Egocêntrica e voluntariosa, María Eugenia, protagonista-narradora deste
romance, pertence à alta aristocracia venezuelana - o avô materno havia sido
"poeta, historiador, ministro e acadêmico" (p. 79), enquanto o avô
paterno, após enviuvar, "acometido por delírio de grandeza", instala-se em Paris com os
dois filhos pequenos e entrega-se a "uma vida luxuosa e devassa" (p.
84). Órfã de pai e mãe, María Eugenia volta a Caracas após 12 anos
morando na França e vai viver com a avó, Eugenia, e a tia solteirona, Clara. Ali, descobre que não tem
mais nada - o único bem que restava, a fazenda San Nicolás, teria sido, segundo
seu tio paterno, Pancho, roubada por seu tio materno, Eduardo. Em Caracas, a
protagonista entra em conflito com os valores de uma sociedade machista e
preconceituosa, que vive das aparências. Dividido em quatro partes, o romance
se inicia com uma longa carta de María Eugenia a uma amiga de colégio, Cristina
de Iturbe. Nela, a narradora expõe a surpresa que provoca em seus familiares
por suas ideias liberais - ela gosta de ler, tem opiniões próprias, conversa de
igual para igual com os homens e adora se vestir à moda parisiense, muito
escandalosa para os padrões locais. Na segunda parte, quando o livro toma a
forma de um diário, Maria Eugenia relata seu encontro com Mercedes Galindo, uma
mulher de "indiscutível beleza", elegante e cordial, mas casada com
um "marido libertino e viciado em jogo" (p. 143), que chega às vezes
a lhe bater. Mercedes, que comporta-se como se estivesse em Paris,
"adota" María Eugenia, que nutre por ela um verdadeiro fascínio. Na
casa de Mercedes, ela conhece e se apaixona por Gabriel de Olmedo. A família de
Maria Eugenia, preocupada com a "má influência" de Mercedes, isola-a na fazenda San Nicolás, onde ela recebe a notícia do
casamento de Gabriel com María Monasterios e da ida de Mercedes para Paris,
acompanhando o marido, nomeado cônsul em Bordeaux. Na terceira parte, dois anos depois, María
Eugenia retoma a narrativa, tendo capitulado às normas sociais: "perdi
completamente aquela forma de pensar anárquica, desorientada e caótica, que como dizia vovó com tanta
razão, representava uma ameaça e um perigo terrível para meu futuro" (p. 319).
Ela então confessa que suavizou a tonalidade do batom, agora senta-se de forma
adequada, não cantarola canções burlescas, evita falar palavrões e esquiva-se
de romances inapropriados - mas, mais que tudo, aceita ser encaminhada para um
casamento com Cesar Leal, que, conforme a avó, descende de uma família de
"segunda categoria" (p. 337), mas que parece "educado, correto,
inteligente, extremamente culto, não tem nenhum vício", sendo Doutor em
Leis, Senador da República, Diretor de um Ministério, com ótima situação
financeira (p. 336). Na última parte, quando o livro quase descamba em alguns momentos
para o romantismo mais descabelado, María Eugenia encontra Gabriel, no leito de
morte do tio Pancho. A paixão antiga então se reacende e Gabriel, separado da
mulher, mas não divorciado, não se conforma que eles, para atender às
convenções sociais, abram mão de sua felicidade. Gabriel admite que casou-se
por interesse, para aplacar uma "ambição insaciável de chegar... a ser
algo!" Com a influência do sogro, lançou-se em especulações acertadas e
ficou rico, "tão rico, e até mais rico do que eu almejava ser" (p.
420). Gabriel tenta convencer María Eugenia a fugir com ele para a Europa. Após
titubear, ela chega a arrumar a mala, mas desiste na última hora, concluindo,
porém, que também não se casará com Cesar Leal, por quem, além de desprezo
intelectual, nutre imensa ojeriza. Mas, enfim, lembrando-se da tia Clara,
solteira e amarrada pelo resto da vida à solidão e à nulidade, acaba acatando o
compromisso firmado. Este é um romance desolador sobre a desconstrução de uma
rebeldia. Se, no começo, María Eugenia, vaidosíssima - "bonita como,
sou" (p. 15), orgulhosa de seus "cachos louros, lábios rosados e pai
rico" (p. 280) - e bastante consciente, com profunda ironia, de ser uma
mercadoria à venda (p. 326), percebe, no final, que, como seu vestido de noiva,
"vaporoso e vazio", é o "cadáver de uma alma": "um
desses cadáveres que são enterrados nos sacrifícios sem sangue em que não se
mata o corpo" (p. 528). "Como é horrível ser mulher!" (p.
119), eis o grito que lança contra a sociedade venezuelana (latino-americana) machista e misógina. É interessante
observar como María Eugenia, avançada em sua percepção da opressão da mulher,
é, em contradição, agarrada aos valores do meio a que pertence: racista,
classista e reacionária politicamente*.
* Uma das
obsessões correntes ao longo do livro é a necessidade de os personagens
provarem que são brancos. Por exemplo, para atacar a
mulher de Eduardo, Pancho afirma que averiguou a genealogia de María Antonia e descobriu sua "origem muito obscura",
"acidentada e tortuosa" (p. 150). Assim, quando María Eugenia vai
insultá-la, qualifica-a de "arrivista", ou
"chamando as coisas por seu nome, é uma mulata, fruto de pais naturais,
carregada de maldade e ódios raciais" (p. 172). Em outro momento, María
Eugenia demonstra uma descabida alegria ao perceber que, ao contrário do que
pensava, Gabriel, seu amado, não era moreno, e sim "branco, branco,
branquíssimo" (p. 407). Noutra ocasião, Mercedes Galindo se ofende quando
Pancho, segundo ela, tenta "enegrecer" sua origem, e reafirma que se
considera "branquíssima de quatro costados", no que Pancho rebate, dizendo que a genealogia de Mercedes é o que há "de mais falso e mais
convencional" (p. 211). Para além dos preconceitos raciais, a concepção
classista de María Eugenia é de puro esnobismo e alienação. Ela sonha com
"a época feliz da Colônia", "quando nossas bisavós e tataravós
atravessavam as ruas de paralelepípedos de Caracas em cadeiras de mão, levadas
por dois escravos que eram sempre fiéis, retintos e robustos, porque ainda não
haviam sido contaminados com os vícios e as ambições da raça branca" (p.
50) e gosta de passear pela cidade "para ver o
sofrimento pitoresco da miséria" (p. 104). Em dado momento, após irritar-se com as ideias do tio Pancho, que, segundo
ela, "cheiram a socialismo", declara: "Não sou apegada a
dinheiro, mas a democracia, a boemia e a sainte
pauvreté me causam repugnância" (p. 218).