quarta-feira, 5 de julho de 2017

O visitante da noite e outros contos  (1931)
B. Traven (1882?-1969?) - ALEMANHA (?)   
Lisboa: Antígona, 2014, 235 páginas
Tradução:  Manuela Gomes    





Este livro reúne 11 histórias - 10 delas passadas no México e uma na França. Bastante desigual, alguns textos nem se configuram como contos. "O padecimento de Santo Antônio", "Na ausência do padre", "Linha de montagem", "Um remédio eficaz" e "A sentinela" são casos, em que são expostos, de maneira algo folclórica, a sagacidade e a ingenuidade dos indígenas. "Uma história verdadeiramente sangrenta" nem isso é: trata-se de uma crônica na acepção mais literal do conceito. "Chamada noturna" e "A história de uma bomba" são contos razoáveis. O que salva o livro são a pungente história de afeto e traição entre um cachorro e o dono de um restaurante parisiense, em "Amizade"; a renovada história de pacto com o diabo, em "Macário"; e principalmente o aterrorizante e fantástico conto longo "O visitante da noite". O que mais me incomoda nas narrativas é que, por mais que perceba a simpatia que o Autor demonstra por suas personagens - a estima aparenta ser sincera -, sempre permanece o estranhamento do olhar superior do europeu, que chega mesmo a escapar em preconceito, como, por exemplo, na página 19, quando o narrador afirma: "(...) não nos esqueçamos que também um trabalhador índio pode ser inteligente". O próprio Autor/narrador parece ter consciência disso, quando confessa, à página 227: "É insensato pretender penetrar nos reais motivos que presidem aos actos cometidos pelos membros de uma raça que não é a nossa". Enfim, um livro que não me comove.


(Julho, 2017)



Avaliação: NÃO GOSTO  



Observações:

O nome do Autor, as datas de nascimento e morte e mesmo sua nacionalidade nunca foram conhecidas efetivamente, Há teses e conjecturas, mas não provas. Por isso, as interrogações...

Entre aspas:

"(...) somos muito mais respeitados se em vez de falarmos deixarmos que os outros falem. Ninguém está interessado na opinião de outrem". (pág. 148)

terça-feira, 4 de julho de 2017

Trinta anos (1961)
Ingeborg Bachmann (1926-1973) - ÁUSTRIA   
Lisboa: Relógio D'Água, s/d, 199 páginas
Tradução:  Leonor Sá    





Coletânea que reúne sete contos, entre eles uma verdadeira obra-prima, "Juventude numa cidade austríaca", na qual, em apenas 10 páginas, a Autora traça um painel completo e complexo da vida em uma pequena cidade antes, durante e logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Outra narrativa magistral é "Entre assassinos e loucos", na qual a Autora mexe nas feridas abertas pelas atrocidades nazistas praticadas pela população austríaca. "A verdade" é um interessantíssimo tratado filosófico, a partir da obsessão de um juiz que busca a verdade, mas "quanto mais a persigo, mais longínqua ela se torna" (pág. 185). "Tudo", sobre o momento em que um homem se apercebe do fim do amor por sua mulher; "A um passo de Gomorra", que registra o nascimento de uma relação homossexual feminina; e o conto que dá título ao livro, que apanha um homem entrando na casa dos trinta anos, e que, "apesar de não poder descobrir em si nenhuma mudança, torna-se inseguro" (pág. 21), completam o volume. "O adeus de Ondina", que fecha a coletânea, é um libelo feminista, escrito numa redação ginasiana. O ponto alto do livro é o registro de uma prosa de ficção encharcada por uma linguagem altamente poética. 



(Julho, 2017)




Avaliação: BOM




Observações:

O Brasil está presente, de forma indireta, quando à página 112 um personagem, sem nome, relatando sua participação na Segunda Guerra Mundial, afirma: "Fomos para a Itália, para Montecassino. Era o maior matadouro que possam imaginar. A carne ali era de tal maneira para abate que se poderia pensar que seria divertimento para um assassino".

Entre aspas:

"Impossível um novo mundo sem uma nova linguagem" (pág. 57)

"Qualquer pessoa que ir para casa quando se sente a morrer (...)" (pág. 80)


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Cavalo pálido, pálido cavaleiro (1939) 
Katherine Anne Porter (1890-1980) - EUA    
Lisboa: Antígona, 2014, 252 páginas
Tradução: Paulo Faria   




Este livro reúne três contos longos. O primeiro, "Velha mortalidade", é um exemplo de excelência da arte ficcional. Dividido em três partes, que cobrem os anos de 1895-1902, 1904 e 1912, a autora vai construindo e desconstruindo o retrato de uma personagem fugidia, Amy, que não aparece diretamente na história, mas somente por meio de frases e situações referidas pelos outros personagens. Quando se inicia a narrativa, Amy já é apenas uma fotografia de uma extravagante tia morta há muitos anos - e, no final, o que permanece é a imagem de uma mulher complexa, amada, invejada, inapreensível. O segundo conto, "O vinho do meio-dia", tem como cenário "uma pequena quinta no sul do Texas", entre 1896 e 1905 (a Autora adora datar com exatidão o tempo de suas narrativas). Um dia, Olaf Helton, um imigrante sueco, aparece nas terras dos Thompson oferecendo-se para trabalhar. Embora calado e introvertido, conquista o respeito e a admiração da família. Muitos anos se passam, até que surge na fazenda Mr. Hatch, um homem especializado em localizar e aprisionar loucos fugidos de hospícios em troca de dinheiro. Tentando proteger Mr. Helton, Mr. Thompson mata acidentalmente Mr. Hatch, enquanto Mr. Helton, buscando escapar, é assassinado pela turba enfurecida. Mr. Thompson é julgado e absolvido, mas acaba se suicidando, premido pela culpa e pela vergonha. O último conto, que dá título ao livro, se passa numa "cidade do Oeste" dos Estados Unidos, em plena Primeira Guerra Mundial. Miranda é uma jovem jornalista que conhece Adam, soldado que se prepara para ir lutar na Europa. Eles se apaixonam e sonham em viver juntos no futuro, em um mundo onde "não vai tornar a haver guerras" (p. 185). Miranda, no entanto, adoece com a gripe espanhola e perde o contato com Adam. Após se recuperar, recebe a notícia de que ele morrera da mesma doença no hospital da base para onde fora deslocado. Uma história tristíssima de descoberta da finitude, mas também de esperança. O que mais ressalta é a incrível capacidade da Autora de transitar por mundos completamente diferentes: o universo de classe média alta em "Velha mortalidade", a vida rural próxima da penúria em "O vinho do meio-dia", a difícil luta pela sobrevivência de uma jovem em início de carreira em "Cavalo pálido, pálido cavaleiro". Um livro soberbo!


(Julho, 2017)



Avaliação: OBRA-PRIMA


Entre aspas:




"(...) não nos atrevemos a dizer uns aos outros uma palavra que seja acerca do nosso desespero, somos animais mudos e deixamos que nos destruam". (pág. 201)


domingo, 4 de junho de 2017

Dom Gesualdo (1889) 
Giovanni Verga (1840-1922) - ITÁLIA   
São Paulo: Global, 1983, 289 páginas
Tradução: Vera Mourão   





Romance trágico, situado no começo do século XIX e tendo como cenário a Sicília, descreve a ascensão e queda de dom Gesualdo Motta, um pedreiro que, com muito trabalho e tino comercial, enriquece, tornando-se a maior fortuna da região. Embora astuto, pouco a pouco é enredado pela nobreza decadente, que lhe empurra a mulher, Bianca, frágil membro da tradicionalíssima e falida família Trao, e lhe impõe negócios nem sempre favoráveis. Dom Gesualdo afasta-se de seus parentes - o pai, Nunzio; a irmã Speranza e seus inúmeros filhos; o irmão Santo - e daqueles que estiveram com ele na construção de sua fortuna, particularmente Diodata, uma empregada com quem mantinha uma relação de concubinato, da qual nasceram dois filhos, Nunzio e Gesualdo. Barões e marqueses que moram em palacetes caindo aos pedaços e não têm o que comer adulam dom Gesualdo por causa do dinheiro, ao mesmo tempo em que o desprezam pela origem social. Bianca gera Isabella (provavelmente filha de um primo, o barão Antonio Rubiera - v. pág. 148), que dom Gesualdo, aspirando conquistar um lugar entre a nobreza por meio dela, desde cedo instala nos melhores colégios de Palermo. Durante uma epidemia de cólera, em torno de 1837, dom Gesualdo recolhe familiares, seus e da mulher, empregados e moradores das aldeias próximas em Mangalavite. Lá, Isabella mantém um escandaloso affair com um outro nobre falido, La Gurna, e acaba tendo de aceitar casar-se com um duque, cujo nome "ocupava duas linhas" (pág. 220), Alvaro Filipo Maria Ferdinando Gargantas di Leyra, que aproveita seu dote para pagar dívidas que se acumulam e contratar outras. A morte do pai e depois de Bianca desencadeiam uma demanda jurídica contra dom Gesualdo, liderada pela irmã, Speranza; os nobres mostram-se cada vez mais cínicos, interessados em sua fortuna; a filha se isola em um casamento de fachada; os filhos ilegítimos, tidos com Diodata, aderem a uma rebelião popular, os carbonários, contra os proprietários de terra, particularmente contra ele (rebelião, aliás, liderada por membros da nobreza falida, interessada em manter bens e principalmente poder). Dom Gesualdo compreende então a solidão de habitar um entrelugar - não é mais um pedreiro nem um camponês, mas também não é um nobre; nem sua estirpe permanecerá, pois, envergonhada, a filha usa apenas o sobrenome Trao, da mãe. No final, padecendo de um câncer no estômago, é levado para o sofisticado palácio do duque em Palermo, onde, sob a desculpa de ser tratado por médicos mais qualificados, é mantido encarcerado para não fazer um testamento, o que deixa Isabella como herdeira única de seus bens. Tristíssima narrativa, que expõe a hipocrisia social, o cinismo familiar, a desolação política.
  

(Junho, 2017)



Avaliação: MUITO BOM  



Observações:

1) São impressionantes as descrições da decadência das casas e das pessoas neste romance. E os capítulos finais, que narram a amargura, a solidão e a dor de dom Gesualdo, mantido praticamente como prisioneiro no luxuoso palácio da filha, é comovente.
2) O Brasil surge no nome de um dos empregados de dom Gesualdo, Brasil Camaura (p. 259).



Entre aspas:


"Quando se comete uma burrice, é melhor nada dizer, para não alegrar os inimigos". (p. 173)




terça-feira, 30 de maio de 2017

O viajante e o mundo da lua (1937) 
Antal Szerb (1901-1945) - HUNGRIA  
Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 293 páginas
Tradução: Paulo Schiller  





Estranho romance, esse. Narrado de forma realista, no entanto o clima que evoca é insólito. Neste sentido, configura-se bastante original, já que não se aproxima nem do fantástico, nem do absurdo - como se tudo estivesse envolvido em uma névoa de mistério e de acasos possíveis... Mihály e Erzsi estão passando a lua-de-mel na Itália. Erzsi separou-se do marido, Zoltán Pataki, um industrial bem-sucedido, para se casar com Mihály, filho de uma família burguesa de Budapeste. Mihály sente-se deslocado no mundo, perseguido por "instituições e o conflito alarmante dos anos passados" (p. 91). Após visitar Veneza, o casal está sentado em um café em Ravenna, quando surge, abruptamente, cavalgando uma motocicleta barulhenta, János Szepetneki, um amigo húngaro. Ele aparece, diz que outro velho amigo comum, Ervin, encontra-se retirado em um mosteiro na Úmbria, e some. Essa visita inesperada mudará o curso da viagem de núpcias. Mihály rememora para Erzsi um momento de seu passado, aquele em que, adolescente, na casa dos Ulpius, Tamás e Éva, junto com János e Ervin, encenavam uma vida rebelde completamente fora do tempo. Durante o deslocamento de Florença para Roma, Mihály desce numa estação em Cortona para tomar um café e entra no trem errado, indo parar em Perugia sozinho. Daí para a frente, vai aos poucos aceitando a ideia de romper com os padrões burgueses, casamento, dinheiro, valores. Descobre que Ervin tornou-se uma espécie de santo, o Padre Severinus, em Gubbio, e, por influência dele, decide aguardar em Roma que algo importante aconteça. Erszi, neste ínterim, encaminha-se para Paris, onde reencontra János, de quem se torna amante. Em Roma, Mihály entrevê Éva, quase como uma personagem incorpórea - ela surge e desaparece, sem que ele possa falar com ela. Mihály, pouco a pouco, transforma-se em um quase mendigo. Finalmente, consegue contato com Éva, que lhe conta como Tamás se matou, e resolve também se matar, sendo salvo na última hora por uma festa de batizado... Erzsi, que por um momento imaginou levar uma vida livre em Paris, retorna para Budapeste e casa-se novamente com Zoltán, enquanto Mihály é conduzido para casa pelo pai, aceitando o emprego burocrático na empresa da família, onde viverá "como os ratos entre as ruínas" (p. 293). De certa maneira, a narrativa reforça que na Europa, naquele momento, não havia lugar para rebeldes e rebeldia, o mundo se tornava mais e mais conformista e autoritário. 



(Maio, 2017)



Avaliação: BOM  



Observações:

1) A ideia mais interessante do "fantástico" no livro, infelizmente, não é nada original. O protagonista, Mihály, enfrenta, desde a infância, a sensação de que há um abismo a seu lado, o que lhe provoca pânico e uma total paralisia, física e mental. Algo de que padecia o filósofo e matemático francês, Blaise Pascal (1623-1662), que o poeta também francês, Charles Baudelaire (1821-1867), abordou no poema "O abismo" (V. Flores do Mal. Trad. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 472-473)
2) Embora tendo como cenário a Itália e Paris, todos os personagens importantes do romance são húngaros, o que também ajuda a provocar um interessante estranhamento na narrativa.
3) Nos capítulos 2 e 3 da terceira parte ("Roma") há uma instigante exposição, pelo amigo de Mihály, Waldheim, sobre a morte na civilização ocidental, a partir da tese de que a "morte em geral foi parar entre os conceitos tabus" (p. 200).




Entre aspas:




"O amor exige uma distância, que os amantes percorrem para se encontrar. Naturalmente, a proximidade é apenas ilusória, porque o amor na realidade afasta. O amor é polaridade: os amantes são dois polos opostos do mundo". (p. 37)

"(...) todas as pessoas têm uma idade que lhes é a mais adequada". (p. 188)

"Nós recebemos da civilização um aparato espiritual pronto tão perfeito que durante a maior parte da vida esquecemos que um dia vamos morrer; aos poucos vamos excluir a morte da consciência como excluímos a existência de Deus". (p. 196)

"(...) os momentos e as situações mais marcantes da vida só [podem] ser evocados por expressões banais, e quem sabe não seriam esses, a despeito de tudo, os momentos mais banais". (p. 277)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Meu companheiro de estrada (1894-1923)
Maksim Górki (1868-1936) - Rússia 
São Paulo: Editora 34, 2014, 397 páginas
Tradução: Boris Schnaiderman 






Esta coletânea reúne 16 contos, que abarcam todas as fases da vida literária do Autor, constituindo-se, portanto, em um panorama bastante significativo da qualidade de sua obra. E o resultado é decepcionante. Na maior parte das narrativas, o Autor não consegue se livrar do depoimento pessoal, em textos na primeira pessoa eivados de pieguice e idealização, conformando quase uma espécie de escrita beatnik avant la lettre. Seus personagens são vagabundos, prostitutas, mendigos, aproveitadores, marginais retratados em clave romântica, enquanto o ambiente é descrito de forma naturalista. A mescla de romantismo e naturalismo produz uma visão populista, que, ao invés de empatia, objetivo primordial da literatura, provoca no máximo piedade. Há dois contos que fogem ao caráter exclusivo de documento - a que, a rigor, se reduzem essas narrativas -: a história de veneração transformada em crueldade em "Vinte e seis e uma", e a estranha relação entre fortes e fracos, com um pano de fundo acerca do anti-semitismo russo, que encontramos em "Caim e Artiom". No mais, há apenas uma sequência de bons contos que perdem a força pela intromissão desnecessária do narrador, como "Por desfastio", "Na estepe" e "Uma mulher". Há que destacar a belíssima lenda incrustrada em "A velha Izerguil", a sombra que Larra se tornou, vagando pelo mundo, um Ahaverus moldavo. Panfletárias e reducionistas, as reportagens literárias do Autor têm mais importância como testemunho de uma época de horror e sofrimento que como obra de arte. O que prova que boas intenções não redundam necessariamente em literatura de qualidade.

(Maio, 2017)




Avaliação: NÃO GOSTO 




Observações:

De novo, minha implicância com os tradutores: por que não vertem as medidas de distância? Aqui, nos vemos às voltas com verstas e sájens, que não dizem nada ao leitor brasileiro. 


Entre aspas:




"Há pessoas para as quais o mais precioso e melhor na vida é constituído por alguma doença do corpo ou do espírito" (p. 182)

"(...) as convicções de pessoas esclarecidas são tão conservadoras como os hábitos de pensar da massa analfabeta e supersticiosa" (p. 373)


terça-feira, 2 de maio de 2017

1919 (1932)
John dos Passos (1896-1970) - Estados Unidos
São Paulo: Abril Cultural, 1983, 395 páginas
Tradução: Daniel Gonçalves




Um romance peculiar que, tendo a I Guerra Mundial como tema principal e quase único, não descreve cenas de batalha, não relata atos de heroísmo ou covardia, não passeia por cidades e paisagens arrasadas por bombas. O que avulta aqui é a discussão sobre os bastidores do conflito, os interesses econômicos das grandes corporações norte-americanas, as estratégias das nações envolvidas na conflagração para ampliar seus espaços de operação, e, de quebra, a brutal repressão, nos Estados Unidos, dos movimentos sindical e de esquerda (anarquistas e comunistas). Formalmente, o livro desenvolve-se em blocos: "Noticiário" (recortes de manchetes e trechos de matérias de jornais da época); "A lente objetiva" (fragmentos caóticos de personagens anônimos); biografias de personagens reais (o jornalista John Reed, o escritor Randolph Bourne, os presidentes Theodore Roosevelt* e Woodrow Wilson, o diplomata Paxton Hibben, o banqueiro J.P. Morgan, o líder anarquista Joe Hill, e o Soldado Desconhecido); e narrativas ficcionais. São cinco personagens principais: o marinheiro Joe Williams, que, depois de sobreviver a dois naufrágios causados por torpedeamentos de submarinos alemães, morre estupidamente numa briga; Richard Ellsworth Savage, um sujeito de classe média baixa, criado sem pai, que, indo para a França como voluntário para dirigir ambulâncias, acaba capitão do Exército, vivendo à grande entre missões do correio; Eveline Hutchins, filha de um médico, que, após um rápido flerte com ideais esquerdistas, entra como voluntária na Cruz Vermelha em Paris; Anne Elizabeth Trent (Filhinha), de família de fazendeiros texanos, que se envolve, por causa do namorado, com grevistas e pacifistas, e que vai então para a Itália prestar serviços na instituição metodista Organização de Auxílio ao Próximo Oriente; e Ben Compton, jovem judeu que se torna líder sindical e, por conta de sua militância, é condenado a dez anos de prisão. Entremeadas a essas biografias, vários outros personagens entrecruzam-se - exceto o marinheiro Joe Williams e Ben Compton, cujas narrativas não se comunicam com nenhuma outra. É curioso que, para essas personagens, a guerra surge como uma oportunidade de "excursão gratuita" (p. 172) pela Europa. Eles se divertem, bebendo, comendo, transando, alheados e alienados da matança desenfreada que ocorria a poucos quilômetros de onde estavam instalados. A Conferência de Paz de Paris, que se estende por todo o ano de 1919 (daí o título do livro), e que põe fim efetivamente à Primeira Guerra Mundial, significa uma "gigantesca era de expansão (...) para a América lleia-se, Estados Unidos}" (p. 190), já que "o único meio de assegurarmos para o mundo os benefícios da paz consiste em dominá-lo" (p. 261). Ou, como explica Dick (Richard Savage) a Anne Elizabeth (Filhinha): "somos os romanos do século vinte" (p. 313). Ao contrário, o ativista Ben Compton argumenta que "os governos capitalistas estão (...) empurrando o povo para o matadouro numa guerra louca e desnecessária que não beneficia ninguém, salvo os banqueiros e os fabricantes de armamentos" (p. 371). Mas, "ser vermelho em 1919 era pior do que ser germanófilo ou pacifista em 1917)" (p. 381)... Um romance sempre atual...


Avaliação: MUITO BOM  

(Maio, 2017)


Curiosidade

* O Brasil surge à pág. 124, na biografia de Theodore Roosevelt.