sexta-feira, 10 de março de 2017

Os melhores contos da
 América Latina
Organização: Flávio Moreira da Costa  
Tradução: Leo Schlafman e outros  
Rio de Janeiro: Agir, 2008, 582 páginas




Esta antologia (80 contos de 73 autores) traça um bom panorama da literatura produzida na América Latina (Brasil e países hispanofalantes), desde os seus primórdios - o livro começa com um extrato do Popol Vuh, texto original maia de época indeterminada - até escritores do final do século XX.  Sobressaem de forma categórica alguns nomes: o brasileiro Machado de Assis (1836-1908) se destaca solitário no século XIX, enquanto o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), o mexicano Juan Rulfo (1917-1986) e o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) dominam o século XX. A seleção brasileira é muito boa (Lima Barreto, Mário de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, João Ubaldo Ribeiro, entre outros). Vale a pena colocar em relevo ainda, em meio a tantos nomes, os argentinos Adolfo Bioy Casares, Julio Cortázar e Ricardo Piglia, os chilenos José Donoso e Roberto Bolaño e o cubano Guillermo Cabrera Infante. É inacreditável, no entanto, que continuemos desconhecendo a obra do peruano Julio Ramón Ribeyro e do uruguaio Mario Arregui - estes, pelo menos, tiveram livros publicados por aqui, ao contrário do silêncio editorial que recai sobre os mexicanos Rosario Castellanos e  o excelente José Emilio Pacheco e o venezuelano Ednodio Quintero. Mais grave apenas a maneira como é subestimado o ótimo escritor gaúcho Sergio Faraco, sem dúvida um dos maiores contistas brasileiros.




Curiosidade:

* Já tive ocasião de ressaltar - no comentário acerca de Contos latino-americanos eternos, publicado em 18/02/2016 - o ponto de convergência existente entre a narrativa do argentino Leopoldo Lugones (1874-1938), "Yzur", e "Um relatório para uma academia", de Franz Kafka (1933-1924). Ambos têm por tema a tentativa de "humanizar" um macaco, com resultados trágicos. O texto do argentino é de 1926, o de Kafka, de 1920, mas certamente o primeiro não leu o último...





(Março, 2017)


Avaliação: BOM     

quarta-feira, 8 de março de 2017

O velho negro e a medalha (1956)
Ferdinand Oyono (1929-2010) - CAMARÕES 
Tradução: Wilma Ronald de Carvalho   
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d, 207 páginas



Escrito em francês, trata-se de um libelo anticolonialista, que descreve, com humor trágico, a total incompreensão e desprezo dos europeus pela cultura africana. Laurent Meka, descendente do grande chefe da etnia Mvema, é um fantasma - "(...) não estava nem com os seus, nem com os outros [os franceses]" (p. 108), já que se convertera ao catolicismo, abandonando as crenças dos antepassados. Meka, cujo pai havia sido rico e poderoso, doara suas propriedades para a Igreja, e agora vivia em uma choupana miserável, subsistindo da colheita de cacau. Por "(...) facilitar a obra da França neste país" (p. 28) - além de abrir mão das terras, dois de seus filhos combateram na segunda guerra, onde "(...) tiveram uma morte gloriosa" (p. 28) - ele é destacado para ganhar uma medalha no dia 14 de julho, data nacional da Metrópole. A notícia causa comoção na região, e, orgulhoso, Meka prepara-se, com esmero, para receber a condecoração das mãos do Alto Comissário, que viria de Timba até Doum especialmente para isso. No dia festivo, incomodado com os sapatos apertados e com a roupa desconfortável e de pé sob um sol inclemente, o Chefe dos brancos espeta-lhe a medalha no peito, dirige-lhe algumas palavras elogiosas, que o intérprete resume impaciente, e convida-o a participar do vinho de honra no galpão de zinco que denominam Centro Africano. Terminada a cerimônia, entretanto, Meka perde a importância, é esnobado pelos brancos - incluindo o padre Vandermeyer - e, após abusar do uísque, adormece e acaba esquecido no local. Ao acordar de noite, assustado, debaixo de uma tromba d'água, vaga sem rumo até penetrar, sem querer, no bairro europeu, vetado aos nativos, onde é preso. Depois de pernoitar na cadeia, é reconhecido como o velho negro da medalha e solto. No entanto, ofendido em sua honra, Meka se insurge contra a política dos brancos - "Quem poderia imaginar que os chefes de ontem seriam os escravos de hoje?" (p. 164) - e contra a religião - "Todas as suas superstições tinham renascido no espírito, varrendo como uma onda de maremoto os anos de ensinamentos e práticas cristãs" (p. 173), contaminando a gente da aldeia: "Não sei até onde irão os brancos! (...) Nada do que veneramos tem importância para eles. Nossos costumes, nossas histórias, nossos remédios, nossos homens velhos, tudo é igual aos negócios dos seus boys..." (p. 183), conclui Essomba, um de seus parentes. A bem da verdade, antes de Meka, sua mulher, Kelara, já havia compreendido a fraude daquele tributo: "Meus filhos, meus pobres filhos, vocês foram vendidos como Judas vendeu o Senhor... (...) Vocês valem, os dois, meus pobres queridos, uma medalha..." (p. 124). O narrador não poupa crítica aos colonizadores: a hipocrisia do administrador, M. Fouconi, que "vivia com uma mulher nativa, que escondia no depósito de móveis, no porão, quando recebia os compatriotas" (p. 61); o desdém do Alto Comissário, quando convidado a compartilhar um bode com Meka (p. 131-132); a falsidade do padre Vandermeyer que expulsava dos arredores da igreja os "(...) mendigos esfarrapados (...)" (p. 176); a violência policial (p. 148-167); o racismo, a exploração... Afastados de suas crenças originais, tentando mimetizar os valores estrangeiros - "Agora que o marido vai receber uma medalha, ela [Kerala, a mulher de Meka] se tornará uma mulher branca" (p. 45) - e perdendo até mesmo os nomes - "(...) depois da Segunda Guerra (...) tudo era De Gaulle (...) O retrato do general estava pregado nas paredes de todas as choupanas. Havia De Gaulle meninas. De Gaulle meninos" (p. 76) - a pergunta que permanece reverberando após o fim do livro é: "(...) será que existe verdadeiramente alguma coisa que nos pertença, no sentido como o entendiam nossos ancestrais, desde que os brancos estão neste país?" (p. 182).


(Março, 2017)


Avaliação: BOM     


terça-feira, 7 de março de 2017

No caminho de Swann (1913)
Marcel Proust (1871-1922) - FRANÇA 
Tradução: Mário Quintana  
São Paulo: Abril Cultural, 1979, 247 páginas



Primeiro volume do monumental ciclo Em busca do tempo perdido, esta narrativa se divide em três partes quase autônomas, embora a última sirva como uma espécie de amálgama do enredo. O Autor consegue uma proeza: em um estilo originalíssimo, no qual importa muito mais as sugestões sensoriais que propriamente o andamento da história, constrói uma crônica da alta sociedade francesa, na qual o protagonista mostra-se a um só tempo fascinado e desencantado com o ambiente que frequenta e descreve. A primeira parte do livro, "Combray", é uma belíssima recriação da infância do narrador na aldeia onde a família passava férias, quando emerge sua adoração obsessiva pela mãe - "com que gosto eu não daria tudo isto para poder chorar toda a noite nos braços de mamãe!" (p. 110). Escrita na primeira pessoa, no momento em que "(...) a vida vai agora mais e mais emudecendo em redor de mim (...)" (p. 27), a evocação do passado nasce de uma sensação provocada pelo gosto de uma madalena - "(...) bolinhos pequenos (...) que parecem moldados na valva estriada de uma concha de S. Tiago" (p. 31) -, oferecida pela mãe do protagonista, então adulto, e que ativa em sua memória a lembrança de um outra madalena, experimentada com sua tia-avó Léonce, em Combray. Lá, descobre sua vocação para a literatura - "Tens uma bela alma, de qualidade rara, uma natureza de artista, não a deixes em falta do que lhe é preciso", vaticina Legrandin, um engenheiro "(...) mais letrado que muitos literatos (...)" (p. 45), ele também escritor; forma sua ideia a respeito do sadismo, quando vê, de longe, a amiga da filha do velho professor de piano, Sr. Vinteuil, cuspir no retrato deste, recém-falecido, antes de manterem relação sexual (p. 97-100); e conhece Charles Swann. A patética paixão de Swann, de uma estirpe de financistas, pela cortesã Odette de Crécy ocupa toda a segunda parte do livro, "Um amor de Swann", na qual o narrador da primeira parte assume uma terceira pessoa onisciente. Swann, até conhecer Odette, era um "puro mundano", que "(...) não procurava achar bonitas as mulheres com quem passava o tempo, mas sim passar o tempo com as mulheres que primeiro achara bonitas", pertencessem elas à aristocracia, fossem elas costureirinhas moradoras de cortiços (p. 117). Entretanto, Swann deixa de frequentar os salões elegantes e os espetáculos refinados para ligar-se a Odette, uma mulher vulgar, que possuía "(...) mau gosto (...) em todas as coisas (...)" (p. 145), infiel, grosseira. No final do capítulo, após vexames, humilhações e desonra, conclui: "E dizer que estraguei anos inteiros de minha vida, que desejei a morte, que tive o meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não era meu tipo!" (p. 222). O narrador conduz seu personagem pelos círculos fúteis da aristocracia - onde o que importa é "(...) ter um nome autêntico e antigo (...)" (p. 197) e profundamente anti-semita (v. p. 195) - e pelos recintos extravagantes da burguesia, no caso, a residência do Sr. e Sra. Verdurin, onde, com o poder do dinheiro, tentam em tudo imitar o comportamento e copiar os valores da aristocracia. Na terceira parte, "Nomes de terras: o nome", o narrador retoma a primeira pessoa e descreve uma passagem, na pré-adolescência, na qual se enamora de Gilberte, filha de Swann, repetindo, quase literalmente, o desconforto provocado pela paixão patética deste por Odette - "(...) como acontecia outrora com Swann quanto ao caráter estético de Odette (...)" (p. 238), confessa. E, afinal, revela que a Sra. Swann, mencionada na primeira parte do livro, e a qual sua família repelia, é... Odette, com quem Swann acabou por casar-se...
    

(Março, 2017)


Avaliação: MUITO BOM     


Curiosidades:


1) Um dos melhores poemas da língua portuguesa, intitulado "Este quarto", de autoria de Mário Quintana (1906-1994), tradutor do livro, certamente foi inspirado neste trecho, quando Legrandin fala com o narrador: "'Que o céu permaneça azul para você, meu jovem amigo; e mesmo na hora, que para mim vem chegando, em que o bosque é já sombrio e a noite cai depressa, você há de consolar-se, como eu faço, olhando para o lado do céu'. Tirou um cigarro do bolso e ficou a olhar longamente o horizonte." (p. 75) Eis o poema:

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa este quarto, em que desperto

como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,

tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:

um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

2) Em outro trecho, ao contrário, é Proust que claramente se inspira em seu compatriota, Charles Baudelaire (1821-1867): "(...) chegando em casa, [Swann] sentiu necessidade dela [Odette de Crécy], como um homem que, ao ver passar uma mulher entrevista um momento na rua, sente que lhe entra na vida a imagem de uma beleza nova que dá maior valor à sua sensibilidade, sem que ao menos saiba se poderá algum dia rever aquela a quem já ama e da qual o nome ignora" (p. 125). Eis o poema de Baudelaire, "A uma passante", na tradução do poeta Ivan Junqueira (1934-2014):


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz… e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?


Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!


3) Proust desenvolve uma verdadeira teoria do romance, à pág. 55: "(...) todos os sentimentos que nos fazem experimentar a alegria ou o infortúnio de um personagem real só se produzem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou desse infortúnio; todo o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que, sendo a imagem o único elemento essencial na estrutura de nossas emoções, a simplificação que consistisse em suprimir pura e simplesmente os personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele percebemo-lo em grande parte por meio de nossos sentidos, isto é, continua opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não pode levantar. Se lhe sucede uma desgraça, esta só nos pode comover numa pequena parte da noção total que temos dele, e ainda mais, só numa pequena parte da noção total que ele tem de si mesmo é que a sua própria desgraça o poderá comover. O achado do romancista consistiu na ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que nossa alma pode assimilar. Desde esse momento, já não importa que as ações e emoções desses indivíduos de uma nova espécie nos apareçam como verdadeiras, visto que as fizemos nossas, que é em nós que elas se realizam e mantêm sob o seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas, o ritmo de nossa respiração e a intensidade de nosso olhar. E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados puramente interiores, cada emoção é duplicada, e em que o seu livro nos vai agitar como um sonho, mas um sonho mais claro do que aqueles que sonhamos a dormir e cuja lembrança vai durar mais tempo, eis que então ele desencadeia em nós, durante uma hora, todas as aventuras e todas as desgraças possíveis, algumas das quais levaríamos anos para conhecer na vida, e outras, as mais intensas dentre elas, jamais nos seriam reveladas, pois a lentidão com que se processam nos impedem de as perceber (...)".

4) Sobre o talento: "Somos muito lentos em reconhecer na fisionomia particular de um novo escritor o modelo que traz o nome de 'grande talento' em nosso museu das ideias gerais. Por isso mesmo que essa fisionomia é nova, não a achamos absolutamente parecida com o que chamamos de talento. Dizemos antes originalidade, encanto, delicadeza, força; e depois um dia descobrimos que tudo isso era justamente talento". (p. 63)





Entre aspas:



"Tentamos achar nas coisas, que por isso nos são preciosas, o reflexo que nossa alma projetou sobre elas, e desiludimo-nos ao verificar que as coisas parecem desprovidas, na natureza, do encanto que deviam, em nosso pensamento, à vizinhança de certas ideias; e muitas vezes convertemos todas as forças dessa alma em habilidade, em esplendor, para influir em seres que sentimos situados fora de nós e que jamais alcançaremos." (p. 56)

“(...) os impulsos de sensibilidade têm pouco domínio sobre a continuidade de nossos atos e a conduta de nossa vida, e (...) o respeito das obrigações morais, a fidelidade dos amigos, a execução de uma obra, a observância de um regime, têm fundamento muito mais seguro nos hábitos cegos do que nesses transportes momentâneos, ardentes e estéreis". (p. 60-61)

"Não há talvez uma pessoa, por maior que seja a sua virtude, que a complexidade das circunstâncias não posso levar um dia a viver na familiaridade do vício que mais formalmente condena (...)". (p. 91)

"(...) as terras que desejamos ocupam a cada momento muito mais espaço em nossa vida verdadeira do que a terra onde efetivamos nos achamos". (p. 227)

"(...) não se ama a ninguém mais quando se ama." (p. 232)



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A volta ao mundo em 80 dias (1872)
Jules Verne (1828-1905) - FRANÇA 
Tradução: André Telles  
Rio de Janeiro: Zahar, 2017, 231 páginas




Trata-se de um curioso romance de aventura. Fico pensando como os leitores antepassados deveriam acompanhar ansiosos o desdobramento dessa intrépida viagem por lugares exóticos, capítulo a capítulo, que mantêm, aliás, mais ou menos, o mesmo tamanho, demonstrando o rigoroso esforço na sua composição. O Autor, de posse de informações sobre as novidades tecnológicas de sua época e das mais recentes notícias sobre países distantes, abriu seu exemplar do Bradshaw's Continental Railway Steam Transit and General Guide (um guia com horários de partidas de chegadas de trens e navios) e deixou sua imaginação trabalhar. A partir de uma aposta no valor de 20 mil libras, feita com colegas frequentadores do Reform Club, de Londres, o fleumático Mr. Phileas Fogg desafia o tempo e o espaço e junto com seu fidelíssimo secretário francês, Jean Passepartout, resolve dar a volta ao mundo em apenas 80 dias. Ao longo do percurso surgem inúmeros obstáculos, que deverão ser superados por meio da sorte e da engenhosidade. Linhas ferroviárias interrompidas, resgate de uma indiana (Mrs. Alda) condenada a morrer queimada com o marido, pontes que desabam, ataques de índios, perdas de conexões - e um detetive, Mr. Fix, que, certo de que Mr. Phileas Fogg é um ladrão de bancos disfarçado de aventureiro, persegue-o desde Suez, no Egito, até Dublin, na Irlanda... Após usar todos os meios de transporte disponíveis - navio, trem, coche, escuna, cargueiro, trenó, elefante - o protagonista chega a Londres... cinco minutos atrasado... Mas um erro de cálculo o salvará... O livro termina da forma mais romântica: pedido em casamento por Mrs. Alda, Phileas Fogg aceita. O narrador conclui: "O que ganhara com aquele deslocamento? O que trouxera daquela viagem? / Nada, dirão vocês. Concordamos, nada, a não ser uma mulher encantadora, que (...) fez dele o homem mais feliz do mundo! / Francamente, não daríamos a volta ao mundo por menos que isso?" (p. 231). Uma ode à ingenuidade para combater esses tempos cínicos.



(Fevereiro, 2017)


Avaliação: BOM     


domingo, 19 de fevereiro de 2017

O trovão entre as folhas (1953)
Augusto Roa Bastos (1917-2005) - PARAGUAI  
Tradução: Campos Alberto 
Luanda: Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980, 231 páginas 



Esta coletânea, que reúne 17 contos, prova que boas intenções dificilmente redundam em boa literatura. Disposto a descrever a vida de "seres puros e inocentes" (p. 103), o Autor se esmera em comover-nos contra a opressão econômica e política (que, ao fim e ao cabo, convergem para o mesmo resultado) da população miserável de seu país, o Paraguai, que não difere em nada da situação de outros povos do Terceiro Mundo. O problema é que, para isso, promove uma visão maniqueísta da realidade, o que, ao invés de nos provocar empatia, nos causa apenas piedade, sentimento que não leva à transcendência, fundamental para a constituição da obra de arte. No afã de denunciar, o Autor carrega nas tintas naturalistas - ou seja, exacerba o real, distorcendo-o -, aproximando-se muitas vezes, para alcançar melhor seu objetivo, do mais descabelado romantismo. Inverossímeis, por isso, histórias como a da menina alemã que desaparece com os barqueiros nômades ("Os caçadores de capibaras"); a volta de um rapaz para casa, após três anos, na hora mesma em que o irmão está sendo fuzilado ("Regresso"); o reconhecimento que um homem faz de que a prostituta com quem foi para a cama é sua antiga companheira, de quinze anos antes ("Feira em dois tempos"); a morte do filho pela mãe ("Pirulí"); um combatente que enterra vivo, sem saber, o irmão querido ("O prisioneiro"); a figura de um anão monstruoso, assassino em série de crianças ("Túmulo vivo"). Outros contos constituem-se em anedotas, como "Mão cruel", "Audiência privada", "A imploração" e "A grande solução", cujo enredo desdobra-se para um final que se quer surpreendente, mas que se mostra tão somente frustrante. Há umas poucas narrativas que poderiam se salvar da impressão geral negativa que o livro nos deixa - "O velho senhor bispo", "O trovão entre as folhas" e principalmente o fim trágico de um prisioneiro político em "A escavação" e a cena de estupro coletivo em "Aqueles rostos escuros" -, mas a mão pesada do Autor pinta tudo com cores chapadas, sem qualquer nuance. Sua almejada solidariedade para com os "seres cinzentos que passam pela vida como uma leve lufada anônima" (p. 93) torna-se estranha, já que retrata seus personagens como primitivos incapazes de reações que não sejam instintivas, e não como homens e mulheres dotados de sentimentos próprios. Talvez essa sensação decorra do fato de o Autor propugnar a fantasiosa e populista ideia de "bondade natural" (p. 95) que transformaria "o verdadeiro homem do povo" em um "autêntico e flagrante revolucionário" (p. 201). 

(Fevereiro, 2017)

Avaliação: NÃO GOSTEI      

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A consciência de Zeno (1923)
Italo Svevo (1861-1928) - ITÁLIA  
Tradução: Ivo Barroso 
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, 403 páginas 




Zeno Cosini, 57 anos, é casado com Augusta Malfenti, com quem tem dois filhos, Antonia e Álfio, e vive da renda proporcionada pelos negócios deixados pelo pai e administrada por seu procurador, Olivi. Sem nada para fazer, Zeno tenta levar a vida de cidadão normal em Trieste, na época, fim do século XIX e começo do século XX, importante porto do Império Austro-Húngaro. Obcecado pela ideia de deixar de fumar, ele acaba procurando ajuda do psicanalista Dr. S., que o incentiva a colocar no papel suas memórias. O livro é o resultado desse processo, e, apesar de que, segundo Zeno, "uma confissão escrita é sempre mentirosa" (p. 373), o Dr. S. resolve publicá-la, "por vingança", como explica no brevíssimo prefácio (p. 7). A estrutura da narrativa é bastante original, constando de um curto preâmbulo, seis capítulos e um diário com somente quatro entradas. Os capítulos tratam de temas específicos - a relação de Zeno com o cigarro, a morte do pai, a história de seu casamento, a culpa por dividir-se entre a mulher e a amante, e a sociedade comercial que estabelece com seu concunhado, Guido Speier. Embora estanques, os blocos se complementam, construindo, de forma brilhante, não só a biografia de Zeno (pelo menos em sua idade adulta), mas também os usos e costumes da sociedade europeia do fim de século. Irônico, às vezes sarcástico, o narrador tenta descrever, o mais fiel possível, suas ações e reações, pintando-se sem complacência, o que acaba resultando em um autorretrato extremamente complexo. Covarde, porém impetuoso; egocêntrico, contudo passível de atos os mais generosos; alienado e, no entanto, capaz de compreender à perfeição o que ocorre à sua volta - Zeno é uma espécie de "(...) atirador que consegue acertar no alvo de seu companheiro ao lado" (p. 81). É impressionante como, na última seção, "Psicanálise", em apenas 33 páginas ele desenha o cenário de horror da Primeira Guerra Mundial - o livro se encerra em 24 de março de 1916, no auge do conflito mais sangrento da Humanidade. O parágrafo derradeiro é um magnífico libelo contra a estupidez, antecipando, de maneira premonitória e apocalíptica, a criação da bomba atômica e o fim do mundo (V. abaixo). 
   

(Fevereiro, 2017)



Avaliação: MUITO BOM     


Curiosidades:


1) Ato falho ou erro? À página 167, o narrador chama a atenção para "as grossas tranças castanhas" de Ada, por quem é apaixonado e que, mais tarde, se tornará sua cunhada. Logo depois, à página 170, essas mesmas tranças tornam-se negras...
2) Sempre me causa impressão o espaço que o espiritismo ocupava na sociedade europeia do fim do século XIX e começo do século XX. Aqui, há uma hilária descrição de uma tentativa de comunicação com os mortos, entre as páginas 111-115.



Entre aspas:

“A doença é uma convicção (...)" (p. 17)

"Pode-se chegar ao assassínio por ódio ou por amor; mas à instigação do assassínio só se chega por crueldade". (p. 36)

"A verdadeira religião é exatamente aquela de que não se tem necessidade de professar em alta voz para obter - embora raramente - o conforto que algumas vezes nos é indispensável". (p. 59)

"(...) quando a gente se une neste mundo é só por um período demasiado breve, e não chegamos a compreender como é possível que se atinja uma intimidade após decorrer um tempo infinito e nunca mais se volte a rever por outra infinidade". (p. 148)

"Na psicanálise nunca se repetem as mesmas imagens nem as mesmas palavras. (...) quando semelhante análise tem início, é como se entrássemos num bosque sem saber se vamos topar com um bandido ou um amigo. Tampouco se sabe, depois de passada a aventura. Nisto a psicanálise lembra o espiritismo". (p. 384)



Último parágrafo:

“Talvez por meio de uma catástrofe inaudita, provocada pelos artefatos, havemos de retornar à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito como todos outros, no segredo de uma câmara qualquer neste mundo, inventará um explosivo incomparável, diante do qual os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma forma que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitos e das enfermidades”. (p. 403)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Viagens de Gulliver (1726)
Jonathan Swift (1667-1745) - INGLATERRA 
Tradução: Octavio Mendes Cajado 
São Paulo: Abril, 1971, 276 páginas 



Nunca entendi como este magnífico romance pôde ter sido transformado em uma banal aventura juvenil, quando se trata de um dos melhores exemplos da mescla de paródia e sátira da literatura universal. O título "Viagens em diversos países remotos do mundo, em quatro partes, por Lemuel Gulliver, a princípio cirurgião e, depois, capitão de vários navios" é uma referência jocosa tanto aos romances de cavalaria de épocas anteriores, quanto às narrativas dos chamados "naturalistas", estudiosos das ciências naturais que exploravam os continentes recém-descobertos e os descreviam do ponto de vista botânico, zoológico, geológico e antropológico, muito em voga no século XVIII. Gulliver, aliás, deixa claro que, muito mais que apresentar "descrições de maravilhosos animais, assim no mar como na terra", seu intuito é informar ao leitor, "e não divertir" (p. 271). Este livro, portanto, é a "história fiel" de suas andanças, durante 16 anos e sete meses, por regiões desconhecidas. Dividido em quatro partes, a narrativa expõe uma visão ácida e bastante pessimista da civilização ocidental, tanto no que concerne aos hábitos e costumes da população, quanto aos sistemas jurídico, político, econômico e social. É curioso que sua postura crítica vai se radicalizando à medida em que as páginas se sucedem. Para conseguir maior verossimilhança, sua descrição é absolutamente realista. A primeira aventura, por exemplo, é assim apresentada: "Saímos de Bristol no dia 4 de maio de 1699 e a nossa viagem foi, a princípio, muito próspera" (p. 24). Após um naufrágio, Gulliver desembarca em Lilipute, com certeza a mais célebre de suas geografias: um lugar onde as criaturas humanas não alcançavam 15 centímetros de altura* e o narrador, portanto, é encarado com um gigante. Entre os liliputianos, Gulliver vive por nove meses e constata a pequenez dos nossos atos refletida na mentalidade daqueles seres minúsculos. Apanhado no meio de um conflito entre os partidários de quebrar os ovos pela ponta mais fina (que encontravam-se no poder) e os que para comê-los quebravam-nos pelas pontas mais grossas (a oposição), Gulliver vê-se, pelo seu tamanho, constrangido a ajudar o rei a tornar os adversários em escravos, o que recusa. Ao apagar, mijando, um incêndio nas dependências da rainha - "em três minutos extinguiu o fogo" (p. 53) - cai em desgraça, voltando à Inglaterra no dia 13 de abril de 1702. Dois meses depois, no entanto, já está no navio Adventure, a caminho da Índia. No dia 17 de junho de 1703 é abandonado pelos companheiros em uma ilha, Brobdingnag, onde as pessoas têm cerca de 19 metros de altura, o que o leva a afirmar que "têm seguramente razão os filósofos quando afirmam que nada é grande nem pequeno senão em relação a outras coisas" (p. 82). Após inúmeras conversas com o rei de Brobdingnag, sinceramente interessado em saber notícias do país de onde Gulliver provém, conclui que "durante o último século" a história da Inglaterra resumia-se a uma sucessão de "conspirações, revoltas, assassínios, chacinas, revoluções, desterros" (p. 120). Três anos depois, Gulliver volta a seu país, porém, ambicioso, lança-se ao mar novamente e em meados de 1707 a chalupa que comandava é abordada por piratas na região de Tonquim (norte do Vietnã) e ele é largado em uma ilha - cuja capital, Laputa, tem como característica ser uma "ilha volante ou flutuante" (p. 149). Gulliver conhece também a metrópole, na parte continental, chamada Lagado. Os habitantes dessas terras passam todo o tempo em infindáveis e inúteis projetos especulativos: "posto sejam destros diante de um pedaço de papel, no manejo da régua, do lápis e do compasso, nunca vi nos atos comuns e na maneira de viver povo mais tosco, desajeitado e desastrado, nem tão lento e confuso em suas concepções sobre todos os outros assuntos, tirante a matemática e a música" (p. 151). De Lagado, Gulliver se dirige a Glubbdubdrid, quando, tendo a oportunidade de rever todo o passado da Humanidade, confessa: "deleitei principalmente os olhos na contemplação dos que haviam destruído os tiranos e usurpadores da liberdade das nações oprimidas e agravadas" (p. 181-182). Em 21 de abril de 1708, Gulliver alcança o porto de Luggnagg, onde conhece algumas pessoas marcadas pela imortalidade, ideia que, em princípio, encanta o narrador, que pensa até mesmo em levar algumas delas para o Ocidente. Logo, desiste, pois "sendo a avareza a consequência necessária da velhice, tornar-se-iam com o tempo esses imortais proprietários de toda a nação, e monopolizariam o poder civil, o que, por falta de habilidade em seu manejo, redundaria, fatalmente, na ruína do povo" (p. 199). De Luggnagg, Gulliver alcança o Japão e lá consegue embarcar para Amsterdã, chegando no dia 16 de abril de 1710 à Inglaterra. Mal decorrem cinco meses e Gulliver já se acha em mar aberto outra vez. Um ano depois, comandando um navio mercante de 350 toneladas, enfrenta um motim e é deixado em um bote à deriva. Por sorte, aporta na terra dos Houyhnhnms, cavalos inteligentes e sofisticados, que adestram yahoos, humanos primitivos "que se alimentavam de raízes e da carne de alguns animais" (p. 214), para a prestação de serviços braçais. Na mais desencantada de todas as seções, Gulliver mantém longuíssimos diálogos com o seu amo, em discursos que parecem nascer da pena do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883): "Os ricos logravam o fruto do trabalho dos pobres, e estes eram mil vezes mais numerosos do que os que primeiros. A quase totalidade do nosso povo era obrigada a viver miserabilissimamente, trabalhando o dia inteiro em troco de pequenos salários, a fim de que uns poucos vivessem em abundância" (p. 237). Após três anos de convívio com os Houyhnhnms, Gulliver perde a vontade de regressar à Inglaterra, mas é obrigado a fazê-lo. Recolhido por um navio português, chega em definitivo à Inglaterra no dia 5 de dezembro de 1715. Instado a guiar seus compatriotas aos lugares que conheceu, Gulliver rejeita com veemência, por meio de um magnífico libelo anticolonialista: "Suponhamos que um navio de piratas seja atirado por uma tempestade a algum lugar desconhecido; afinal, um grumete avista terra do mastaréu, descem os piratas para roubar e saquear; encontram um povo inofensivo, são recebidos com bondade, dão ao país um novo nome; tomam dele posse formal em nome de seu rei, erguem, à guisa de marco, uma pedra ou uma tábua podre; trucidam duas ou três dúzias de nativos, carregam outras duas, à força, como amostra; voltam para casa e obtêm o seu perdão. Aqui principia um novo domínio, adquirido com um título de direito divino. Remetem-se os navios na primeira oportunidade; os nativos são expulsos ou destruídos; os seus príncipes, torturados para que revelem onde está o seu ouro; concede-se plena licença para todos os atos de desumanidade e concupiscência, ao passo que a terra fumega com o sangue dos seus habitantes, e esta horda execrável de carneiros, empregados em tão pia expedição, são modernos colonizadores, enviados a converter e civilizar um povo idólatra e bárbaro" (p. 274). Leitura obrigatória nos dias que seguem, principalmente em países onde "o trono real não poderia ser sustentado sem a corrupção, pois o caráter seguro, confiante e obstinado que a virtude infundia num homem era um perpétuo embaraço aos negócios públicos" (p. 185). 



(Fevereiro, 2017)

Avaliação: OBRA-PRIMA    


* Irritante e incompreensível a mania dos tradutores não traduzirem medidas: assim, neste livro, a altura é mensurada em pés; as distâncias em jardas; o volume, em onças - o que não quer dizer absolutamente nada para nós, que utilizamos o sistema métrico decimal.



Curiosidade:

1) A famosíssima cena do filme King-Kong (de 1933 e refilmado em 1976 e 2005), em que a Ann Darrow é sequestrada pelo imenso gorila e levada para o alto do Empire State Building certamente foi inspirada neste trecho do livro: "(...) o macaco (...) agarrou-me, por fim, (...) e puxou-me para fora. Tomou-me com a mão direita e segurou-me como o fazem as amas quando dão de mamar a uma criança (...) Tenho boas razões para supor que ele me tomasse por um filhote de sua própria espécie, pois me acariciava repetida e delicadamente o rosto com a outra mão. (...) pulou subitamente para a janela (...) e, daí, pelos eirados e algerozes, caminhando sobre três patas e segurando-me com a quarta, subiu a um telhado próximo do nosso. (...) o macaco foi visto por centenas de pessoas na corte, assentado sobre a cumeeira de um edifício (...)" (p. 112)