convivem com aquela gente que subsistem como animais: "grosseiros, sujos, sórdidos, sempre bêbados, eles vivem em atrito, não param de brigar, não se respeitam, têm medo e desconfiança uns dos outros" (p. 132), segundo a descrição de Olga, uma mulher que tenta manter certa dignidade no meio da ignorância, da pobreza, da imundice, da violência doméstica. O poder só aparece ali para "insultar, extorquir, intimidar" (p. 133). Após a morte de Nikolai, Olga e Sacha dirigem-se a Moscou, mas no caminho, exaustas, passam a mendigar. "Iônitch" talvez seja o mais triste conto da coletânea. Dmitri Iônitch Startsev, médico recém-nomeado para um distrito no interior do país, passa a frequentar a mansão de Ivan Petróvitch Turkin, onde se toma chá, ouve-se a mulher, Vera Iossifovna, ler seus intermináveis romances, a filha Ekatierina (Kotik) golpear as teclas do piano e o dono da casa desfiar suas anedotas, charadas, provérbios, pilhérias e gracejos. Logo, Iônitch propõe casamento a Kotik, mas ela o rejeita, dizendo que seu objetivo era ser artista - e parte para Moscou. À medida em que o tempo escorre, Iônitch, que engorda e acumula dinheiro, se pergunta onde estava com a cabeça por um dia ter se interessado por Kotik. Ela volta de Moscou desiludida, sem ter conseguido seguir carreira como pianista, e é por sua vez refugada por Iônitch. Eles envelhecem sozinhos, infelizes, amargurados. "Em serviço" acompanha o médico Startchenko e o juiz de instrução Lijin a uma pequena aldeia para fazer a autópsia do agente do conselho local, Lesnítski, um nobre decadente e falido que se matou. Impedidos por uma nevasca de cumprir seu papel, ambos se instalam na casa de Von Taunits, onde sonham com uma existência diferente da que levam, cinzenta e sem perspectivas. "No fundo do barranco" é a encenação de uma tragédia. Na aldeia de Uklêievo vive a família de Grigori Pietrov Tsibúkin, dono de uma pequena mercearia, que serve de fachada para negociar tudo quanto aparecesse, incluindo o empréstimo de dinheiro a juros. Viúvo, ele casou-se com Várvara Nikolaievna. Um de seus filhos, Stepan, é surdo, e sua mulher, Aksínia, trabalha sem parar para ampliar a riqueza do sogro. O outro filho, Anissim, policial, mora longe. Instado pelo pai e pela madrasta, Anissim acaba contraindo matrimônio com Lipa, filha de uma diarista muito pobre. Aksínia trai o marido com uns industriais de uma aldeia próxima e, ambiciosa, aos poucos vai tomando conta de todos os bens de Tsibúkin. Anissim envolve-se com a distribuição de moedas falsas, e, preso, é enviado para trabalhos forçados na Sibéria. Aksínia aproveita-se, dá fim ao filho de Anissim com Lipa, e expulsa o sogro de casa. Lipa volta a morar com a mãe e a trabalhar na lavoura. Corrupção, egoísmo, avareza, pobreza, mediocridade, violência, apatia - a Rússia do século XIX é terrivelmente parecida com o Brasil do século XXI.


(Abril, 2017)




Avaliação: OBRA-PRIMA      


Entre aspas:

“A mediocridade (...) não consiste em ser incapaz de escrever histórias, mas em ser incapaz de manter escondido aquilo que foi escrito". (p. 153)

terça-feira, 4 de abril de 2017

Contos de Belkin (1831)
Aleksander Pushkin (1799-1837) - RÚSSIA  
Tradução: Klara Gourianova    
São Paulo: Nova Alexandria, 2003, 120 páginas




Conjunto de cinco histórias escritas "pelo finado Ivan Petróvitch Belkin", "filho de pais honrados e nobres" (p. 12) - expediente utilizado pelo Autor para dar maior veracidade às narrativas. "O tiro" é uma obra-prima. O conto se desdobra em dois momentos: Silvio, um ex-membro do regimento dos hussardos (corpo de guerra formado pela cavalaria), exímio atirador, relata como suspendeu um duelo depois que seu adversário, errando o tiro, mostrou profundo desdém pela morte certa; anos mais tarde, o narrador encontra este adversário que lhe conta como se deu a vingança de Silvio. "A nevasca" é uma ótima história com desfecho romântico (e inverossímil): o jovem tenente Vladímir Mikháilovitch convence a rica Maria Gavrílovna a fugir para se casar com ele*. Maria aceita e se dirige a uma igreja numa aldeia próxima. Vladímir vai ao seu encontro, mas uma nevasca o faz perder-se e atrasar-se, de tal maneira que, ao chegar ao local combinado, não há mais ninguém. Maria adoece e os pais, acreditando que trata-se de paixão pelo tenente, tenta convencê-lo a desposá-la, mas Vladímir mostra-se irredutível em sua recusa. Ele parte para a guerra contra os franceses (1812) e por lá morre. Maria, agora herdeira de uma fortuna deixada pelo pai, continua rodeada de pretendentes. Por um deles, Burmin, coronel dos hussardos, herói de guerra, demonstra interesse. Mas ele confessa que não pode desposá-la, por ter se casado com alguém que nem conhece... E então descreve como participou de uma cerimônia durante uma nevasca e descobre em Maria a sua consorte daquela noite... "O agente funerário" é um conto 'fantástico' - na verdade, Adrian Prókhorov sonha que os defuntos que evocou de maneira insensata durante o dia aceitam seu convite para participar de uma festa. Quando acorda, percebe que o horror desapareceu junto com o sono. "O chefe da posta" é outra pequena obra-prima: parando em um centro de troca de cavalos e paragem para refeição e descanso (a posta) no interior da Rússia, o narrador conhece Avdótia Simeónovna, de apelido Dúnia, bela moça de 14 anos, menina dos olhos do pai. Anos depois, o narrador passa por ali novamente e o chefe da posta lhe conta que Dúnia fugiu com um hussardo para Petersburgo. Ele conseguiu localizá-la naquela cidade e tentou convencê-la a voltar, sem sucesso. Em outra passagem pelo local, tempos depois, o chefe da posta já morto, um menino relata que certa feita uma "linda senhora" veio até ali "numa carruagem de seis cavalos, com três filhinhos pequenos, com a babá e um cachorrinho preto" (p. 89) à procura do chefe da posta, e, ao saber de sua morte, chorou e foi visitar seu túmulo. "A sinhazinha camponesa" é típica história romântica: Lisaveta Grigófrievna é filha do fazendeiro Grigóri Ivánovitch Múromski, inimigo figadal de seu vizinho, Ivan Petróvitch Bérestov. Ela se apaixona pelo filho de Bérestov, Aleksei, e para se aproximar dele traveste-se de camponesa. Aleksei cai de amores por ela e apenas no final descobre que a camponesa é Lisaveta - as famílias se reconciliam, eles se casam. O Autor demonstra enorme poder de evocação de paisagens e profunda compreensão da alma humana.  
      
* É estranho que Vladímir Mikháilovitch (p. 40) se torne Vladímir Nikoláievitch (p. 47) e Gavrila Gavrílovitch (p. 39), o pai de Maria Gavrílovna, se torne Gavrila Mikháilovitch (p. 48) - certamente erro de redação...


(Abril, 2017)



Avaliação: MUITO BOM     


quinta-feira, 30 de março de 2017

Contos - uma antologia (Volume 2)
Machado de Assis (1839-1908) - BRASIL  
Seleção: John Gledson  
São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 542 páginas 


Neste segundo volume da antologia, que abrange 53 de um total de 75 contos, o Organizador escolheu 16 narrativas de Histórias sem data, de 1884, 14 de Várias histórias, de 1895, seis de Páginas recolhidas (1899), seis de Relíquias de casa velha, de 1906 e 11 não recolhidas em livro. Aqui encontramos algumas pequenas obras-primas da literatura universal, como "Singular ocorrência", "Capítulo dos chapéus", "Primas de Sapucaia!", "Noite de almirante", "O enfermeiro", "Conto de escola", "A cartomante", "Um apólogo", "A causa secreta", "Uns braços", "Terpsícore", "Um homem célebre", "O caso da vara", "Missa do galo", "Pílades e Orestes", "Umas férias" e "Pai contra mãe". O Autor consegue abordar os mais diversos assuntos - o amor interesseiro, patologias, o erotismo, a escravidão e até a questão da homossexualidade - sempre com precisão e senso estético apurado. É curioso como alguns assuntos voltam de maneira quase obsessiva, como por exemplo a frustração do músico que não consegue alcançar aquilo que pensa ser o seu verdadeiro lugar, presente em "O machete", publicado no volume 1, e repetido aqui em "Cantiga de esponsais" e em "Um homem célebre", ou o amor platônico, mas extremamente erotizado de um adolescente por uma mulher mais velha, exposto em "Uns braços" e "Missa do galo", que são rigorosamente idênticos.


(Março, 2017)


Avaliação: MUITO BOM     


Entre aspas:



"Que é a saudade senão uma ironia do tempo e da fortuna?" (p. 346)


segunda-feira, 27 de março de 2017

O Pai Goriot (1835)
Honoré de Balzac (1799-1850) - FRANÇA 
Tradução: Gomes da Silveira   
São Paulo: Biblioteca Azul, 2012, 321 páginas



O Pai Goriot é um dos títulos presentes neste quarto volume de A Comédia Humana, ciclo monumental onde o Autor enfeixou, organizando e conectando, sua obra inteira. Neste romance, estratégias narrativas típicas do Romantismo encontram-se subordinadas a uma abordagem temática definitivamente realista. Os traços românticos podem ser entrevistos na existência de um "vilão" com dupla identidade (Vautrin, que é na verdade Jacques Collin, conhecido no submundo como "Engana-A-Morte"), na condução que provoca o desfecho abrupto da trama em um espaço único e em um período de tempo bastante exíguo (no caso, em apenas um dia todos os nós da história são desfeitos) e nos diálogos teatrais que beiram ao melodrama (principalmente, no encontro entre as filhas, a baronesa Delphine de Nucingen e a condessa Anastasie de Restaud*, com o pai delas, Jean-Joachim Goriot, em um quarto miserável de pensão). É curioso que, embora o romance tenha como foco a relação trágica entre o pai amoroso, ciumento e possessivo, Goriot, com suas filhas, fúteis, injustas e ingratas, o livro versa muito mais sobre o duro aprendizado do jovem estudante Eugène de Rastignac sobre o funcionamento do lamaçal que constitui a alta sociedade parisiense, hipócrita, cínica e cruel**. Rastignac chega a Paris, vindo do interior, para estudar Direito, mas logo deslumbra-se com as luzes da cidade. Morando na modesta pensão da Sra. Vauquer, percebe que, caso queira enfronhar-se entre os aristocratas, teria que fazer opções éticas e morais. Descobre um parentesco longínquo com a viscondessa de Béauseant e, por meio dela, passa a frequentar as festas, os jantares, o teatro, com dinheiro extorquido, em chantagens emocionais, de sua mãe e irmãs***. Logo aproxima-se da condessa de Restaud e em seguida da baronesa de Nucingen, que, descobre, são filhas de seu vizinho de pensão, Goriot, um comerciante que enriqueceu especulando com trigo durante a Revolução Francesa e que retirou-se, por imposição dos genros, por ser burguês e "revolucionário" - a história se passa na época da Restauração, ou seja, quando a antiga monarquia retorna ao poder. Rastignac compreende a podridão em que está se metendo e decide, no final, aceitar as regras propostas. A narrativa, edificada em personagens complexos e multifacetados, exibe as entranhas da alta sociedade, deixando-nos uma lição: "O segredo das grandes fortunas sem causa aparente é um crime esquecido porque o serviço foi bem feito" (p. 143). 
  

(Março, 2017)


Curiosidades:


* É incompreensível porque os tradutores transliteravam os nomes de alguns personagens - Eugène vira Eugênio, Delphine vira Delfina, Anastasie vira Anastácia, mas Jacques... se mantém Jacques... Ainda bem que os tradutores modernos mantêm os nomes próprios tais quais encontram-se no texto original.
** Vale a pena observar o perfeito retrato traçado pelo cínico Vautrin sobre a sociedade francesa do começo do século XIX (p. 136 e seguintes) - que, infelizmente, em nada se diferencia do Brasil de hoje: "Sabe como é que a gente faz carreira aqui? Pelo brilho da inteligência ou pela habilidade da corrupção. É preciso penetrar nessa massa humana, como um projétil de canhão, ou insinuar-se no meio dela como uma peste. A honestidade não serve para nada".  
*** A trajetória de Eugène de Rastignac é a mesma de Lucien de Rubempré, protagonista de Ilusões perdidas (1836-1843), outro romance de Balzac. Ambos são jovens que chegam do interior, membros de uma pequena aristocracia falida, ambiciosos e ingênuos, que chantageiam os parentes pobres para poder brilhar na sociedade parisiense. 




Avaliação: MUITO BOM     



quarta-feira, 15 de março de 2017

Contos - uma antologia (Volume 1)
Machado de Assis (1839-1908) - BRASIL  
Seleção: John Gledson  
São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 421 páginas 




Dos "cerca de duzentos contos" (p. 15) escritos pelo Autor, os dois volumes desta antologia reúnem 75 entre os melhores. Neste primeiro volume, que abrange 21 narrativas, o Organizador escolheu três histórias da primeira coletânea lançada pelo Autor, Contos Fluminenses, de 1870 ("Frei Simão", "Confissões de uma viúva moça" e "Miss Dollar"), uma da segunda coletânea, Histórias da Meia-Noite, de 1873 ("A parasita azul"), oito não recolhidas em livro ("Três tesouros perdidos", "Virginius", "Mariana", "A chinela turca", "Uma visita de Alcibíades", "O machete", "Na arca" e "Folha rota") e todas as nove constantes de Papéis avulsos, de 1882 ("O alienista", "Teoria do medalhão", "D. Benedita", "O segredo do bonzo", "O anel de Polícrates", "O empréstimo", "A Sereníssima República", "O espelho" e "Verba testamentária"). Em onze dos doze contos do período dito "romântico", que antecede à publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1881, o Autor mostra-se ainda titubeante no tratamento dos motes, embora já se possam distinguir sua marca estilística - que, evidentemente vai se espessar ao longo do tempo - e sua visão de mundo, progressista, mas pessimista. De maneira ainda sutil, ele se insurge contra o modelo de sociedade da época, criticando os casamentos arranjados("Frei Simão"), a escravidão ("Virgínius") e até o "gênero ultra-romântico" (p. 221) ("A chinela turca"). Outros temas, que serão desenvolvidos e aprofundados mais tarde, também já se encontram presentes, como a figura do canalha, nas ousadas "Confissões de uma viúva moça"; o olhar desalentado a respeito da Humanidade, desde sua origem "Na arca"; e a insatisfação com os caminhos que escolhemos para trilhar ao longo da vida*("O machete"). A exceção desta primeira fase é "Mariana", texto magnífico de 1871, crítica direta e contundente à escravidão, ao racismo e à hipocrisia. Os contos "realistas", enfeixados em Papéis avulsos, exibem o Autor em sua plenitude. "O alienista", conto longo, quase um pequeno romance, questiona o conceito de sanidade mental; "Teoria do medalhão" expõe o pragmatismo cínico da política; "O empréstimo"***, o caráter movediço das nossas ações; "A Sereníssima República"***retoma o mote de "Na arca" para, de maneira alegórica, mostrar a inviabilidade de organização do ser humano, por conta de seu egoísmo; "O espelho" é um exame da sociedade que vive das aparências. Esses seis últimos contos garantem a Machado de Assis figurar na reduzida galeria dos melhores escritores de todos os tempos em qualquer língua. 
   

(Março, 2017)


Curiosidades:


* O casamento, segundo a viúva moça: "Entramos no nosso lar nupcial como dois viajantes estranhos em uma hospedaria, e aos quais a calamidade do tempo e a hora avançada da noite obrigam a aceitar pousada sob o teto do mesmo aposento" (p. 106). Este conto é de 1864! 

** Este tema, que voltará mais vezes na prosa do Autor (V. por exemplo, "Cantiga de esponsais" e "Um homem célebre"), foi tratado também no poema "Círculo vicioso", publicado no volume Poesias Completas, de 1901. 


Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- "Pudesse eu copiar o transparente lume, 
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela 
claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

- "Pesa-me esta brilhante auréola de nume... 
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?"...


*** V., sob outra perspectiva, o capítulo XXI - O almocreve, de Memórias póstumas de Brás Cubas (p. 141-142)

**** Este conto deve muito a Viagens de Gulliver (1726 e 1735), do inglês Jonathan Swift (1667-1745). Compare a descrição dos partidos políticos de Liliput com os estudados pelo Cônego Vargas (p. 396).





Avaliação: MUITO BOM     


Entre aspas:



"O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento". (p. 132)