domingo, 30 de dezembro de 2018

As últimas cartas de Jacopo Ortis (1815)
Ugo Foscolo (1778-1827) - ITÁLIA  
Tradução: Andréia Guerini e Karine Simoni    
Rio de Janeiro: Rocco, 239 páginas



Jacopo Ortis é um jovem aristocrata que, por conta de suas posições políticas - favoráveis à unificação da Itália - é obrigado a refugiar-se nas colinas Eugâneas, ao norte de Pádua, região do Vêneto. Lá, na solidão do exílio, conhece Teresa, filha de T***, um nobre arruinado, por quem se apaixona perdidamente. O livro, dividido em duas partes, é constituído por cartas enviadas a um amigo, Lorenzo, que as edita e eventualmente comenta. A primeira parte narra o encontro de Jacopo com Teresa e a impossibilidade de realização deste amor, já que ela está prometida a Odoardo. "Odoardo era rico e de uma família com cujo parentesco o senhor T*** se livraria das perseguições e armadilhas dos seus inimigos, que o acusavam de ter desejado a verdadeira liberdade de seu país, delito capital na Itália" (p. 122). A segunda parte, que acompanha a peregrinação de Jacopo por várias cidades da Itália, acrescenta, às inquietações provocadas pela paixão avassaladora de Jacopo por Teresa, as suas meditações a respeito da política e dos políticos. "Se não houvesse leis protetoras para quem, a fim de enriquecer com o suor e com o pranto dos próprios compatriotas, empurram-nos à necessidade e ao delito, as prisões e os carrascos seriam tão necessárias?" (p. 141). Ao final, diante do casamento de Teresa e da frustração com relação a seus projetos políticos, Jacopo se mata. Às vezes causa estranhamento a maneira violentamente arrebatadora como vive Jacopo, mas temos que lembrar que ele está vivenciando o auge do Romantismo...


 (Dezembro, 2018)



Avaliação: BOM

Curiosidade: 

Avelino Foscolo (1884-1944), escritor brasileiro, anarquista, autor de romances como A capital (1903) e Vulcões (1920), entre outros, descendia de Ugo Foscolo por parte de sua bisavó.


Entre aspas: 


"(...) o que mais poderíamos esperar senão indigência e desprezo ou, no máximo, uma breve e estéril compaixão, o único conforto que as nações civilizadas oferecem ao refugiado estrangeiro?" (pág. 16)

"Acredito que o desejo de saber e recontar a história dos tempos passados seja filho do nosso amor próprio, que gostaria de se iludir e prolongar a vida, unindo-nos aos homens e às coisas que não existem mais e fazendo-as, por assim dizer, nossas". (pág. 19)

"Os homens, não podendo adquirir sozinhos a própria estima e a dos outros, esforçam-se para se elevarem, comparando os defeitos que, por ventura, não têm aos que seu vizinho possui". (pág. 37)

"Sepulturas! Belos mármores e pomposos epitáfios; mas ao abri-los, só encontramos vermes e fedor". (pág. 47)

"(...) onde a religião não está enraizada nas leis e nos costumes de um povo, a administração do culto é comércio". (pág. 62)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Casa de pensão (1884)
Aluísio Azevedo (1857-1913) - BRASIL 
Rio de Janeiro: Editora Três, 1973, 328 páginas




Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos, filho do comendador Manuel Pedro de Vasconcelos, "um dos mais estimados negociantes" (p. 285) de São Luís do Maranhão, chega ao Rio de Janeiro com vinte anos para estudar medicina. "(...) seu tipo franzino, meio imberbe, meio ingênuo (...) de uma vivacidade quase infantil (...)" escondia, segundo o narrador, "(...) um sonhador, um sensual, um louco. (...) Seu todo acanhado, fraco e modesto, não deixava transparecer a brutalidade daquele temperamento cálido e desensofrido" (p. 38). Amâncio, endinheirado, muito mais que se formar, pensa em desfrutar daquela cidade, que imaginava com "cortesãs cínicas e formosas, ceias pela madrugada, passeios pelo Jardim Botânico, em carros descobertos, o champanha ao lado, o cocheiro bêbado" (p. 53). Embora se veja como um sujeito esperto, é rapidamente engolfado pelo "bulício vertiginoso" do Rio de Janeiro. Muda-se para a casa de pensão de Madame Brizard, uma francesa casada, em segundas núpcias, com João Coqueiro, estudante de engenharia muito mais novo que ela. Madame Brizard tem três filhos do primeiro casamento: a mais velha, "a glória da família" (p. 92), unira-se a um ministro plenipotenciário; Léonie (Nini), "viúva histérica" (p. 97), e Cesar, então com doze anos. Na casa de  pensão, no centro, além de Madame Brizard, João Coqueiro, Nini, Cesar e os hóspedes, vive Amélia, irmã de Coqueiro, a Amélia dos camarões, como era conhecida à boca pequena. Coqueiro logo vê em Amâncio uma fonte de renda e passa a explorá-lo, convencendo a irmã a se deixar seduzir e tornar-se amante do estudante. Ao mesmo tempo, Amâncio tenta conquistar Hortênsia, mulher de Luís Campos, seu protetor. Com o tempo, Amâncio e Amélia, em uma outra casa, em Santa Teresa, onde o estudante se recolhera, junto com toda a família, para tratar de dores reumáticas, advindas após pegar bexiga, levam vida de casados - sob a vista grossa de Madame Brizard e Coqueirinho. Tornam a mudar, agora para Laranjeiras, mas já então Amâncio não sente mais por Amélia a paixão de antes... E começa a traçar um plano para abandoná-la... Mas Coqueirinho descobre, denuncia-o à polícia e Amâncio é levado a julgamento pela pretensa defloração de Amélia... Afinal, é julgado e absolvido, mas Coqueirinho, falido, inconformado e motivo de chacota, mata-o com vários tiros de revólver. O livro é às vezes prejudicado por um certo fatalismo, típico da época, e por imagens de extremo mau gosto - "As palavras borboleteavam-lhe da língua como o sangue de uma facada" (p. 150) ou "(...) aquela voz derramada pelos cantos da boca, que nem um caldo fino e seboso" (p. 153). Ou ainda por frases quase incompreensíveis pelo uso de termos técnicos - "Apesar de seus fracos estudos de medicina, fazia-lhe mal aos nervos aquela figura descarnada, que se exinania na impudência aterradora da morte: faziam-lhe mal aqueles membros despojados de vida, aquele esqueleto animado, que, na sua distanásia, parecia convidá-lo para um passeio ao cemitério" - uma frase que mais parece extraída de um poema de Augusto dos Anjos (1884-1914). E a cena final é um convite ao melodrama... Apesar de tudo, é um romance interessante para compreender a sociedade do Rio de Janeiro (e do Brasil) naquele fim de século XIX...


Avaliação: BOM


 (Dezembro, 2018)



sábado, 15 de dezembro de 2018

Mary Barton (1848)
Elizabeth Gaskell (1810-1865) - INGLATERRA 
Tradução:  Julia Romeu    
Rio de Janeiro: Record, 2017, 462 páginas




Um dos primeiros - e, ainda hoje, dos poucos - romances a tratar com realismo a vida do proletariado. A Autora situa sua história em Manchester, no começo da década de 1840, cidade que abrigava uma forte indústria têxtil, num momento em que não havia nenhuma legislação trabalhista e, portanto, a exploração da mão de obra beirava à escravidão. O livro, na verdade, divide-se, quase esquizofrenicamente, em duas partes: a primeira, quando a narradora apresenta a vida de privações dos operários (fome, doenças, mortes, insalubridade) e o desespero da busca pela sobrevivência; a segunda, quando concentra-se no assassinato do filho de um dos empregadores, Mr. Carson, aparentemente provocado por uma crise de ciúmes do pretendente rejeitado da protagonista, que dá título ao romance. Mary Barton é uma jovem que aos dez anos perdeu a mãe e desde então mora com o pai, John Barton, um operário que, revoltado contra o que considera injusto - o paradoxo entre a vida de conforto dos patrões, enquanto os empregados morrem na indigência -, une-se a sindicalistas radicais, tornando-se "um cartista, um comunista, tudo aquilo que chamam de louco e de visionário" (p. 201). Viciado em ópio, Barton, aguda consciência operária - "(...) o trabalho é o nosso capital..." (p. 81), afirma - ajuda na organização de greves, promove a divulgação das ideias paredistas e participa até mesmo na trama de atentados contra os donos das indústrias. Na primeira parte, a situação de extrema pobreza da classe operária é retratada com profunda indignação pela narradora: "(...) quando ouço falar, como já ouvi, dos sofrimentos e das privações dos pobres: (...) dos pais que passavam a noite inteira, sete noites por semana, sentados diante do fogo com suas roupas de rua, de modo que a única cama e os únicos lençóis da família pudessem ser reservados para o uso de seus muitos filhos; de outros que dormiam na laje fria por semanas a fio, sem meios adequados de se suprir de comida e combustível (e isso no mais profundo inverno); de outros, sendo obrigados a jejuar por dias e dias, sem a esperança de tempos melhores para alegrá-los, vivendo, ou melhor, morrendo, num sótão apinhado ou num porão úmido, ou sendo gradualmente aniquilados pela penúria e pelo desespero que os levaria à morte prematura (...) - será que posso me espantar ao saber que muitos deles, em tal época de miséria e infelicidade, tenham falado e agido com precipitação feroz?" (p. 103). Na segunda parte, o romance torna-se quase um trílher de julgamento: acusado pelo assassinato de Henry Carson, James (Jem) Wilson é preso e levado ao tribunal, cuja sentença será a pena por enforcamento. Mas Mary, apaixonada por ele - e sabendo de sua inocência - consegue, após várias peripécias, obter o testemunho de William (Will) Wilson, que garante um álibi insofismável a Jem (eles estavam juntos na noite do assassinato, longe do cenário do crime). Mais à frente, John Barton confessa ser ele o criminoso - um assassinato político - e é perdoado por Mr. Carson, já que, conclui a narradora, "ricos e pobres, patrões e empregados, eram, portanto, irmãos em sofrimento" (p. 428). John Barton morre, Mr. Carson torna-se um patrão mais justo - "(...) quem tem qualquer força dada por Deus deve ajudar os mais fracos (...)" p. 451 -, Jem e Mary Barton se casam e se mudam para o Canadá, onde ele vai ser "fabricante de instrumentos da Faculdade de Agricultura" em Toronto. Se na primeira parte, o discurso da narradora beira à subversão, na descrição das péssimas condições de vida dos operários - nos tempos de recessão, "as carruagens ainda atravessam as ruas, os concertos ainda ficam lotados, as lojas de artigos de luxo ainda têm clientes todos os dias, enquanto o operário passa os dias sem ofício observando essas coisas e pensando na esposa pálida que está em casa, sem reclamar, e nas crianças que choram, pedindo em vão por mais comida - na saúde que se esvai, na vida daqueles que mais ama se acabando" (p. 33); na segunda parte, ela ameniza as contradições e  busca uma conciliação entre patrões e empregados via discurso religioso - os críticos da época afirmam que essa guinada se deu em função das pressões dos editores...


Avaliação: MUITO BOM



Curiosidade: 

A Autora - estamos no início da história do romance, ou seja, no período de sua consolidação - usa de um subterfúgio muito interessante (e simpático) para dar maior verossimilhança à narrativa: a ignorância. Em várias passagens do livro, a narradora confessa não saber determinadas coisas. Por exemplo, à pág. 286: "Mary tateou mais e encontrou algumas balas ou projéteis (não sei como se chamam) naquele mesmo bolso"... Ou, à pág. 316: "Mas pense em Mary e no que ela estava suportando! Imagine (pois eu não saberia descrever) os exércitos de pensamento que se chocavam em seu cérebro". Ou ainda, à pág. 340: "Charley explicou o que queria usando muitas gírias que foram incompreensíveis para Mary e que eu, uma grande fã de terra firme, não saberia repetir corretamente". Em outras passagens, ela se imiscui como Autora, como por exemplo, à pág. 299: "Muitas pessoas têm pânico desses pergaminhos. Eu sou uma delas. Mary era outra". Ou à pág. 313: "E se em seus sonhos (aquela terra onde a piedade e o amor de outra pessoa não podem penetrar, nem para compartilhar da felicidade, nem da angústia; aquela terra cujas cenas são horrores invisíveis, mistérios ocultos e tesouros inestimáveis reservados só para nós; aquela terra onde, sozinha, eu posso ver, enquanto permaneço neste mundo, o lindo rostinho do meu filho querido)". Ou ainda, à pág. 381: "Eu não estava presente, mas alguém que estava me disse que a melhor maneira de descrever a aparência de Mary era dizer que lembrava muito a pintura de Beatriz Cenci feita por Guido Reni".




Entre aspas: 



"Mesmo entre os homens mais nobres, uma vez que o eu ganha uma existência proeminente, torna-se algo mesquinho e pequeno". (pág. 201)

"É notório que não há religioso mais zeloso do que o convertido; e não há patrão mais rígido e indiferente aos interesses de seus trabalhadores do que aqueles que vieram eles próprios dessa classe". (pág. 203)

"(...) sentir ansiedade e tristeza pelo mesmo motivo faz as pessoas ficarem amigas mais depressa do que qualquer outra coisa (...)" (pág. 400)


sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A paz dura pouco (1960)
Chinua Achebe (1930-2003) - NIGÉRIA 
Tradução: Rubens Figueiredo      
São Paulo: Companhia das Letras, 2013, 194 páginas



Corre o ano de 1956. Obi Okonkwo, 25 anos, está de volta à Nigéria, após quatro anos estudando Inglês em Londres, financiado pela União Progressista de Umuofia, "vilarejo de língua ibo na Nigéria Oriental" (p. 13), cidade-natal do protagonista. Obi - de nome completo Obiajulu, "a mente afinal em repouso" (p. 15), criado no anglicanismo - é o primeiro cidadão de sua aldeia, situada a 800 quilômetros de Lagos, a capital, a conseguir um "'cargo europeu' no serviço público" (p. 16), ou seja, a tornar-se um funcionário civil de primeira classe, o que "basta para  alçar um homem das massas para a elite" (p. 109), dando-lhe direito a apartamento funcional, adiantamento para a compra de um carro e salário mensal de 47,10 libras, valor equivalente ao que seus concidadãos levavam até um ano para ganhar. Entusiasmado com as perspectivas futuras e cheio de ideias progressistas, Obi luta para tornar-se uma cidadão exemplar, objetivando contrariar a visão dos colonizadores ingleses, que achavam que os africanos "ao longo de muitos séculos, foram vítimas do pior clima do mundo e de todas as doenças imagináveis", o que os deixou "moral e fisicamente solapados" (p. 12). Instalado no escritório da Comissão de Bolsas de Estudo, Obi tenta sobreviver com o pouco que lhe sobra após pagar a cota da dívida para com a União Progressista de Umuofia (20 libras) e a mandar dinheiro para os pais (10 libras). Pouco a pouco chegam as cobranças pelo seguro do carro, as cotas referentes ao imposto de renda, as novas despesas contraídas para manter as aparências de sujeito bem-sucedido... Para piorar, Obi descobre que sua família interpõe-se de maneira irredutível ao casamento com Clara Okeke, por conta de uma maldição que pesa sobre os Okeke, e aumenta ainda mais as dívidas para pagar seu aborto. Cada vez mais enredado, Obi Okonkwo acaba aceitando subornos, tanto em dinheiro quanto em sexo, inicialmente para resgatar débitos, depois por hábito, até ser afinal pego em flagrante delito... Maravilhoso romance sobre como a realidade dos países periféricos, submetidos à miséria e aos maus políticos, arrastam até os mais bem intencionados... Ou, usando as palavras do próprio protagonista: “A tragédia de verdade nunca se resolve. Prossegue para sempre sem esperança. A tragédia convencional é muito fácil. O herói morre e nós nos sentimos purgados de nossas emoções. Uma tragédia de verdade se passa numa esquina, num local sujo (...). O resto do mundo não tem consciência daquilo. (...) Não existe purgação das emoções para nós, porque não estamos lá" (p. 51-52).

 (Novembro, 2018)

Avaliação: OBRA-PRIMA
















terça-feira, 13 de novembro de 2018

Mar de histórias - 9º volume 
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai (org.)         
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, 391 páginas 



Este volume, intitulado "Tempo de crise", revela 23 contos de 20 autores, incluindo o ótimo "Camunhegue", do brasileiro Valdomiro Silveira (1873-1941), infelizmente engolfado entre os chamados "pré-modernistas", conceito preguiçoso,  que não quer dizer absolutamente nada... Os destaques vão para o sempre excelente autor irlandês James Joyce (1882-1941), aqui representado pelo magnífico "Compensações"; a pequena obra-prima, ao mesmo tempo de humor e terror, "A porta aberta", do inglês Saki (1870-1916); e mais outras três obras-primas: "Num bosque", do japonês Ryonusuke Akutagawa (1892-1927), "Por causa dos dólares", do polonês, que escrevia em inglês , Joseph Conrad (1857-1924), e "A tragédia de um personagem", do italiano Luigi Pirandello (1867-1936). Bons também "O homem de Cabul", do indiano Rabindranath Tagore (1861-1941), "A viagem a Tilsit", do alemão Hermann Sudermann (1857-1928), "O trinchante", do francês Valery Larbaud (1881-1957) e "Um episódio do lago de Genebra", do austríaco Stefan Zweig (1881-1942). Isso mostra que, embora os tempos fossem realmente de crise (o livro aborda o  período compreendido entre 1913 e 1919, ou seja, plena Grande Guerra), ainda havia escritores que tinham o que dizer a respeito do mundo. Não teriam voz, no entanto, os que pereceram nos campos de batalha daquele que talvez tenha sido um dos mais insanos episódios da história da Humanidade - e que eram jovens entre 1913 e 1919...



(Novembro, 2018)


Avaliação: MUITO BOM

domingo, 11 de novembro de 2018

A falência (1901)
Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) - BRASIL                     
Florianópolis/Santa Cruz do Sul: Editora Mulheres/Edunisc, 2003, 374 páginas



A ação se passa em 1891, ano “em que o preço do café assumira proporções extraordinárias” (p. 31), logo após a implantação da República, época também das grandes especulações financeiras na Bolsa de Valores, período conhecido como Encilhamento. Francisco Teodoro, imigrante chegado ainda criança de Portugal, “sem bagagem” (p. 34), “quase analfabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os sapatões barulhentos” (p. 41), alcança fortuna, dono de uma das casas “mais graúdas no comércio de café” (p. 29) no Rio de Janeiro. Com “um belo ar de burguês satisfeito” (p. 30), mora com a família numa mansão na praia de Botafogo, “em que as roupas, as comidas e as bebidas atafulhavam os armários e a despensa até a brutalidade” (p. 209). A mulher, Camila, filha de “gente pobre, mas de educação” (p. 45), vive para festas e para o amante, o doutor Gervásio, um médico rico que não precisa exercer a profissão. O filho mais velho, Mário, sabendo do caso extraconjugal da mãe, vinga-se, gastando dinheiro com mulheres e farras, indignado com o comportamento de Camila e com a cegueira do pai, único entre todos a não desconfiar do adultério. Há ainda a filha Ruth, violinista sensível e talentosa, as irmãs gêmeas Lia e Rachel, a sobrinha Nina, filha de um irmão de Camila, e a empregada Noca, espécie de faz-tudo. Pouco a pouco, Francisco Teodoro envolve-se com especulações sobre o preço do café até que, falido, mata-se, envergonhado por não conseguir manter seu sonho de “ser o primeiro negociante, o mais hábil, o mais forte” (p. 33). Assim, empobrecida, a família muda-se para uma pequena casa no subúrbio, que Francisco Teodoro havia doado para o futuro incerto de Nina, longe dos antigos amigos e abandonados até mesmo por Mário, agora casado com a nobre e rica Paquita, “arzinho enfadado de loura anêmica”, (p. 184). Noca, Nina e Ruth começam a trabalhar para compor o orçamento doméstico, enquanto Camila descobre decepcionada que o amante havia lhe mentido todo o tempo, pois, casado, havia deixado a mulher por ela ter cometido adultério... Romance fluido, escrito na terceira pessoa, o que deixa a narradora à vontade para comentar o que vai na consciência dos personagens, é uma crítica acerba a respeito da desigualdade social – “Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?” (p. 238), pergunta-se Ruth -, do trabalho como instrumento de emancipação do ser humano e do papel da mulher na sociedade. A opressão de Camila se dá tanto pelo marido, João Teodoro – “A mulher nasceu para mãe de família. O lar é o seu altar; deslocada dele não vale nada!” (p. 81);  “não quis casar com mulher sabichona. É nas medíocres que se encontram as esposas” (p. 132), ele pensa –, quanto pelo amante, Gervásio, um sujeito arrogante e superficial, que faz de Camila “obra sua”, pois ele a transforma, mudando-a “ao influxo de seus gostos, da sua convivência e do seu espírito” (p. 75). O romance também denuncia, de forma veemente, a violência doméstica contra as mulheres, sejam ricas como D. Joana, uma das tias de Camila, viúva de um colchoeiro, “de quem sofrera os maus tratos que, na inconsciência das bebedeiras, ele lhe ministrava” (p. 61); ou como a mãe do Capitão Rino, “morta a facada pelo pai, como adúltera” (p. 196); sejam miseráveis como Sancha, a empregada que ironicamente apanha todos os dias de D. Joana, com a conivência indiferente da outra tia, D. Etelvina. A narradora passeia com absoluta competência tanto pelas mansões e armazéns do cais do porto, quanto pelas favelas nascentes (“Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, resignada a tudo: ao pão duro e à sombra de qualquer telha barata. Uma pobreza avarenta aquela, que formigava por toda a encosta de lajedos brutos, entre ratazanas e águas servidas” (p. 101)). Com competência, ela consegue, até mesmo, formular um diagnóstico bastante preciso do que o país iria se tornar: “A pulsação do seu sangue alvoraçado dava-lhe [ a João Teodoro] a percepção fantástica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorância de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela política amaldiçoada” (p. 312).


(Novembro, 2018)



Avaliação: MUITO BOM

Entre aspas: 



“Qual é a mulher, por mais estúpida, ou mais indiferente, que não adivinhe, que não sinta o adultério do marido no próprio dia em que ele é cometido? Há sempre um vestígio da outra, que se mostra em um gesto,, em um perfume, em uma palavra, em um carinho... Eles traem-se com as compensações que nos trazem...”. (p. 72)



“Os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo – como se não pagássemos cara a felicidade que fruímos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que eles infligem às nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhe: hipócritas! Hipócritas”. (p. 71-72)




domingo, 4 de novembro de 2018

A saga de Gösta Berling (1891)
Selma Lagerlöf (1858-1940) - SUÉCIA                    
Tradução: Inga e Miguel Gullander     
Lisboa: Cavalo de Ferro, 2017, 405 páginas





Romance anacrônico, que usa de procedimentos pré-românticos para contar, não a saga do protagonista Gösta Berling, "jovem, alto, magro e extraordinariamente belo" (p. 9), mas sim para evocar personagens e paisagens de uma região específica da Suécia, a chamada Värmland, e de uma época específica, "por volta de 1820" (p. 9). E a autora assim procede intercalando algumas aventuras de Gösta Berling, que beiram ao inverossímil, por conta de seu irresistível poder de sedução das mulheres, com episódios que lançam luzes sobre os personagens secundários que orbitam em torno dele. Berling, sacerdote* rejeitado pela Igreja, cujo mal foi ter recebido "amor em demasia": -"Mulheres e homens têm-te amado. Bastava brincares e rires, cantares ou fazeres música, e toda gente te perdoava tudo" (p. 387) -, é uma espécie de super-herói, que aos trinta anos, "cavalheiro dos cavalheiros", é "só por si, (...) melhor orador, cantor, músico, caçador, beberrão e jogador que todos os outros juntos" (p. 35). O livro é uma declaração de amor à terra natal da autora, um lugar onde a natureza, "dominada por forças invisíveis, que odeiam o homem" (p. 103), pede para ser dominada.


* É curioso que os tradutores nomeiem como padres os pastores da igreja protestante...


(Novembro, 2018)


Avaliação: BOM

Entre aspas: 


"(...) a vida é difícil para os potros que não suportam nem as esporas nem o chicote" (pág. 16)

"Acontece, frequentemente, os homens tornarem-se cruéis, atormentando o próximo, porque temem pelas suas próprias almas" (pág. 88)

"Quem compreende, não odeia" (pág. 118)

"O coração inquieto perde sempre. Torna, sempre, ainda pior o mal" (pág. 178)